Capítulo 3: Coleira de Ouro

A chamada de vídeo terminou com o sorriso controlado de Soraya Guerra congelando na tela por um segundo a mais do que o necessário. Otávio encarou o próprio reflexo escuro no vidro do lounge privado e expirou pelo nariz.

Ele parou na porta por meio segundo.

Júlio deu uma risada mínima, quase inaudível.

Otávio abriu a porta e o som da festa voltou como um tapa: música alta demais, gargalhadas calculadas, luzes quentes demais, gente demais fingindo estar viva.

Otávio fica algum tempo no andar de cima, olhando a festa acontecendo luxuosa na parte de baixo. O homem da um suspiro forte, refletindo sobre até que ponto ele tinha autonomia de fato sobre a própria vida.

Ele atravessou o lounge VIP com o rosto público de volta no lugar. O sorriso treinado. A postura impecável. Por dentro, a cabeça era um campo minado.

Matteo surgiu do nada, como sempre, estendendo uma taça.

— Você tá com cara de que apanhou virtualmente da mamãe.

— Não agora, Matteo.

Diz Otávio tomando o líquido da taça de uma vez só.

Isabela se aproximou em silêncio. Olhos atentos, inteligentes demais para os vinte anos recém-completados.

— Ela falou sobre casamento.

Otávio encarou a irmã caçula. Isabela tinha esse dom irritante de acertar sem que ninguém precisasse dizer nada.

Ele não respondeu. Não precisava.

Isabela suspirou.

— Eu odeio isso.

Matteo arregalou os olhos, teatral.

— Casamento? Tipo… casamento casamento? Com vestido, padre e todo mundo fingindo felicidade?

Otávio apertou o maxilar.

— Não é agora.

— Mas vai ser — Isabela disse, a voz baixa, séria. — Se a mamãe decidir, vai ser. E você sabe.

Otávio olhou ao redor do salão como quem procura ar em meio a uma multidão bonita demais para ser honesta.

E foi aí que ele a viu.

Carol estava encostada no bar, conversando com alguém da equipe. Gesticulava pouco, sorria de leve. Um sorriso que não pedia aprovação. Um sorriso que parecia… descanso.

Otávio ficou parado por um segundo.

E naquele segundo percebeu algo incômodo.

Ele queria ir até ela.

Não como quem coleciona mais uma noite.

Mas como quem procura um lugar para respirar.

Carol ergueu o olhar como se sentisse. Os olhos se encontraram. Ela arqueou a sobrancelha, pergunta silenciosa, meio provocação.

Otávio caminhou até ela, passos controlados, e parou perto demais.

— Sua mãe te matou? — Carol perguntou, sem rodeios.

Otávio soltou uma risada curta.

— Você tem um talento impressionante pra diagnóstico rápido.

Carol inclinou o rosto, o olhar firme.

— Fala.

Otávio hesitou por meio segundo. Otávio Guerra não confessava. Ele resolvia. Ele administrava.

Mas ali, com ela, mentir parecia trabalhoso demais.

— Amanhã. Oito da manhã. Conselho. — Engoliu em seco. — Ela quer que eu me case. Quer dizer... querer não é bem a palavra. Na verdade ela exige isso.

Carol ficou em silêncio por um instante. Não surpresa. Avaliando.

— Casamento comercial? — perguntou.

Otávio assentiu.

— Estratégia, segundo ela.

Carol soltou um riso curto, sem humor.

— Parece até que vocês vivem em uma espécie de monarquia do século XVI. Nesses momentos eu agradeço por não ser uma herdeira

Ambos riram do comentário ácido.

O olhar dele escapou por um segundo para a boca dela. Rápido demais para ser elegante. Lento demais para passar despercebido.

— E você? — ele perguntou, desviando. — Aceita trabalhos impossíveis?

Carol deu um passo mais perto. O espaço entre eles virou eletricidade mal disfarçada.

— Eu aceito desafios — disse. — Quando valem a pena.

Otávio sentiu o corpo corresponder ao flerte.

— E eu valho?

Carol o observou como quem escolhe uma peça rara numa vitrine cara demais.

— Você é… interessante.

Otávio sorriu, tenso.

— Com “Interessante” você quis dizer gostoso?

Ele diz a frase com um sorriso dos mais cafajestes possíveis.

— Só interessante mesmo. É o único elogio que você merece... por enquanto.

O tom tinha humor. E atenção. Uma atenção que ele não estava acostumado a receber sem cobrança ou intenções claras. Era como se cada pessoa quisesse um pedaço dele de alguma forma, e Carol não parecia querer isso.

A festa seguia em volta deles, mas o mundo parecia ter diminuído de tamanho.

Otávio baixou a voz.

— Me dá seu número.

Carol demorou o suficiente para que ele sentisse que aquilo não era garantido.

Depois pegou o celular, digitou e estendeu.

— Se você me ligar… eu vou cobrar.

Os dedos roçaram quando ele pegou o aparelho. Um toque mínimo. Íntimo demais.

— Pode cobrar. Eu pago — disse, a voz mais grave do que pretendia.

Carol sorriu de canto.

— Eu sei.

Ele devolveu o celular, mas não se afastou.

— Eu não acredito no amor — disse, como se fosse uma confissão involuntária.

Carol sustentou o olhar, calma.

— Eu não acredito em conto de fadas — respondeu. — Mas sei reconhecer quando alguém tá prestes a ser engolido pelo próprio sobrenome.

A verdade bateu como um gole forte.

Otávio se afastou um passo. Se ficasse mais um segundo ali, faria algo impulsivo.

E ele não era impulsivo.

Ele era um Guerra.

Mas enquanto voltava para o centro do salão, com a festa se reorganizando ao redor dele, uma certeza se impôs com clareza cruel:

A noite tinha mudado alguma coisa.

Não por causa da tequila.

Por causa de Carol Peters.

O celular vibrou.

Uma mensagem curta. Sem emojis. Sem piedade.

SORAYA:

Não se atrase. E pare de se comportar como se sua vida fosse sua.

Otávio fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, o rosto público já estava de volta.

O solteirão milionário reapareceu.

Mas o homem por trás dele… começava a entender que usava algemas.

E que elas não eram de ferro.

Eram de ouro.

E ouro pesa.

Do outro lado do salão, Carol observava Otávio de longe, o copo na mão, o sorriso contido.

Ela sabia.

Sabia que tinha acabado de cruzar uma linha.

E também sabia, com uma intuição perigosa demais para alguém sensata:

Aquilo não ia terminar ali.

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