Capítulo 4 — A proximidade

Sexta-feira, dez da noite, e o andar executivo da Romano Group parece uma cidade fantasma.

As luzes ficam mais frias, o corredor mais comprido, e o silêncio vira uma coisa que aperta o ouvido.

Lá fora, Porto Sereno segue viva, barulhenta, brilhando pela janela com a Orla do Farol lá embaixo, mas aqui dentro tudo é controle.

Eu estou sentada com o notebook aberto, planilhas e relatórios espalhados numa mesa que custa mais do que o meu carro velho que eu nem tenho.

O prazo do primeiro relatório do Projeto Romano é absurdo, e eu estou fazendo o que sempre fiz na vida: correndo atrás antes que alguém venha me empurrar.

Eu esfrego o olho, respiro fundo e volto pros números.

— Isso aqui está errado. — Augusto diz, sem levantar a voz.

Ele está do outro lado da mesa, manga da camisa dobrada, paletó jogado na cadeira, como se a única concessão humana dele fosse admitir que também sente calor.

A caneta dele b**e de leve no papel, num ritmo irritante.

Eu olho pro que ele aponta e sinto a primeira pontada de raiva.

— Não está errado. — eu respondo.

— Está incompleto.

— O setor não mandou o detalhamento por centro de custo.

Ele levanta os olhos, devagar, como se eu tivesse cometido um crime por corrigir o CEO.

Só que ele não me corta.

— Então você vai conseguir. — ele diz.

Não é pergunta. É ordem.

Eu poderia dizer “não dá”, mas eu aprendi que “não dá” é frase de quem pode se dar ao luxo de recusar.

Eu abro o e-mail de novo, procuro anexos, ligo pro ramal que ainda atende, e começo a fazer o que precisa ser feito.

A cada ligação, eu sinto o enjoo se aproximar, quieto, tentando ganhar espaço.

Não é drama.

É físico.

E é isso que me irrita mais.

Eu consigo os dados depois de insistir três vezes, e quando coloco tudo na planilha, eu sinto uma vitória pequena, daquelas que ninguém aplaude.

Eu vou falar com o Augusto, mas o ar dá uma volta dentro de mim e eu preciso segurar na beirada da mesa.

Tontura.

Um calor subindo pela nuca.

Aquela sensação de que eu vou apagar e virar fofoca no primeiro mês de trabalho.

Eu endireito a coluna, prendo o cabelo mais firme e tento fingir normalidade.

Só que fingir não engana o homem que vive procurando falha.

— Você está pálida. — Augusto diz, e a voz dele sai mais baixa.

Eu sinto o olhar dele em mim, não como chefe avaliando entrega, mas como alguém que percebeu uma coisa fora do lugar.

— Eu estou cansada. — eu respondo, simples.

— Foi uma semana longa.

Ele levanta, e o movimento dele é tão seguro que chega a dar raiva.

Vai até um frigobar discreto, pega uma garrafinha de água e coloca na minha frente.

— Beba.

— E respire.

Eu odeio que ele acerte.

Odeio precisar aceitar qualquer coisa dele, até uma água.

Mas eu bebo, porque eu não sou burra.

A água desce e meu estômago revira um pouco, só que melhora o suficiente pra eu continuar.

Eu termino de ajustar o relatório, envio os anexos, reviso o texto duas vezes e deixo pronto pra primeira hora da manhã.

Quando fecho o notebook, eu sinto a exaustão bater de verdade, como se o corpo tivesse aguentado por teimosia e agora cobrasse o preço.

— Pronto. — eu digo, e minha voz sai mais fraca do que eu queria.

Augusto olha o horário no relógio suíço e depois olha pra mim.

Por um segundo, parece que ele vai dizer alguma coisa que eu não vou gostar.

Mas ele só fala:

— Eu levo você.

Eu rio, sem humor.

— Não precisa.

— Eu pego ônibus.

— A essa hora? — ele pergunta, e eu noto um fio de irritação.

— Não seja orgulhosa.

A palavra me acerta como se ele soubesse que é exatamente isso que me mantém de pé.

Eu engulo em seco e levanto a bolsa.

— Eu não sou orgulhosa.

— Eu sou cuidadosa.

— E eu não misturo trabalho com… — eu paro, porque qualquer coisa que eu diga depois disso soa errado.

Ele se aproxima um passo.

Não invade meu espaço, mas deixa claro que pode, se quiser.

— Com o quê? — ele pergunta.

Eu prendo o ar.

A voz dele, tão perto, faz meu corpo lembrar de coisa que eu não tenho direito de lembrar.

Eu desvio o olhar.

— Com favor. — eu respondo.

— Eu não aceito favor.

Augusto fica um segundo em silêncio, e eu quase consigo ver a paciência dele sendo testada.

Só que, em vez de explodir, ele faz pior: ele decide.

— Isso não é favor. — ele diz.

— É logística.

— Eu não vou deixar minha funcionária pegar ônibus dez da noite.

“Minha.”

Eu odeio a palavra e o jeito como ela escapa da boca dele sem esforço.

Mas eu estou fraca.

E eu odeio, mais ainda, a possibilidade de passar mal no ponto e alguém me reconhecer ou me filmar e virar história.

— Tudo bem. — eu cedo, seca.

— Só me deixa na esquina.

O olhar dele escurece um pouco, como se eu tivesse colocado uma barreira que ele não aceita bem.

Mas ele não discute.

O elevador desce com um silêncio pesado.

Eu fico de frente pro espelho, olhando meu próprio rosto, tentando checar se alguém consegue ver o segredo na minha pele.

Augusto fica ao meu lado, mãos nos bolsos, como se aquilo fosse normal, como se a noite não tivesse cheiro de perigo.

A garagem está quase vazia.

O SUV preto dele parece um bicho pronto pra correr.

Eu entro no banco do passageiro com cuidado, fecho a porta, e o carro vira outra bolha: couro, perfume discreto, silêncio controlado.

Ele liga o motor e sai da garagem como se não houvesse obstáculo nenhum no mundo.

Eu encosto a cabeça no vidro e olho Porto Sereno passando.

As ruas iluminadas perto da Orla, as avenidas bonitas, depois o asfalto começando a piorar, as fachadas mudando, e a cidade real aparecendo.

Eu sinto o olhar dele em mim uma vez, duas.

Eu não viro.

Eu fico quieta, porque se eu abrir a boca eu posso dizer coisa errada.

— Você mora longe. — ele comenta, neutro.

— É a cidade. — eu respondo.

Ele não ri.

Ele só dirige, como se estivesse recalculando alguma coisa que não é rota.

Quando o carro entra na Várzea Clara, a diferença é nítida.

Rua mais estreita, som de televisão alta, cheiro de fritura e conversa na calçada, gente que olha pro carro preto e reconhece que aquilo não é dali.

Eu sinto um incômodo na pele, como se eu tivesse trazido um holofote pro meu bairro.

Ele para em frente ao meu prédio simples, e por um momento eu penso que ele vai fazer cara de nojo.

Mas ele não faz.

Ele só observa.

E essa observação é mais perigosa do que qualquer desprezo.

— Você mora aqui? — ele pergunta.

— Moro. — eu respondo, já defensiva.

— Problema?

Augusto me encara como se eu tivesse tirado a luva e mostrado a mão.

Ele hesita um segundo, e eu juro que é a primeira hesitação real que eu vejo nele.

— Não. — ele diz.

— Só… não combina com você.

Eu solto uma risada curta, amarga.

Eu não sei de onde vem essa mania da elite de achar que a gente tem cara de endereço.

— O senhor não me conhece. — eu falo, firme.

Ele fica quieto.

A mão dele segura o volante com força, como se ele estivesse segurando o próprio instinto.

Quando ele responde, é mais baixo do que antes.

— Não. — ele admite.

— Mas eu quero.

Meu estômago aperta, e dessa vez não é enjoo.

É alerta.

Eu pego minha bolsa, abro a porta rápido e desço antes que eu faça qualquer coisa burra.

— Boa noite, Sr. Romano. — eu digo, formal, como se formalidade fosse distância.

— Boa noite, Lavínia. — ele responde, e meu nome na voz dele parece uma promessa que eu não aceitei.

Eu atravesso a rua, subo os degraus, e sinto o olhar dele nas minhas costas até eu abrir o portão.

Eu entro e não olho pra trás.

Se eu olhar, eu cedo.

Lá dentro, Sueli está na sala, assistindo televisão com volume baixo.

Ela olha pra mim e vê na hora: eu estou mexida.

— Você demorou. — ela diz, sem acusar.

— Fechamento. — eu respondo.

— Chefe.

Sueli faz aquele “hm” de quem não compra desculpa fácil, mas também não força verdade.

Eu vou direto pro banheiro, fecho a porta e encaro meu reflexo.

Eu puxo ar, apoio as mãos na pia e penso: isso vai dar ruim.

Porque ele viu onde eu moro.

E homem como Augusto Romano não esquece.

☆⁠▽⁠☆

Ele fica parado com o carro ligado por alguns segundos depois que eu entro.

Não é hesitação de quem está perdido.

É o silêncio de quem está decidindo.

Quando ele finalmente arranca, o caminho até a Colina do Mirante parece mais curto do que deveria.

A cobertura dele é vidro e automação, e ainda assim, quando ele entra, a solidão b**e primeiro do que qualquer luz.

Ele j**a a chave numa bancada, afrouxa a gravata, e vai direto pro escritório.

Vicente aparece na porta como se sempre estivesse ali.

— Chefe.

— Alguma coisa?

Augusto não olha pra ele.

— Investiga ela. — ele diz, sem emoção.

— Discreto.

— Quero saber tudo.

Vicente não reage, mas eu imagino o pensamento passando por trás dos óculos: lá vem.

Ele só responde, como sempre.

— Feito.

Augusto fica sozinho, encarando a cidade pela janela.

E, pela primeira vez desde que eu o vi, eu tenho certeza de uma coisa: ele não vai me deixar em paz.

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