CAPÍTULO 5 - A MARCA

Tá frio pra caralho aqui dentro.

O salão de eventos do Hotel Majestic tem ar-condicionado no talo, e eu tô de vestido sem manga, sem blazer, tentando não tremer. Vicente disse que era obrigatório. Então eu vim.

Tô encostada numa coluna de mármore, segurando uma taça de água com gás que ninguém bebe de verdade, vendo a elite de Porto Sereno fingir que liga pro discurso de sustentabilidade no palco.

Do meu canto, eu vejo ele.

Augusto tá num círculo de homens velhos e importantes, de terno escuro, copo de uísque na mão. Ele não ri. Ele só escuta, fala pouco, e os outros balançam a cabeça como se ele tivesse dito a verdade absoluta.

Ele domina a sala sem fazer força.

E eu tô tentando sair da órbita dele antes de bater de frente.

— Lavínia Duarte?

A voz é suave, mas eu arrepio antes de virar.

Quando viro, dou de cara com ela.

Loira. Pele perfeita. Vestido branco de seda. Anéis nos dedos. Ela sorri, mas tá medindo cada pedaço meu: o vestido velho, o cabelo preso simples, a falta de joia.

— Yasmim Noronha. — Ela estende a mão. — Noiva do Augusto.

Eu aperto. A mão dela é fria.

— Prazer. Sou da auditoria.

— Eu sei. — Ela dá um passo pra frente, invade meu espaço. O perfume enjoa. — O Augusto comentou. Disse que você é... esforçada.

Esforçada.

Tradução: pobre.

— Ele valoriza competência. — Eu não abaixo a cabeça.

Yasmim ri baixinho, gira a taça de vinho na mão.

— Claro que valoriza. — Ela baixa o tom. — Mas cuidado, querida. O Augusto tem um fraco por... projetos de caridade. Ele adora salvar quem precisa. Mas cansa rápido.

Meu rosto queima.

Ela tá marcando território. Farejou ameaça e veio mijar no poste.

— Eu não sou projeto de caridade. Sou funcionária. Com licença.

Faço menção de sair.

O movimento dela é rápido.

Pra quem tá longe, parece acidente. Ela gesticulou, eu esbarrei.

Mas eu senti o empurrão no meu braço.

O vinho voa.

Não nela. Em mim.

Gelado. Escuro. B**e no meu peito, escorre pela barriga, mancha o vestido. Cheiro de álcool sobe na hora.

— Ai, meu Deus! — Yasmim grita teatral, mão na boca. — Que desastre! Você trombou em mim!

O salão inteiro vira.

Silêncio.

Eu vejo os olhares. Pena. Nojo. Diversão.

Vejo Augusto. Lá longe. Parado. Olhando direto pra cá.

— Olha o que você fez no meu sapato! — Yasmim reclama, embora não tenha uma gota nela. — Mas não se preocupa, querida. Mancha sai. Ou não.

Ela sorri.

Vitória.

Eu não discuto. Não vou dar show pra essa plateia.

Sinto o vinho gelado encharcando meu sutiã. A humilhação queima, mas eu engulo.

— Licença.

Viro as costas. Caminho pro corredor dos banheiros. Cada olhar nas minhas costas pesa.

Eu não choro. Duarte não chora na frente de herdeira.

Entro no corredor lateral. Mais silencioso. Carpete grosso. Luz amarela.

Paro na frente de um espelho.

Perda total.

O blazer tá ensopado. O vestido colado no corpo.

Arranco o blazer com raiva. Jogo no braço.

O ar-condicionado b**e direto na minha pele. O vestido é de alça fina, meus ombros ficam expostos.

Tento limpar o vinho do pescoço com a mão trêmula.

— Lavínia.

Congelo.

Viro devagar.

Augusto tá parado na entrada do corredor. Sozinho. Tenso.

Ele caminha na minha direção. Som da festa é só um zumbido distante.

— A Yasmim é descuidada com quem ela considera ameaça. — Ele para a dois passos.

Eu tô exposta. Sem blazer. Vestido manchado. Cabelo saindo do lugar.

— Foi acidente. Eu vou pra casa.

Augusto tira o paletó. Movimento fluido. Cheiro de sândalo invade antes dele se aproximar.

— Cubra-se. Vou pedir pro Vicente trazer o carro.

Hesito.

Mas tô cheirando a vinho barato e exposta demais.

Estendo a mão.

A alça do vestido escorrega um centímetro.

A luz amarela b**e direto no meu ombro esquerdo.

A marca é pequena. Nítida.

Cicatriz oval. Irregular. Branca contra a pele.

Marca de dente.

Augusto trava.

A mão dele para no ar.

O olhar desce do meu rosto pro meu ombro.

E fixa.

Meu coração b**e nos ouvidos.

Ele viu.

Tento puxar o paletó, cobrir, fugir.

Ele não solta.

Deixa o paletó cair no chão.

Dá um passo pra frente.

Não é cavalheiro. É predador.

Recuo até minhas costas baterem na parede fria.

Augusto apoia a mão na parede, do lado da minha cabeça. Me bloqueia.

Ele não olha pro meu rosto.

Olha pra cicatriz. Intensidade que faz minha pele arder.

Os olhos dele escureceram.

— De onde você tirou isso? — Voz rouca. Perigosa.

— É queimadura. — Minha voz falha.

Ele levanta a outra mão.

Passa o dedo a milímetros da cicatriz. Não encosta. Mas o calor irradia pra minha pele.

— Eu conheço essa marca. — Ele sobe o olhar pros meus olhos. — Eu fiz essa marca.

Não tem como mentir.

A certeza nos olhos dele é absoluta.

— Onde tá a máscara, Lavínia? — Possessivo. Terrível. — A máscara azul. Onde tá?

Empurro o peito dele com as duas mãos. Pânico cego.

— Me deixa passar.

Ele não se move.

— Era você. — Ele murmura. — No meu escritório. No meu prédio. O tempo todo.

— Eu me demito.

O sorriso que surge no canto da boca dele é mínimo.

Assustador.

— Você não vai a lugar nenhum.

O elevador apita. Alguém vem.

É minha chance.

Mergulho por baixo do braço dele.

Corro pra escada de emergência.

Empurro a porta. Salto batendo no concreto ecoa enquanto desço.

Fugindo do homem que acabou de descobrir que a mulher que ele procurava tava bem debaixo do nariz dele.

E eu tô carregando o filho dele.

A caça começou.

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