Capítulo 3 — O chefe

A sala de reunião do andar executivo é grande demais pro número de pessoas.

Tem uma mesa comprida, cadeiras iguais, água em garrafinhas alinhadas, ar-condicionado no talo e um silêncio que não combina com Porto Sereno.

Ali dentro, até o mar parece longe.

Eu entro com o coração preso na garganta, segurando um bloco de anotações como se ele fosse um escudo.

Tem gente da equipe do projeto, gente que eu não conheço, e todo mundo tem uma cara de “já vi de tudo”.

Eu escolho uma cadeira mais pro fim, perto da parede, porque eu não vim aqui pra aparecer, eu vim pra ficar.

A porta abre de novo.

E o ar muda.

Augusto Romano entra sem pressa, como se a reunião tivesse sido marcada no horário dele por obrigação do resto do mundo.

Terno sob medida, postura reta, cabelo impecável, aquele olhar cinza-escuro que não pede permissão.

Ele não sorri.

Ele não cumprimenta um por um.

Ele só assume o lugar na ponta da mesa como se o lugar fosse dele desde sempre.

— Bom dia. — a voz dele é calma, mas não tem gentileza.

— Vamos ser objetivos.

Ele liga o projetor e aparece na tela um título que parece simples, mas pesa como pedra: Projeto Romano.

Expansão portuária. Auditoria interna. Prazo de seis meses.

Eu anoto, rápido, tentando não pensar que “seis meses” é mais ou menos o tempo em que a minha vida vai ficar impossível de esconder.

— Quero uma auditoria que não seja maquiagem. — ele diz, apontando pra tela.

— Eu não tolero desperdício. Nem mentira. Nem atraso.

As pessoas assentem como se isso fosse normal.

Pra mim não é.

Eu conheço chefe grosseiro, chefe preguiçoso, chefe assediador… mas aquele ali tem outra coisa por trás: ele parece o tipo de homem que não aceita perder nada.

Ele distribui funções, fala de metas, de relatório semanal, de controle de risco, de como Porto Sereno não pode virar manchete por falha interna.

Quando ele fala em manchete, eu lembro do Baile do Farol sem querer.

A máscara. O terraço. A noite.

Eu aperto a caneta até quase quebrar.

O enjoo vem de leve, só um aviso.

Eu respiro pelo nariz, devagar, como a Moema vive mandando eu fazer.

Foco. Não desmaia. Não chama atenção. Não dá motivo.

— Srta. Duarte. — a voz dele corta a sala e me acerta no peito.

Eu levanto os olhos na hora.

O olhar dele está em mim como se ele tivesse me escolhido desde o primeiro segundo, e isso me irrita, porque ninguém me escolhe assim sem motivo.

— Por que a logística reversa é crítica nesse cenário? — ele pergunta, seco.

É uma pergunta simples, mas não é.

É uma armadilha com gravata.

Ele quer ver se eu sei ou se eu só decorei.

Eu respondo direto, sem discurso:

— Porque a expansão aumenta o volume e o risco de retorno irregular. Se a gente não mapear a rota de volta e o descarte, a perda vira invisível no fluxo e explode no custo final.

— E o que parece “custo operacional” vira fraude fácil.

A sala fica quieta.

Alguns olhares desviam pro Augusto como se esperassem o selo dele.

Ele não me dá selo.

Ele inclina a cabeça, como se estivesse avaliando um produto.

— Resposta decorada. — ele diz.

— Eu quero raciocínio, não papagaio.

Eu sinto o sangue subir no rosto, quente, mas eu não abaixo o olhar.

Eu já fui humilhada em entrevista por gente menor do que ele.

Eu não vou engolir isso aqui se eu tiver escolha.

— Então o senhor quer que eu resolva o problema… ou que eu faça teatro? — eu pergunto, com a voz bem controlada.

É como se alguém tivesse puxado o freio de mão da reunião.

Silêncio total.

Eu sinto que acabei de cometer uma burrice enorme e, ao mesmo tempo, uma pequena justiça.

Augusto me encara por dois segundos longos.

E então, pela primeira vez, a boca dele mexe num quase sorriso.

Não é simpatia.

É… interesse.

— Bom. — ele diz, e volta pra tela.

Como se eu não tivesse feito nada.

Como se aquilo tivesse sido só um teste e eu tivesse passado — ou, pior, chamado a atenção dele do jeito errado.

A reunião segue.

Eu anoto tudo: entregas, datas, relatórios, nomes.

E eu tento não pensar na forma como ele olhou pra mim quando eu respondi.

Porque aquela olhada não é profissional.

Não completamente.

Quando termina, as pessoas levantam rápido, como se ninguém quisesse ficar ali mais um segundo do que o necessário.

Eu guardo meu bloco e me preparo pra sair também, quando alguém encosta do meu lado com calma demais.

— Srta. Duarte. — um homem fala, num tom discreto.

Eu viro e encontro um cara elegante, magro, com óculos de aro fino e um tablet na mão como se fosse extensão do braço.

Ele parece mais humano que o Augusto, mas ainda assim… controlado.

— Vicente Klein. — ele se apresenta.

— Assistente executivo do Sr. Romano.

Ah.

O homem que ouve tudo.

O filtro.

O porteiro do inferno.

Ele me olha com uma neutralidade educada.

— Ninguém responde assim pra ele no primeiro dia. — Vicente diz, sem julgamento, só constatação.

— Você tem coragem… ou tendência ao suicídio.

Eu quase rio, mas seguro.

— Eu tenho contas. — eu respondo.

— E agora eu tenho prazo.

Uma coisa parecida com respeito passa rápido pelo rosto dele.

Não é simpatia.

É reconhecimento.

— Entendo. — Vicente diz.

— O Sr. Romano gosta de eficiência. E odeia surpresas.

Eu sinto um arrepio.

Ótimo. Eu sou uma surpresa ambulante.

— Qualquer necessidade operacional, você fala comigo primeiro. — ele completa.

— Eu evito que você seja atropelada… sem necessidade.

— Obrigada. — eu digo, porque eu não sou mal-educada.

Mas eu não confio em “ajuda” fácil dentro de prédio caro.

Eu saio do corredor e vejo, através do vidro fumê, a sala do Augusto.

Ele está de pé, de costas, olhando a cidade como se Porto Sereno fosse um tabuleiro.

E eu sinto, com uma clareza desconfortável, que eu sou uma peça nova naquele jogo.

Meu celular vibra de novo.

Moema.

Eu não tenho coragem de ouvir áudio no meio daquele lugar, então eu só olho a tela por cima.

VINI, ME RESPONDE. VOCÊ TÁ VIVA?

Eu engulo em seco e continuo andando, fingindo que eu não sinto o peso do olhar do Augusto me seguindo por dentro do vidro.

Quando a porta do elevador fecha, eu finalmente solto o ar.

E eu percebo que estou tremendo, não de medo do trabalho.

De medo do homem.

☆⁠▽⁠☆

À noite, na Várzea Clara, o barulho da rua parece um abraço depois do silêncio do Centro Corporativo.

Sueli está na cozinha, mexendo alguma coisa no fogão, e me olha sem perguntar muita coisa — como se já soubesse que eu voltei diferente.

— E aí? — ela pergunta, só.

Eu largo a bolsa no sofá e sento com cuidado, exausta.

— Meu chefe é um tirano. — eu digo, simples.

Sueli dá um sorriso pequeno, de quem já viveu isso mil vezes.

— Todo chefe é. — ela responde.

— Você aguenta?

Eu olho pra ela, e depois meu olhar cai, sozinho, pro canto do armário do banheiro.

Eu penso no teste escondido.

Penso no corpo mudando.

Penso no jeito que Augusto Romano me olhou, e no jeito que ele não parece o tipo de homem que aceita “não sei”, “não quero” ou “não é da sua conta”.

— Eu não tenho escolha. — eu respondo.

Sueli não insiste.

Ela só coloca um prato de comida na minha frente como se dissesse: então come e levanta amanhã.

E eu como.

Porque sobreviver sempre foi o meu talento.

☆⁠▽⁠☆

Lá no alto, no Centro Corporativo, a sala do Augusto continua acesa.

Eu não vejo, mas eu sinto.

Sinto como se a cidade tivesse olhos.

Ele está sozinho.

O relógio suíço no pulso brilha quando ele mexe a mão.

A caneta cara gira entre os dedos, num tique que parece controle e ansiedade ao mesmo tempo.

Vicente entra sem fazer barulho.

— Chefe.

— As anotações da reunião.

Augusto nem olha.

— Quero o dossiê completo da Lavínia Duarte. — ele diz, sem rodeio.

— Formação, referências… tudo.

Vicente fica imóvel por um segundo.

— Desconfiança? — ele pergunta, com cuidado.

Augusto abre uma gaveta.

Lá dentro, escondida como um pecado, está uma máscara azul-petróleo.

Ele passa os dedos por ela como quem confirma que algo existiu.

— Curiosidade. — ele responde, baixo.

Vicente não comenta.

Só inclina a cabeça e sai, eficiente demais pra ser humano comum.

Augusto fecha a gaveta devagar e encara a janela.

A Orla do Farol brilha longe, e por um segundo o rosto dele perde o gelo.

O olhar fica pesado, cheio de lembrança.

— Onde você está… — ele murmura, como se falasse com uma sombra.

E então ele volta a ser o CEO.

O homem que sempre descobre.

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