CAPÍTULO 8 — O ALVO

Não demorou nem duas horas pra rádio peão funcionar.

Minha mesa nova fica na antessala da presidência. É um espaço amplo, com carpete grosso que abafa o som dos passos e uma vista que custa milhões. Do meu lado esquerdo, Vicente trabalha em silêncio absoluto. Do lado direito, a porta dupla de madeira que leva à sala do Augusto.

Tá fechada. Mas eu sei que ele tá lá dentro.

Tento focar na tela do computador. Tenho acesso a pastas que ontem eram bloqueadas. Orçamentos, planilhas de custo, contratos sigilosos.

Mas não consigo ler nada.

Porque cada vez que o elevador abre no andar, alguém espicha o pescoço pra me olhar.

Não é olhar de boas-vindas. É olhar de zoológico.

— Ignore. — Vicente diz, sem tirar os olhos do tablet.

— Eles tão falando.

— Eles sempre falam. — Vicente digita rápido. — Acostume-se.

Meu estômago ronca. Não comi nada desde o vômito das seis da manhã.

Preciso sair daqui. Preciso ver gente normal.

— Vou descer pro café. — Aviso.

Vicente para de digitar. Me olha por cima do
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