Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu nunca sonhei com um casamento por amor. Criada para ser uma esposa perfeita, aceitei me casar com Otávio Guerra por conveniência. O herdeiro milionário de um império de tequila e o solteirão mais cobiçado da Califórnia. Ele não me queria. Ele não acreditava no amor. Nosso casamento era apenas um contrato. Mas dividir a mesma casa com um homem frio, irresistível e emocionalmente inacessível acabou sendo mais perigoso do que eu imaginava. Porque, quando um solteirão milionário começa a quebrar as próprias regras… alguém sempre sai ferido.
Ler maisO problema de festas caras é que elas tentam fingir que são sobre alegria.
Na verdade, são sobre poder. Ao menos na maioria das vezes. Poder disfarçado de riso, de brilho, de champanhe gelado e promessas que ninguém pretende cumprir. O salão inteiro respirava uma vaidade bem treinada, com gente bonita demais, perfume demais, e uma ansiedade coletiva que só aparece quando há câmeras por perto. O letreiro dourado atrás do balcão refletia tudo como um espelho impiedoso: GUERRA. A tequila da noite, edição limitada, rótulo preto com detalhes em ouro, era o tipo de objeto que não parecia bebida. Parecia herança. Parecia um pedaço de família engarrafado e pronto para ser vendido como experiência. Otávio Guerra atravessou o lounge VIP com a calma de quem sabia que o mundo se ajustava em torno dele, não o contrário. Trinta e dois anos. Corpo forte. Cabelo escuro, olhos verdes intensos. Camisa azul clara de tecido fino, o primeiro botão aberto, punhos dobrados como se aquilo fosse casual e não cuidadosamente escolhido para passar a mensagem certa: rico, mas não rígido. Poderoso, mas acessível. Era uma estética. E ele dominava. Uma mulher grudada no braço dele ria alto demais. Bonita. Jovem. Vestido que brilhava sob as luzes quentes. Um sorriso treinado para câmeras e homens ricos. Ela apertou o bíceps de Otávio com a possessividade de quem queria ser fotografada como “a escolhida”. — Você é sempre assim… sério? — sussurrou na orelha dele. Otávio sorriu sem dar espaço para romantização. — As vezes. Ela riu como se ele tivesse inventado o humor. E seguiu pendurada nele, feliz com a própria fantasia. Otávio deixou. Deixar era mais fácil do que explicar. E, em algum ponto da vida, ele descobriu que as pessoas não queriam explicações. Queriam uma versão dele que confirmasse as expectativas delas. Solteiro. Bonito. Milionário. Perigoso. Indomável. Se ele entregasse isso, todo mundo ficava satisfeito. O celular vibrou no bolso e, no mesmo segundo, o mundo particular dele se separou do mundo público. Ele se afastou um passo, encostando-se numa coluna, como se apenas estivesse admirando a festa. O assessor, com tablet na mão, entendeu o gesto e recuou. Os seguranças discretos continuaram ali, sombras de terno. A tela acendeu. RODRIGO LOGÍSTICA : Temos problemas com o container 12. Fiscalização travou. Dizem que a documentação de origem do lote tá incompleta. Otávio sentiu a mandíbula endurecer um milímetro. Ele olhou para o salão lotado, para os investidores rindo, para as taças erguendo brindes, e pensou em caminhões parados num porto por causa de um homem médio tentando arrancar dinheiro. OTÁVIO: Não tá incompleta. Tão pedindo “taxa de urgência”. RODRIGO: Quer que eu pague? Otávio respirou devagar, a respiração de quem escolhe não explodir porque explode com estratégia. OTÁVIO: Não. Registra tudo. Aciona o jurídico. E liga pro Sandoval agora. RODRIGO: O Sandoval? OTÁVIO: Ele conhece o caminho mais curto pra resolver. Rodrigo digitou rápido. RODRIGO: Ok. Mas estão ameaçando segurar o lote por 72h. Otávio sorriu sem humor. OTÁVIO: Eles podem ameaçar o que quiserem. O lote sai hoje! RODRIGO: Entendido Ele guardou o telefone, reencaixou o rosto no personagem público e voltou para o salão como se nada tivesse acontecido. A mulher no braço dele tentou colar de novo. — Tá tudo bem? — perguntou, voz doce demais para ser real. — Tudo — ele mentiu. — Só trabalho. Ela fez biquinho e puxou o braço dele. — Você precisa relaxar. Otávio pensou que, se relaxasse de verdade, provavelmente quebraria alguma coisa. Em vez disso, ele sorriu. E foi nesse exato instante que uma mão bateu no ombro dele com intimidade de sangue. — Otávio. A voz era a de Júlio. Otávio virou e encontrou o irmão do meio parado ali como se estivesse numa reunião, não em um evento onde o produto deles era o foco. Júlio Guerra era bonito também, mas do tipo que parecia mais acessível. Terno impecável. Cabelo alinhado. Olhar calculado. Trinta anos e uma aura de idoso. O sorriso dele era cordial, mas vinha com pontas. — Você tá sumido — Júlio disse. — Eu tô trabalhando. Júlio olhou para a mulher agarrada nele e depois para Otávio. — Trabalhando… ou farreando? A mulher riu, tentando se enturmar. Otávio não riu. — E isso te interessa?— respondeu afiado Júlio sustentou o sorriso, só um pouco rígido. — La Madre perguntou por você. “La Madre” era uma armadilha. Soraya Guerra nunca soava como uma “mamãe”. Soraya era matriarca, presidente moral, a mão invisível que apertava o pescoço de tudo o que ela considerava “família”. — Ela sabe onde me achar — Otávio respondeu. Júlio deu um passo mais perto, abaixando o tom. — Quando você vai começar agir como o homem da família? Otávio manteve o olhar. O problema de Júlio não era a ambição. Era a convicção de que merecia o topo só por ser um capacho da mãe deles. Uma gargalhada juvenil explodiu atrás deles e, de repente, o ar ficou mais leve. Matteo e Isabela atravessaram o corredor como se o salão fosse uma extensão da casa deles. Vinte anos, gêmeos. Ainda com aquele brilho insolente de quem não sente o peso do sobrenome. Matteo tinha o mesmo cabelo escuro de Otávio, os mesmo olhos verdes intensos e um sorriso cativante. Ele andava como se não tivesse nada a perder. Isabela era mais contida, mas tinha olhos atentos, o tipo de inteligência que observa tudo e fala só o necessário. — Eu achei vocês! — Matteo anunciou, abrindo os braços. — Meu Deus, isso aqui tá cheio de gente… rica. Isabela ergueu a sobrancelha. — Você fala como se não fosse. Matteo fez um gesto dramático. — Nascemos ricos, Bela. Não foi por mérito Otávio puxou os dois num abraço rápido. Era como ele dizia “eu me importo” sem dizer. — Vocês não deveriam estar estudando? — ele perguntou. — Relaxa aí, mano. Tá tudo sob controle — Matteo decretou brincalhão. Isabela revirou os olhos. — Eu vim porque a mamãe mandou — ela disse, e aquilo era tão verdade que quase doía. — E porque eu queria ver você em um lugar que não fosse a Guerra Corp. Júlio pigarreou, como se precisasse lembrar a todos que existia uma hierarquia invisível. — A imprensa tá ali — ele apontou discretamente para um grupo de fotógrafos e gente importante. — E o conselho também. — O conselho sempre tá — Otávio respondeu. — Exatamente. — Júlio ajeitou o punho da camisa. — Então talvez… menos performance e mais postura. Isabela olhou para Júlio com uma calma venenosa. — Traduzindo: “sorri pra foto e não envergonha a mamãe”. Matteo levantou a taça. — Um brinde à sinceridade da Bela, a pessoa mais sensata dessa família. Otávio ia responder, mas o assessor reapareceu com a cara de quem tinha visto um incêndio nascer. — Senhor Guerra… desculpa interromper. Temos uma situação. Otávio já estava no modo trabalho. — Fala. — Um influencer… bastante conhecido… bebeu demais. Tá tentando subir no palco pra “fazer um discurso”. Tem uma repórter filmando. Isabela soltou um riso curto. — Perfeito. Tequila nova, escândalo novo. Júlio olhou para Otávio com um quê de satisfação. — Vai lá. Resolve. Você não é ' o cara '? Otávio deu um passo e a mulher no braço dele tentou ir junto. — Amor, deixa comigo — ela disse, já querendo virar a “parceira” da crise. Otávio virou o rosto só o suficiente. — Não. Fica aqui. Não foi grosso. Foi definitivo. Ela murchou um pouco, ofendida, mas obedeceu. Otávio não mandava com grito. Mandava com certeza. Ele atravessou o salão e viu o problema antes de chegar: o influencer com camisa aberta, garrafa na mão como microfone, sorriso escancarado, tentando subir os degraus do palco. O staff tentava conter com uma delicadeza desesperada. A repórter filmava com olhos brilhando. Otávio entrou no círculo com naturalidade e tocou o ombro do homem como se fossem amigos. — Irmão, você tá tendo a melhor noite da sua vida — disse baixo. — E eu quero que amanhã você acorde lembrando disso. — OTÁVIO GUERRA! — o influencer gritou, e o salão inteiro pareceu ouvir. — EU AMO VOCÊ! EU AMO A TEQUILA GUERRA Otávio sorriu como se aquela frase fosse um prêmio. — Eu também — ele respondeu. — Só amo mais quando ela não faz a gente virar meme. O homem piscou. A repórter aproximou o microfone — Otávio, uma palavrinha? Otávio virou o rosto, sorrindo com a perfeição de quem nasceu para controlar narrativa. — Hoje é noite de celebração — disse. — Estamos homenageando as famílias do agave e o trabalho duro que existe por trás de cada garrafa. Brindem, celebrem… e façam isso com responsabilidade. O influencer riu, mas já estava indo, conduzido por Otávio para uma área reservada longe das câmeras, como se estivesse recebendo um presente. Quando ele virou para voltar, ouviu uma voz feminina, baixa e irônica, bem perto. — Impressionante. Otávio parou.Lilly pisou forte no hall de entrada da mansão, o som dos saltos ecoando como tiros no silêncio da noite. A raiva fervia dentro dela como uma panela esquecida no fogo, e ela jogou a bolsa no sofá com toda a força. O zíper se abriu, espalhando batom, chaves e um lenço aleatório pelo tapete. Otávio entrou atrás, fechando a porta com um clique suave, como se nada estivesse acontecendo. Ele tirou o paletó do terno e o jogou casualmente sobre uma cadeira, o sorriso zombeteiro já se formando nos lábios. — Para de drama, Lilly. Foi uma boa noite. Todos os seus amigos me elogiaram. — Ele cruzou os braços, encostando na parede com aquela pose de quem acha que controla o mundo. — O Derik até pediu dicas sobre tequila. E a Vivian... ah, ela me acha o cara mais lindo do mundo. Lilly virou para ele como um furacão, os olhos azuis faiscando de fúria. — Você não tinha o direito de me seguir! — gritou ela, a voz ecoando pelas paredes da sala. — Você disse que me daria liberdade antes de ca
O pub era simples, mas tinha um tipo de charme que Lilly não estava acostumada a frequentar. Nada de lustres ou garçons de luvas brancas. O teto era baixo, as paredes de madeira escura, placas antigas de cerveja e uma luz amarela generosa o suficiente pra deixar todo mundo com cara de “eu juro que sou uma pessoa interessante”. Tinha cheiro de batata frita no ar, risadas se atropelando e música baixa, num volume que permitia conversa de verdade. Lilly entrou devagar, apertando a alça da bolsa no ombro como se fosse um escudo. Avistou Vivian quase de imediato, sentada perto do canto, os braços erguidos como se tivesse ganhado um prêmio. — LILLY! AQUI! Vivian estava animada demais para alguém que claramente já tinha começado a beber há um tempo. Lilly riu e caminhou até a mesa, mas o sorriso logo virou constrangimento. Era a primeira vez em semanas que ela saía… por vontade própria. Não por contrato, cerimônia, obrigação ou “imagem pública”. Por ela. E isso parecia ao mesmo temp
Otávio acordou com o corpo ainda pesado. Por um segundo, ele ficou parado, encarando o teto, a mente vagando no sofá, no gosto dela, no jeito como Lilly tinha gemido o nome dele com raiva e entrega ao mesmo tempo. Ele virou o rosto devagar. O lado dela da cama estava vazio. Otávio franziu o cenho, piscou duas vezes, como se o cérebro estivesse tentando entender. O peito dele apertou de um jeito bobo, ridículo, que ele não queria reconhecer. Ele se sentou na cama com um suspiro irritado, passando a mão pelos cabelos pretos desgrenhados. Levantou, pegou uma cueca e vestiu. Otávio parou diante do espelho, o rosto fechado, e foi só quando virou de lado que percebeu um detalhe: marcas leves na pele do ombro e mordidas no pescoço. Ele respirou fundo, pegou um hobby no armário e desceu as escadas. Foi no último degrau que ele ouviu um barulho leve na cozinha. Talheres. Pratos. Uma movimentação ágil. Otávio atravessou a sala e entrou. Lilly estava lá. Sentada à mesa, comendo co
O ar da sala parecia mais denso agora, como se o filme tivesse levado embora todo o oxigênio que sobrava. Lilly ainda segurava o cobertor contra o peito, mas os dedos tremiam levemente. Otávio não tinha se afastado. A mão dele ainda estava perto do rosto dela, os dedos suspensos na mecha de cabelo que ele acabara de ajeitar. Ele não tocava mais. Só olhava. E aquele olhar… era fome contida. Era tudo o que eles vinham evitando Lilly sentiu o peito subir e descer mais rápido. Otávio inclinou o rosto devagar, dando tempo para ela recuar. Ela não recuou. Os lábios dele encontraram os dela num beijo lento, quase cuidadoso no começo. Um roçar suave, como se ele estivesse testando se ela ainda ia permitir. Lilly fechou os olhos e respondeu, primeiro hesitante, depois com mais firmeza. A boca dela se abriu para ele, e o beijo ganhou profundidade. Línguas se encontraram, quentes, molhadas, famintas. Otávio gemeu baixo contra a boca dela. Um som rouco, quase dor. Ele afastou o ba
Otávio caminhava ao lado de Lilly com as mãos nos bolsos, as fotos do ultrassom dobradas com cuidado na pasta que a doutora tinha entregue. Aquele homem, esculpido para mandar e vencer, agora andava como alguém que não sabia onde colocar os pés. No estacionamento, ele parou, olhou em volta, como se procurasse alguma coisa. Depois olhou para ela. — Você vai voltar pra casa de repouso? Lilly piscou, voltando. — Não. Vivian me liberou o resto do dia. Otávio pareceu aliviado. — Ah… que legal. Ele coçou a nuca. Lilly conhecia aquele gesto: improviso. — Eu posso tirar a tarde de folga também. Te levo pra casa. O corpo dela endureceu antes da mente. — Não precisa. Eu tô de carro. Otávio arqueou uma sobrancelha. — Eu sei. Só que… — Só que o grande Otávio Guerra não consegue deixar as coisas acontecerem do jeito normal. — Lilly interrompeu, a irritação subindo. — Você tem que controlar, coordenar, decidir. Tudo. Otávio ficou imóvel por um instante. A expressão d
O consultório cheirava a lavanda e limpeza. Era um perfume feito para acalmar, mas em Lilly só tornava tudo mais evidente: o lugar era real, o momento era real, e o que ela vinha empurrando para o canto mais distante da mente agora estava ali, sentado ao lado dela, exigindo ser encarado de frente. Otávio Guerra. Ele não parecia relaxado como em reuniões corporativas, nem arrogante como em festas. Estava nervoso. A constatação trouxe uma sensação estranha. Uma que Lilly não queria nomear. Sentada na beirada da cadeira estofada, mãos no colo, postura impecável por hábito, ela parecia composta Por dentro, não. O coração batia alto o suficiente para ser ouvido. Otávio mantinha as pernas ligeiramente abertas, o tronco inclinado para frente, olhando o celular sem realmente olhar. O polegar subia e descia a tela como reflexo automático. Lilly pigarreou. Ele ergueu o rosto de imediato, como se tivesse sido puxado de dentro da própria cabeça. — Você tá bem? — perguntou, baixo.
Último capítulo