Mundo ficciónIniciar sesiónMarye sempre viveu cercada por luxo, poder e expectativas, mas jamais conheceu o verdadeiro significado de uma família completa. Abandonada pela mãe ainda bebê e criada pelo pai até sua morte precoce, ela cresceu sob a proteção rígida do avô Carlos, o homem mais rico do mundo, aprendendo desde cedo a desconfiar do amor. Linda, loira e dona de olhos azuis profundos como o mar, Marye acredita finalmente ter encontrado a felicidade ao lado de Daniel, um brasileiro de origem simples que luta para conquistar seu espaço em Los Angeles. Porém, sua vida desmorona quando descobre que foi traída pelo homem que ama e por Cherie, sua melhor amiga de infância. A traição deixa marcas profundas. Cherie engravida, é rejeitada pela própria família — nobres e ricos que não aceitam o envolvimento da filha com alguém considerado inferior — e perde tudo. Marye, ferida, se afasta, acreditando que o tempo apagaria a dor. Quatro anos depois, o passado retorna com força devastadora. Cherie reaparece arrependida, trazendo consigo um filho e cicatrizes emocionais. Junto a ela surge a mãe de Marye, decidida a revelar um segredo guardado por anos: seu abandono não foi uma escolha, mas uma imposição do poder e da fortuna. Enquanto verdades vêm à tona e laços familiares são colocados à prova, Daniel reaparece, ainda apaixonado, preso entre a culpa e o desejo de redenção. Em meio a encontros intensos, feridas abertas e decisões impossíveis, Marye terá que escolher entre se proteger para sempre ou arriscar-se novamente ao amor. Porque, às vezes, perdoar é o maior ato de coragem.
Leer másMarye sempre acreditou que o silêncio era sua maior defesa. Aprendeu isso cedo, ainda menina, quando percebeu que algumas ausências doíam mais do que palavras duras. O silêncio não exigia explicações, não criava expectativas, não prometia nada. E, acima de tudo, não traía.
Naquela noite, porém, nem o silêncio conseguiu protegê-la. Los Angeles brilhava intensamente do outro lado da enorme janela de vidro do apartamento. As luzes da cidade refletiam-se nos prédios como estrelas artificiais, frias e distantes. Era uma paisagem que muitos invejariam, mas que, para Marye, não passava de um cenário vazio. Ela estava sentada no sofá, com as pernas recolhidas junto ao corpo, abraçando os próprios joelhos, como se pudesse impedir que o coração se partisse ainda mais. Seus cabelos loiros, longos e lisos caíam desordenados sobre os ombros, algo raro para alguém sempre tão cuidadosa com a aparência. Os olhos azuis — daquela tonalidade profunda que lembrava o mar em dias de calmaria — estavam inchados e avermelhados. Não havia maquiagem, nem elegância. Apenas dor. Daniel. Cherie. Os dois nomes martelavam sua mente como uma condenação inevitável. Daniel havia sido seu primeiro amor verdadeiro. O homem que conhecera seus medos mais profundos, suas inseguranças mais silenciosas, suas cicatrizes invisíveis. Ele a fizera acreditar que era possível confiar novamente, que o amor podia ser um lugar seguro. Já Cherie… Cherie era mais do que uma amiga. Era parte de sua história, de sua infância, da menina que crescera sem mãe e encontrara nela uma espécie de irmã escolhida pela vida. Marye fechou os olhos, mas as imagens voltaram com crueldade. A mensagem anônima no celular. O endereço. A dúvida que tentou ignorar. Lembrava-se de ter dirigido até lá com o coração acelerado, dizendo a si mesma que tudo não passava de um engano. Lembrava-se da mão tremendo ao girar a maçaneta. E lembrava-se, com clareza dolorosa, da cena que encontrou. Daniel e Cherie. Juntos. Sem explicação possível. Ela não gritou. Não chorou diante deles. Apenas sentiu algo se quebrar dentro de si, como se uma parte essencial tivesse sido arrancada sem anestesia. Saiu daquele lugar em silêncio, levando consigo o que restava de sua dignidade e deixando para trás a vida que acreditava ter construído. Desde então, Marye se tornara outra pessoa. O amor passou a ser algo perigoso. A confiança, uma fraqueza. E o passado, uma ferida que nunca cicatrizava completamente. Criada sem mãe, Marye aprendera desde cedo que as pessoas podiam ir embora. Sua mãe a abandonara quando ela ainda era um bebê, deixando Fernando, seu pai, sozinho com uma criança nos braços e muitas perguntas sem resposta. Fernando fora tudo para ela. Protetor, presente, amoroso. Ele preenchera, da melhor forma possível, o espaço deixado por aquela ausência inexplicável. Quando Fernando morreu, Marye tinha apenas dez anos. A perda foi devastadora. Foi então que o avô paterno, Carlos, assumiu sua criação oficialmente. Conhecido mundialmente como o homem mais rico do planeta, Carlos ofereceu à neta tudo o que o dinheiro podia comprar — menos calor humano. A única exceção era Sophie, sua avó paterna. Elegante, doce e sensível, Sophie enxergava além das aparências. Era ela quem segurava a mão de Marye nos momentos de silêncio profundo, quem a fazia sentir que ainda havia amor no mundo. Talvez por isso, quando Daniel apareceu em sua vida anos depois, Marye se permitiu acreditar. Contra todas as defesas que construíra, ela se entregou. E perdeu. Agora, quatro anos haviam se passado desde a traição, mas a dor permanecia viva, latente, como uma maré que nunca recuava por completo. Marye havia se tornado uma mulher admirada, respeitada, forte aos olhos do mundo. Envolvera-se nos negócios da família, aprendera a comandar reuniões, a tomar decisões frias, a esconder sentimentos atrás de um sorriso impecável. Mas, sozinha, era apenas uma mulher tentando sobreviver às próprias lembranças. Ela se levantou do sofá e caminhou até a janela. Apoiada no vidro, observou a cidade lá embaixo, sentindo-se estranhamente distante de tudo. Havia conquistado independência, sucesso e reconhecimento. Ainda assim, sentia-se incompleta. — Você não precisava ter sido assim… — murmurou, sem saber a quem se dirigia. Talvez a Daniel. Talvez a Cherie. Talvez à vida. Seu celular vibrou sobre a mesa de centro, quebrando o silêncio pesado do ambiente. Marye olhou para a tela, hesitante. O número era conhecido: o da secretária pessoal do avô. Atendeu. — Senhorita Marye… — a voz do outro lado soava cautelosa. — Há uma mulher aqui insistindo muito em vê-la. Ela diz que precisa falar com você urgentemente. Marye respirou fundo. — Quem é ela? Houve uma breve pausa antes da resposta. — Ela se identificou como sua mãe. O coração de Marye disparou de forma descontrolada. A palavra soava estranha, quase proibida. Sua mãe. A mulher que a abandonara sem olhar para trás. — Diga que não estou disponível — respondeu, tentando manter a voz firme. — Há mais uma coisa… — acrescentou a secretária, hesitante. — Ela não está sozinha. Marye fechou os olhos por um instante. — Com quem ela está? — Com uma mulher chamada… Cherie. O mundo pareceu parar. O passado, que Marye tentara enterrar com tanto esforço, acabava de bater à sua porta. E, naquele instante, ela soube: o silêncio que a protegera por tanto tempo estava prestes a se romper. E, com ele, todas as feridas que ela acreditava ter aprendido a ignorar.Gustavo sempre soube identificar o momento exato em que uma situação começava a escapar de suas mãos. Não era quando o caos se instalava, mas quando o silêncio se tornava denso demais, carregado de possibilidades que não haviam sido calculadas.E Marye era exatamente isso: uma variável impossível de prever.Naquela manhã, ele tentou manter a rotina como sempre. Treino intenso, café forte, agenda organizada ao minuto. Ainda assim, algo estava diferente. O corpo obedecia, mas a mente insistia em retornar à mesma lembrança: o olhar de Marye na noite anterior, firme e curioso, como se ela o enxergasse além da imagem controlada que ele oferecia ao mundo.— Você está perdendo foco — disse a si mesmo, encarando o próprio reflexo no espelho.Mas o reflexo não respondeu.Horas depois, durante uma reunião importante, Gustavo percebeu que pela primeira vez em anos não estava completamente presente. Tomou decisões corretas, respondeu com precisão, mas sentia-se deslocado, co
Gustavo sempre acreditara que o homem que sobrevive aprende a criar regras. Não leis — leis podiam ser quebradas. Regras eram internas, rígidas, inegociáveis. Foram elas que o mantiveram de pé quando tudo ao redor parecia ruir.Naquela manhã, acordou antes do sol. O apartamento ainda estava mergulhado em sombras quando ele se levantou, caminhando descalço até a janela. Observou a cidade acordar lentamente, como fazia em dias em que a mente se recusava a silenciar.Havia passado a noite inteira pensando em Marye.Isso, por si só, já era um problema.Ele se lembrava com nitidez do início da própria história. Não nascera poderoso. Construiu-se. Viera de um ambiente onde nada era garantido — nem afeto, nem segurança. Aprendera cedo que depender dos outros era um risco que custava caro. A disciplina o salvou. O controle, também.Quando perdeu alguém que amava anos atrás — uma mulher que não soubera esperar o tempo que ele precisava — decidiu que nunca mais permitiria que sentimentos conduz
Gustavo aprendera cedo que poder não se anunciava. Ele se reconhecia. Crescera em ambientes onde homens falavam alto para esconder fraquezas e exibiam riqueza para disfarçar medo. Observando tudo aquilo, decidiu trilhar o caminho oposto: silêncio, presença, controle.Aos quarenta e poucos anos, carregava no corpo as marcas de disciplina rigorosa e, na mente, cicatrizes que jamais se apagariam. O abdômen definido, resultado de anos de treino quase obsessivo, contrastava com a serenidade aparente de quem parecia sempre no domínio da situação. Mas por trás daquele controle havia perdas — e escolhas que nunca poderiam ser desfeitas.Naquela manhã, Gustavo treinava sozinho no terraço do prédio onde morava. O sol de Los Angeles ainda tímido iluminava o espaço enquanto ele executava os movimentos com precisão quase matemática. Cada repetição era uma forma de manter a mente alinhada. O corpo obedecia; a mente precisava acompanhar.Ainda assim, entre uma série e outra, o pensamento insistia em
Marye percebeu que algumas presenças não pedem licença. Elas simplesmente chegam e alteram o ritmo do ambiente, como uma mudança súbita na pressão do ar. Gustavo era exatamente assim.A reunião avançava entre gráficos, contratos e projeções financeiras, mas a atenção de Marye se desviava com frequência para aquele homem sentado à extremidade da mesa. Ele não falava muito. Observava. Quando finalmente se pronunciava, sua voz era firme, controlada, carregada de autoridade natural — não a que se impõe, mas a que se reconhece.Moreno, traços fortes, barba bem desenhada, olhos cinza de um tom raro e inquietante. O terno ajustado não escondia o corpo definido, tampouco a postura de alguém acostumado a dominar ambientes sem esforço. Havia nele algo além da aparência: uma segurança silenciosa que não precisava ser anunciada.Marye se irritou consigo mesma ao notar o quanto estava atenta.— Concentre-se — disse em pensamento.Quando Gustavo finalmente voltou o olhar diretamente para ela, não f
Marye permanecia imóvel diante da janela do escritório, observando as luzes de Los Angeles se acenderem uma a uma. A cidade parecia viva demais para o turbilhão silencioso que acontecia dentro dela. A noite anterior com Daniel ainda ardia em sua pele — não como arrependimento, mas como um lembrete perigoso de tudo o que ainda existia entre eles. Aquilo a assustava. Não o desejo. Mas a facilidade com que quase se perdeu nele outra vez. — Não posso repetir o mesmo ciclo — murmurou para si mesma. Quando Daniel entrou no escritório, ela soube antes mesmo de ouvir seus passos. Havia algo no ar entre eles, uma tensão contida, madura, diferente do passado. Ele não se aproximou de imediato. Respeitou o espaço, como se entendesse que qualquer gesto impensado poderia quebrar algo frágil demais. — Você saiu cedo hoje — disse ele, com voz baixa. — Eu precisava ficar sozinha — respondeu Marye, virando-se lentamente.
Marye acordou antes do amanhecer. O quarto ainda estava envolto em sombras suaves, e o corpo de Daniel dormia ao seu lado, quente, presente, real. Ela ficou imóvel por alguns instantes, observando a respiração dele, sentindo o peso da noite que haviam compartilhado. Não era arrependimento o que sentia. Era lucidez.Levantou-se com cuidado, vestiu um robe leve e caminhou até a varanda. O céu começava a clarear, e aquele tom azul pálido trouxe consigo uma lembrança que ela tentara evitar a noite inteira.Cherie.Encostada no parapeito, Marye deixou que o passado se infiltrasse sem pedir permissão.Ela se lembrou da primeira vez que conheceu Cherie, ainda crianças. As duas tinham os mesmos cabelos claros, mas os olhos eram diferentes — os de Cherie sempre pareciam esconder algo, mesmo quando sorria. Eram inseparáveis. Dividiam segredos, roupas, sonhos. Chamavam-se de irmãs quando alguém perguntava.Foi Cherie quem esteve ao lado de Marye quando o pai morreu. Foi Che
Último capítulo