Mundo ficciónIniciar sesiónDepois de anos vivendo um casamento abusivo, Lena acreditava que nunca mais conseguiria confiar em alguém. Ansiosa, marcada por cicatrizes invisíveis e perseguida pelas memórias do bebê que perdeu, ela foge da própria cidade levando apenas uma mala, o medo constante e a esperança silenciosa de recomeçar. Na nova cidade, tudo o que ela quer é passar despercebida. Mas seus planos mudam quando conhece Dave Albuquerque, um empresário frio, controlador e extremamente reservado. Conhecido pela postura rígida e pela necessidade quase obsessiva de ter tudo sob controle, Dave não acredita em amor, não se permite sentir e mantém todos à distância. Para ele, sentimentos são fraquezas perigosas. O encontro entre os dois é um choque imediato. Lena se assusta com a intensidade dele. Dave se irrita com a fragilidade aparente dela. Ainda assim, algo inexplicável os prende um ao outro. Enquanto ela tenta esconder seus traumas e sobreviver aos próprios gatilhos, ele percebe, pela primeira vez, a vontade desesperadora de proteger alguém. Mas amar Lena significa encarar os fantasmas que ela carrega; as crises de ansiedade, os medos, as noites em claro e a sombra do homem que quase destruiu sua vida. E para Dave, protegê-la também significa enfrentar a própria incapacidade de demonstrar sentimentos. Entre discussões intensas, silêncios sufocantes e uma atração impossível de ignorar, os dois descobrem que algumas pessoas não entram na nossa vida para nos salvar, mas para nos ensinar que ainda é possível ser amado depois da dor. Um romance intenso sobre recomeços, trauma, possessividade, cura emocional e a difícil arte de confiar novamente.
Leer másO ônibus para devagar na plataforma, e o solavanco leve faz meus olhos se abrirem depois de horas olhando a estrada sem realmente enxergar nada. Por alguns segundos, continuo sentada, tentando reunir coragem para levantar. A viagem inteira parece presa no meu corpo; costas doloridas, pernas pesadas, cabeça cansada demais para pensar direito.
Lá fora, a cidade pulsa através das janelas embaçadas.
As luzes dos comércios refletem no asfalto molhado pela chuva recente, carros passam apressados pela avenida em frente à rodoviária e pessoas caminham de um lado para outro como se soubessem exatamente para onde estão indo. É estranho observar aquilo sabendo que, pela primeira vez em muito tempo, ninguém faz ideia de quem sou.
Ninguém aqui conhece meu passado ou sequer meu nome.
Talvez seja melhor assim.
Seguro a barra do casaco entre os dedos enquanto o motorista anuncia o fim da viagem. O coração acelera na mesma hora, nervoso como sempre fica diante de mudanças. Tento controlar a respiração antes que o aperto no peito aumente, mas ansiedade nunca foi algo simples de esconder; ela cresce silenciosa, ocupando espaço dentro de mim até transformar coisas pequenas em enormes.
Levanto devagar e puxo a mala do compartimento acima do banco. Está mais pesada do que deveria, embora quase não haja nada ali dentro. Algumas roupas, documentos, remédios e poucas lembranças que não consegui abandonar para trás.
O resto da minha vida ficou na outra cidade.
Fecho os olhos por um instante ao pensar nisso.
A antiga casa; cada marca escondida sob mangas compridas e as noites dormindo com medo. E o piro... O quarto vazio que nunca consegui olhar depois da perda do bebê.
Minha garganta aperta imediatamente. Engulo em seco antes que as lembranças consigam me puxar para aquele lugar outra vez. Não posso fazer isso agora. Não depois de ter chegado tão longe.
Desço do ônibus junto com as outras pessoas, abraçando-me quando o vento frio da noite atinge meu rosto. A temperatura é mais baixa do que imaginei, mas talvez seja apenas o nervosismo transformando tudo em desconforto.
Paro perto da entrada da rodoviária e observo o movimento ao redor sem saber exatamente o que fazer. A cidade parece grande demais para alguém completamente sozinho. Há prédios modernos ao longe, cafeterias iluminadas, hotéis altos e ruas movimentadas mesmo naquele horário. Não é uma capital agitada, mas também não tem o ar acolhedor de cidade pequena.
Tudo parece desconhecido e inseguro.
Meu celular vibra entre os dedos quando desbloqueio a tela para conferir o endereço mais uma vez. Leio repetidamente como se as palavras pudessem diminuir o medo que cresce dentro do meu peito.
A verdade é que não sei o que estou fazendo aqui, só que precisava ir embora e respirar sem sentir temor o tempo todo.
Um táxi estaciona próximo da calçada, e o motorista abaixa o vidro perguntando se preciso de corrida. Concordo com a cabeça antes mesmo de pensar muito, porque ficar parada nesse lugar começa a me deixar ainda mais ansiosa.
Durante o trajeto, mantenho o rosto voltado para a janela.
A cidade vai mudando aos poucos conforme o carro avança. As avenidas mais movimentadas ficam para trás, dando espaço para ruas residenciais silenciosas e bairros tranquilos. Algumas casas possuem jardins bem cuidados; outras parecem vazias, iluminadas apenas pela luz fraca dos postes.
Meu estômago se revira conforme nos afastamos do centro. Talvez pelo medo do desconhecido, ou porque ainda não consigo acreditar que realmente fui embora.
Passo a mão discretamente sobre o pulso, quase sentindo os dedos apertados contra minha pele outra vez. A memória surge sem aviso; a voz agressiva, os objetos quebrando, o gosto metálico do sangue na boca depois de mais uma discussão.
Desvio o olhar da janela imediatamente.
Não quero lembrar.
Não hoje.
O carro desacelera alguns minutos depois, parando diante de uma casa pequena cercada por grades brancas. Meus olhos observam o lugar em silêncio enquanto tento ignorar o nervosismo crescente.
É simples. Pequena e discreta. Exatamente como o anúncio mostrava.
Pago a corrida com mãos trêmulas e espero o táxi desaparecer no fim da rua antes de pegar a mala novamente. O silêncio ao redor parece estranho depois de tantas horas ouvindo vozes, motores e barulho de estrada.
Dou alguns passos lentos até o portão.
A pintura branca está um pouco desgastada, e há flores secas espalhadas perto da varanda, como se ninguém cuidasse do jardim há algum tempo. Ainda assim, existe alguma coisa tranquila naquele lugar. Talvez porque ninguém esteja gritando. Talvez porque, pela primeira vez em anos, eu saiba que não há alguém me esperando do outro lado da porta com raiva nos olhos.
A ideia faz meu peito apertar de um jeito diferente.
Procuro a chave dentro da mochila enquanto tento controlar as emoções. O nervosismo atrapalha os movimentos, e demoro mais do que deveria para conseguir abrir a fechadura.
Quando a porta finalmente se abre, fico parada por alguns segundos sem entrar.
O cheiro de casa fechada invade o ar imediatamente; madeira antiga, poeira e silêncio.
Entro devagar, observando o espaço escuro à minha frente. Há poucos móveis; um sofá antigo encostado na parede, uma mesa pequena próxima da cozinha e cortinas claras cobrindo as janelas.
Nada sofisticado ou acolhedor, mas seguro.
Fecho a porta atrás de mim e apoio as costas nela por alguns instantes, apenas ouvindo a quietude da casa vazia. Meu coração continua acelerado, embora pela primeira vez isso não aconteça por medo de alguém.
Estou sozinha. A constatação deveria assustar mais do que realmente assusta.
Caminho lentamente pela sala, deixando a mala perto do sofá antes de olhar ao redor outra vez. Parece estranho pensar que aquele lugar agora pertence a mim, mesmo temporariamente. Estranho imaginar que posso dormir sem esperar gritos no meio da madrugada ou passos pesados atravessando o corredor.
Os olhos ardem antes mesmo que eu perceba. Passo a mão pelo rosto rapidamente, respirando fundo. Não quero chorar. Já chorei demais nos últimos anos.
Ainda assim, alguma coisa dentro de mim desmorona quando olho para aquela casa silenciosa e percebo que sobrevivi tempo suficiente para recomeçar.
Mesmo sem saber como.
Assim que Dave volta para a própria sala, permaneço parada por alguns segundos no meio da minha. Meus olhos passeiam lentamente pelo ambiente. A mesa impecavelmente organizada, os armários vazios, o computador já ligado e uma janela enorme com vista para boa parte da cidade. Meu Deus... Tenho uma sala. Só de pensar nisso, um sorriso escapa. Nunca imaginei trabalhar em um lugar assim.A felicidade, porém, dura pouco. Porque lembro de quem trabalha na sala ao lado.Solto um gemido abafado e deixo a testa cair sobre a mesa.— Claro, Lena... De todas as empresas da cidade, você tinha que arrumar emprego justamente na dele.Balanço a cabeça antes de me obrigar a endireitar a postura. Isso não muda nada. Dave continua sendo meu chefe. Eu continuo precisando desesperadamente desse emprego. O restante é irrelevante. Ou pelo menos deveria ser.A porta se abre antes que eu consiga organizar os pensamentos.— Posso entrar?Levanto imediatamente.— Claro.A mulher de cabelos escuros sorri.— Sou
Na manhã seguinte, chego à empresa antes das sete.Como sempre.O elevador sobe em absoluto silêncio enquanto reviso mentalmente a agenda do dia. Reunião com investidores às oito. Assinatura de dois contratos às nove e meia. Almoço com o conselho. Revisão do orçamento da filial de Chicago no fim da tarde.Nada fora do comum.É assim que prefiro.Assim que atravesso o corredor do último andar, encontro Nora já organizando alguns documentos na mesa.— Bom dia, senhor.Faço um aceno discreto.— Alguma mudança na agenda?— Apenas a chegada da nova assistente. Ela foi orientada a se apresentar às oito.Meu olhar encontra o relógio preso à parede.Sete e cinquenta e dois.— Certo.Entro na sala e deixo a pasta sobre a mesa.Os minutos passam enquanto respondo alguns e-mails, mas percebo, com certo desgosto, que olho para o relógio mais vezes do que deveria.Sete e cinquenta e oito.Oito em ponto.Oito e três.A porta se abre depois de uma batida discreta.— Senhor Dave?Ergo os olhos.Nora e
O escritório parece maior quando está tudo errado ao mesmo tempo.Fico de pé há alguns minutos, encarando a pilha de documentos sobre a mesa como se eles pudessem se reorganizar sozinhos se eu olhar com força suficiente. Não acontece. Contratos atrasados, relatórios incompletos, decisões que deveriam ter sido registradas e não foram. A antiga assistente saiu há duas semanas e desde então tudo anda no limite do aceitável, o que, para mim, já significa fora de controle.Passo a mão pela nuca e solto o ar devagar. Não é sobre volume de trabalho, nunca foi. É sobre desorganização. Sobre depender de outras pessoas e ainda assim esperar que alguma coisa funcione. Isso sempre dá errado.Caminho até a janela sem realmente prestar atenção na cidade lá fora. Prédios altos, trânsito constante, pessoas atravessando ruas como se tudo estivesse no lugar certo. Tudo funcionando. Menos aqui dentro. Volto para a mesa e apoio os dedos na madeira por um instante antes de pegar o celular quando ele vibra.
Passei quase duas horas encarando a tela do notebook antes de finalmente criar coragem para enviar os currículos. O site da cidade realmente tinha dezenas de vagas abertas, exatamente como a mulher do mercado comentou. Hotéis, lojas, cafeterias, clínicas e empresas administrativas apareciam em praticamente todas as páginas. Durante alguns minutos, senti até um certo alívio lendo aquilo, como se talvez recomeçar não fosse tão impossível quanto parecia nos primeiros dias na nova casa silenciosa.O problema começou quando precisei clicar em “enviar”.Meu currículo não tem nada impressionante. Alguns anos trabalhando no administrativo de uma empresa pequena na antiga cidade, cursos básicos e períodos vazios demais que eu nem saberia explicar sem tocar em assuntos que não quero reviver. Ainda assim, comecei a enviar. Um currículo. Depois outro. E a cada candidatura, meu estômago apertava um pouco mais.Talvez ninguém respondesse, ou quem sabe respondessem e percebessem que eu não sou boa o
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