O som do meu salto batendo no concreto da escada de emergência parece tiro.
Um andar. Dois. Três.
Eu não olho pra trás.
Minha respiração tá rasgando a garganta, o ar é gelado, mas eu tô suando. O paletó do Augusto ficou lá em cima, no chão, junto com a minha dignidade.
Empurro a barra antipânico do térreo com o ombro. O ar da rua me acerta um tapa na cara. Úmido, salgado, barulhento.
A porta de serviço do hotel dá pra uma rua lateral, longe do vallet, longe dos fotógrafos.
Graças a Deus.
Eu tremo. O vinho no meu vestido já tá esfriando, virando uma crosta grudenta no peito e na barriga. Me sinto imunda.
Olho pros lados.
Não dá pra pegar ônibus assim. Não dá pra esperar Uber parada na calçada igual um alvo.
Vejo um táxi passando vazio. Levanto a mão desesperada.
O motorista me olha torto — mulher sozinha, descabelada, vestido manchado —, mas para.
— Várzea Clara. — Eu jogo o corpo no banco de trás e bato a porta. — Rápido, por favor.
O carro arranca.
Eu afundo no banco, longe da janela