Não demorou nem duas horas pra rádio peão funcionar.
Minha mesa nova fica na antessala da presidência. É um espaço amplo, com carpete grosso que abafa o som dos passos e uma vista que custa milhões. Do meu lado esquerdo, Vicente trabalha em silêncio absoluto. Do lado direito, a porta dupla de madeira que leva à sala do Augusto.
Tá fechada. Mas eu sei que ele tá lá dentro.
Tento focar na tela do computador. Tenho acesso a pastas que ontem eram bloqueadas. Orçamentos, planilhas de custo, contratos sigilosos.
Mas não consigo ler nada.
Porque cada vez que o elevador abre no andar, alguém espicha o pescoço pra me olhar.
Não é olhar de boas-vindas. É olhar de zoológico.
— Ignore. — Vicente diz, sem tirar os olhos do tablet.
— Eles tão falando.
— Eles sempre falam. — Vicente digita rápido. — Acostume-se.
Meu estômago ronca. Não comi nada desde o vômito das seis da manhã.
Preciso sair daqui. Preciso ver gente normal.
— Vou descer pro café. — Aviso.
Vicente para de digitar. Me olha por cima do