Capítulo 2 — A decisão

A Romano Group fica no Centro Corporativo de Porto Sereno, onde tudo é vidro, aço e silêncio gelado, como se o ar-condicionado tivesse sido criado pra te lembrar o tempo todo que você não pertence ali.

Eu chego cedo demais porque eu prefiro esperar do lado de dentro do que ficar na calçada contando os minutos e pensando besteira.

Quando atravesso as portas giratórias, meu reflexo aparece multiplicado nas paredes espelhadas, e por um segundo eu enxergo uma versão minha que parece mais segura do que eu realmente estou.

A recepção é grande, bonita, e tem aquele cheiro de lugar rico: limpeza cara e café que alguém fez sem se preocupar com o preço do pó.

Eu aperto a alça da minha bolsa gasta com força, ajeito o blazer velho da minha mãe velho, mas impecável e tento não lembrar do teste escondido na gaveta do banheiro.

A palavra grávida fica ali, colada no fundo da minha cabeça, como se ela tivesse mudado o jeito que eu piso no chão.

Na sala de espera, tem mais gente do que eu queria.

Doze candidatas, talvez mais, e quase todas parecem já ter nascido prontas pra aquele lugar: cabelo alinhado, salto alto, perfume doce, celular caro na mão.

Eu fico num canto, com a coluna reta, e respiro devagar, porque o enjoo vem em ondas pequenas e traiçoeiras.

“Nome?” a recepcionista pergunta, sem me olhar direito.

— Lavínia Duarte. — eu respondo, e já me arrependo, porque eu odeio quando alguém fala meu nome completo com formalidade, como se eu fosse um documento.

Ela confirma na tela e me entrega um crachá temporário, como se aquilo fosse um convite e uma ameaça ao mesmo tempo.

Eu sento, cruzo as pernas, e finjo que estou tranquila.

Na minha cabeça, eu repito o que eu sei fazer: logística, auditoria, gestão de projetos, números que não mentem quando a gente sabe olhar.

É isso que eu tenho.

Não é sobrenome forte, não é padrinho, não é indicação de gente grande.

Meu celular vibra no modo silencioso.

Moema.

Eu não abro a mensagem.

Se eu ouvir a voz dela agora, eu desmancho no meio da sala de espera e vou passar vergonha igual adolescente.

— Srta. Duarte? — uma voz chama, e eu levanto na hora.

A mulher do RH é educada, mas não é calorosa; o sorriso dela parece parte do uniforme.

Ela me leva por um corredor que parece não acabar, e eu penso que aquele prédio foi construído pra cansar quem vem de fora antes mesmo de começar.

A sala é pequena, arrumada, e tem uma vista bonita da cidade, como se Porto Sereno existisse em duas versões: a da rua e a da janela.

Ela aponta pra cadeira, abre uma pasta e começa direto, sem rodeio.

— Conte um pouco da sua experiência com auditoria interna e controle de processos.

Eu respondo sem floreio, porque floreio é coisa de quem quer impressionar.

Eu falo de empresa pequena, de gente fazendo gambiarra pra sobreviver, de erro de estoque que vira prejuízo no fim do mês, de como eu aprendi a achar problema porque eu era paga pra isso — e porque, na vida real, eu também sempre tive que achar o problema antes que ele explodisse.

Ela faz mais perguntas.

Perguntas técnicas de verdade: logística reversa, KPI, prazos, risco operacional, como eu priorizo quando todo mundo quer tudo “pra ontem”.

Eu vejo o momento em que ela para de me olhar como “mais uma” e começa a me olhar como alguém que pode ser útil.

E isso, pra mim, já vale mais do que qualquer elogio.

— Você se sentiria confortável trabalhando sob supervisão direta do CEO? — ela pergunta, como quem pergunta se eu sei respirar embaixo d’água.

Meu estômago aperta, e eu sinto o enjoo subir só de imaginar alguém mandando na minha vida com a mesma facilidade com que manda numa empresa.

— Eu me sinto confortável trabalhando com pressão, desde que exista clareza no objetivo e respeito no processo. — eu digo.

Ela levanta uma sobrancelha, como se não esperasse a palavra “respeito”.

Eu sustento o olhar, porque eu já estou cansada de fingir que humildade é aceitar ser maltratada.

Quando ela fecha a pasta, eu tenho vontade de levantar e sair correndo, porque a espera por resposta sempre foi o meu pior lugar.

Mas ela não me dá esse luxo.

— Muito bem. — ela diz.

— Você foi aprovada.

Eu sinto um calor subindo do peito pra garganta, como se alguém tivesse apertado um botão dentro de mim.

— Segunda-feira, oito da manhã. — ela continua.

— Você vai atuar como assistente do Projeto Romano.

— O CEO supervisiona pessoalmente.

Eu assino o que precisa assinar com a mão firme, mesmo com o coração batendo errado.

Eu agradeço, pego os papéis, saio do prédio e só quando o vento da rua b**e no meu rosto eu percebo que eu estava prendendo a respiração.

Do lado de fora, o barulho do Centro Corporativo parece mais alto do que antes.

Carro, buzina, gente apressada, e eu no meio, segurando um contrato simples como se ele fosse uma boia.

Eu ando até uma praça pequena, sento num banco e finalmente abro o W******p.

O áudio da Moema estoura no meu ouvido antes mesmo de eu lembrar de abaixar o volume.

— CONTRATADA?! — ela grita, e eu consigo imaginar a cara dela sem ver.

— Vini, eu sabia! Eu sabia! Agora… — a voz dela cai um pouco, vira séria — agora me conta o que você vai fazer com o… você sabe.

— Amiga, pelo amor de Deus, não inventa de sumir. Não inventa de fazer besteira sozinha.

Eu fecho os olhos e encosto a testa na minha mão.

Moema fala como se o mundo fosse um lugar que acolhe, mas ela também sabe que o mundo é cruel, e é por isso que ela grita antes de pedir.

— Eu tô bem. — eu digo pra mim mesma, porque eu não tenho coragem de responder agora.

Eu olho o movimento da praça e vejo mães passando com crianças, gente vendendo água, gente correndo com uniforme de trabalho, e eu penso que a vida segue mesmo quando a gente sente que acabou.

Eu levo a mão à barriga de novo, sem perceber.

Ainda não tem barriga, mas meu corpo já parece saber que existe uma prioridade nova.

E aí, no meio do barulho, eu tomo uma decisão tão nítida que dói: ninguém vai saber.

Ninguém vai usar isso contra mim.

Ninguém vai olhar pra mim e achar que eu fiz um plano.

Não foi plano.

Foi uma noite.

E agora é a minha vida inteira.

Eu sou filha da Sueli Duarte, criada na Várzea Clara, e eu aprendi a levantar quando não tem mão estendida.

Eu posso estar com medo, mas medo não paga pré-natal, não compra fralda, não garante teto.

Trabalho garante.

Eu volto pra casa com o papel dobrado na bolsa e um cuidado novo dentro de mim, que é quase feroz.

Sueli me recebe na porta sem festa, mas os olhos dela fazem a festa por ela.

— E aí? — ela pergunta, como se fosse só mais um dia.

— Eu consegui. — eu respondo, e dessa vez eu sorrio de verdade.

Ela me abraça rápido, do jeito dela, e na hora que solta diz:

— Agora segura.

Eu entendo tudo o que ela não disse.

Naquela noite eu quase não durmo.

Eu penso em fralda, em aluguel, em como esconder enjoo em reunião, em como a minha vida vai ser quando a barriga começar a aparecer de verdade.

E, principalmente, eu penso numa coisa que eu me recuso a pensar: e se ele aparecer?

Se ele aparecer, eu lido.

Se ele não aparecer… eu também lido.

Porque esse bebê é meu.

Segunda-feira chega rápido, como sempre chega quando a gente está com medo.

O elevador da Romano Group tem espelho e música baixa, e eu entro com a sensação de que estou indo pra um julgamento.

Eu ajeito o crachá, seguro a bolsa, respiro, e tento lembrar que eu fui escolhida pela minha competência.

A porta abre no andar executivo, e o corredor parece mais frio do que o térreo.

Eu dou dois passos.

Um homem de terno cinza está de costas, falando ao telefone com uma calma perigosa.

Eu não vejo o rosto, mas eu reconheço a voz na hora.

Meu corpo inteiro trava, como se eu tivesse voltado pro terraço do Baile do Farol sem querer.

Ele encerra a ligação, vira devagar e me olha como se eu fosse um item novo na agenda dele.

— Você deve ser a nova assistente. — ele diz, seco, correto.

— Augusto Romano.

— Espero que aguente pressão.

Eu abro a boca, mas não sai nada.

A voz é a mesma.

A postura é a mesma.

Mas o rosto… o rosto é o que eu nunca vi de verdade naquela noite.

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