Mundo de ficçãoIniciar sessãoSexta-feira, dez da noite, e o andar executivo da Romano Group parece uma cidade fantasma.
As luzes ficam mais frias, o corredor mais comprido, e o silêncio vira uma coisa que aperta o ouvido. Lá fora, Porto Sereno segue viva, barulhenta, brilhando pela janela com a Orla do Farol lá embaixo, mas aqui dentro tudo é controle. Eu estou sentada com o notebook aberto, planilhas e relatórios espalhados numa mesa que custa mais do que o meu carro velho que eu nem tenho. O prazo do primeiro relatório do Projeto Romano é absurdo, e eu estou fazendo o que sempre fiz na vida: correndo atrás antes que alguém venha me empurrar. Eu esfrego o olho, respiro fundo e volto pros números. — Isso aqui está errado. — Augusto diz, sem levantar a voz. Ele está do outro lado da mesa, manga da camisa dobrada, paletó jogado na cadeira, como se a única concessão humana dele fosse admitir que também sente calor. A caneta dele b**e de leve no papel, num ritmo irritante. Eu olho pro que ele aponta e sinto a primeira pontada de raiva. — Não está errado. — eu respondo. — Está incompleto. — O setor não mandou o detalhamento por centro de custo. Ele levanta os olhos, devagar, como se eu tivesse cometido um crime por corrigir o CEO. Só que ele não me corta. — Então você vai conseguir. — ele diz. Não é pergunta. É ordem. Eu poderia dizer “não dá”, mas eu aprendi que “não dá” é frase de quem pode se dar ao luxo de recusar. Eu abro o e-mail de novo, procuro anexos, ligo pro ramal que ainda atende, e começo a fazer o que precisa ser feito. A cada ligação, eu sinto o enjoo se aproximar, quieto, tentando ganhar espaço. Não é drama. É físico. E é isso que me irrita mais. Eu consigo os dados depois de insistir três vezes, e quando coloco tudo na planilha, eu sinto uma vitória pequena, daquelas que ninguém aplaude. Eu vou falar com o Augusto, mas o ar dá uma volta dentro de mim e eu preciso segurar na beirada da mesa. Tontura. Um calor subindo pela nuca. Aquela sensação de que eu vou apagar e virar fofoca no primeiro mês de trabalho. Eu endireito a coluna, prendo o cabelo mais firme e tento fingir normalidade. Só que fingir não engana o homem que vive procurando falha. — Você está pálida. — Augusto diz, e a voz dele sai mais baixa. Eu sinto o olhar dele em mim, não como chefe avaliando entrega, mas como alguém que percebeu uma coisa fora do lugar. — Eu estou cansada. — eu respondo, simples. — Foi uma semana longa. Ele levanta, e o movimento dele é tão seguro que chega a dar raiva. Vai até um frigobar discreto, pega uma garrafinha de água e coloca na minha frente. — Beba. — E respire. Eu odeio que ele acerte. Odeio precisar aceitar qualquer coisa dele, até uma água. Mas eu bebo, porque eu não sou burra. A água desce e meu estômago revira um pouco, só que melhora o suficiente pra eu continuar. Eu termino de ajustar o relatório, envio os anexos, reviso o texto duas vezes e deixo pronto pra primeira hora da manhã. Quando fecho o notebook, eu sinto a exaustão bater de verdade, como se o corpo tivesse aguentado por teimosia e agora cobrasse o preço. — Pronto. — eu digo, e minha voz sai mais fraca do que eu queria. Augusto olha o horário no relógio suíço e depois olha pra mim. Por um segundo, parece que ele vai dizer alguma coisa que eu não vou gostar. Mas ele só fala: — Eu levo você. Eu rio, sem humor. — Não precisa. — Eu pego ônibus. — A essa hora? — ele pergunta, e eu noto um fio de irritação. — Não seja orgulhosa. A palavra me acerta como se ele soubesse que é exatamente isso que me mantém de pé. Eu engulo em seco e levanto a bolsa. — Eu não sou orgulhosa. — Eu sou cuidadosa. — E eu não misturo trabalho com… — eu paro, porque qualquer coisa que eu diga depois disso soa errado. Ele se aproxima um passo. Não invade meu espaço, mas deixa claro que pode, se quiser. — Com o quê? — ele pergunta. Eu prendo o ar. A voz dele, tão perto, faz meu corpo lembrar de coisa que eu não tenho direito de lembrar. Eu desvio o olhar. — Com favor. — eu respondo. — Eu não aceito favor. Augusto fica um segundo em silêncio, e eu quase consigo ver a paciência dele sendo testada. Só que, em vez de explodir, ele faz pior: ele decide. — Isso não é favor. — ele diz. — É logística. — Eu não vou deixar minha funcionária pegar ônibus dez da noite. “Minha.” Eu odeio a palavra e o jeito como ela escapa da boca dele sem esforço. Mas eu estou fraca. E eu odeio, mais ainda, a possibilidade de passar mal no ponto e alguém me reconhecer ou me filmar e virar história. — Tudo bem. — eu cedo, seca. — Só me deixa na esquina. O olhar dele escurece um pouco, como se eu tivesse colocado uma barreira que ele não aceita bem. Mas ele não discute. O elevador desce com um silêncio pesado. Eu fico de frente pro espelho, olhando meu próprio rosto, tentando checar se alguém consegue ver o segredo na minha pele. Augusto fica ao meu lado, mãos nos bolsos, como se aquilo fosse normal, como se a noite não tivesse cheiro de perigo. A garagem está quase vazia. O SUV preto dele parece um bicho pronto pra correr. Eu entro no banco do passageiro com cuidado, fecho a porta, e o carro vira outra bolha: couro, perfume discreto, silêncio controlado. Ele liga o motor e sai da garagem como se não houvesse obstáculo nenhum no mundo. Eu encosto a cabeça no vidro e olho Porto Sereno passando. As ruas iluminadas perto da Orla, as avenidas bonitas, depois o asfalto começando a piorar, as fachadas mudando, e a cidade real aparecendo. Eu sinto o olhar dele em mim uma vez, duas. Eu não viro. Eu fico quieta, porque se eu abrir a boca eu posso dizer coisa errada. — Você mora longe. — ele comenta, neutro. — É a cidade. — eu respondo. Ele não ri. Ele só dirige, como se estivesse recalculando alguma coisa que não é rota. Quando o carro entra na Várzea Clara, a diferença é nítida. Rua mais estreita, som de televisão alta, cheiro de fritura e conversa na calçada, gente que olha pro carro preto e reconhece que aquilo não é dali. Eu sinto um incômodo na pele, como se eu tivesse trazido um holofote pro meu bairro. Ele para em frente ao meu prédio simples, e por um momento eu penso que ele vai fazer cara de nojo. Mas ele não faz. Ele só observa. E essa observação é mais perigosa do que qualquer desprezo. — Você mora aqui? — ele pergunta. — Moro. — eu respondo, já defensiva. — Problema? Augusto me encara como se eu tivesse tirado a luva e mostrado a mão. Ele hesita um segundo, e eu juro que é a primeira hesitação real que eu vejo nele. — Não. — ele diz. — Só… não combina com você. Eu solto uma risada curta, amarga. Eu não sei de onde vem essa mania da elite de achar que a gente tem cara de endereço. — O senhor não me conhece. — eu falo, firme. Ele fica quieto. A mão dele segura o volante com força, como se ele estivesse segurando o próprio instinto. Quando ele responde, é mais baixo do que antes. — Não. — ele admite. — Mas eu quero. Meu estômago aperta, e dessa vez não é enjoo. É alerta. Eu pego minha bolsa, abro a porta rápido e desço antes que eu faça qualquer coisa burra. — Boa noite, Sr. Romano. — eu digo, formal, como se formalidade fosse distância. — Boa noite, Lavínia. — ele responde, e meu nome na voz dele parece uma promessa que eu não aceitei. Eu atravesso a rua, subo os degraus, e sinto o olhar dele nas minhas costas até eu abrir o portão. Eu entro e não olho pra trás. Se eu olhar, eu cedo. Lá dentro, Sueli está na sala, assistindo televisão com volume baixo. Ela olha pra mim e vê na hora: eu estou mexida. — Você demorou. — ela diz, sem acusar. — Fechamento. — eu respondo. — Chefe. Sueli faz aquele “hm” de quem não compra desculpa fácil, mas também não força verdade. Eu vou direto pro banheiro, fecho a porta e encaro meu reflexo. Eu puxo ar, apoio as mãos na pia e penso: isso vai dar ruim. Porque ele viu onde eu moro. E homem como Augusto Romano não esquece. ☆▽☆ Ele fica parado com o carro ligado por alguns segundos depois que eu entro. Não é hesitação de quem está perdido. É o silêncio de quem está decidindo. Quando ele finalmente arranca, o caminho até a Colina do Mirante parece mais curto do que deveria. A cobertura dele é vidro e automação, e ainda assim, quando ele entra, a solidão b**e primeiro do que qualquer luz. Ele j**a a chave numa bancada, afrouxa a gravata, e vai direto pro escritório. Vicente aparece na porta como se sempre estivesse ali. — Chefe. — Alguma coisa? Augusto não olha pra ele. — Investiga ela. — ele diz, sem emoção. — Discreto. — Quero saber tudo. Vicente não reage, mas eu imagino o pensamento passando por trás dos óculos: lá vem. Ele só responde, como sempre. — Feito. Augusto fica sozinho, encarando a cidade pela janela. E, pela primeira vez desde que eu o vi, eu tenho certeza de uma coisa: ele não vai me deixar em paz.






