Mundo ficciónIniciar sesiónPara o mundo exterior, a vida de Helena era uma obra-prima de design e equilíbrio. Como arquiteta de formação e estrategista por instinto, ela passou os últimos dez anos projetando o sucesso de seu marido, Ricardo, enquanto silenciava suas próprias ambições. Helena não era apenas a esposa; ela era o alicerce invisível de uma das maiores empresas do setor, aceitando o papel de coadjuvante em troca de um amor que ela acreditava ser sua morada segura. Contudo, a estrutura perfeita começa a ceder quando Helena descobre que sua fundação foi construída sobre areia movediça. Uma traição devastadora, revelada com a frieza de quem descarta um objeto antigo, lança Helena em um labirinto de abandono e humilhação. Ao ser trocada por uma versão "mais nova e menos complexa", ela ouve de Ricardo a frase que mudaria seu destino: "Você se tornou previsível, Helena. Parte da mobília." Abalada, mas não destruída, Helena percebe que a única forma de sobreviver é demolir a mulher que ela aceitou ser. Entre os escombros do divórcio e as dívidas deixadas por um marido negligente, ela encontra seus antigos cadernos de desenho. É o início de um renascimento feroz. Ao fundar seu próprio estúdio, ela deixa de projetar para os outros e começa a desenhar sua própria liberdade. Enquanto Helena ascende e se torna uma força imparável e magnética na arquitetura, ela observa — com uma calma glacial — o declínio de Ricardo, que descobre, tarde demais, que ele nunca foi o gênio da dupla. No reencontro inevitável em um evento de gala, ele implora por uma segunda chance, mas encontra uma mulher que ele não é capaz de reconhecer. "A Outra Face de Helena" é uma narrativa poderosa sobre traição, resiliência e a descoberta de que a vingança mais elegante é, simplesmente, ser feliz.
Leer másO som dos pneus derrapando no cascalho do lado de fora do galpão cortou o silêncio da noite como um grito. Helena sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas, ao contrário de outras vezes, suas mãos não tremeram. Ela olhou para Gabriel, que já segurava uma barra de ferro, os olhos fixos na porta metálica.— Fique atrás de mim, Helena — ele ordenou, a voz baixa e protetora.— Não, Gabriel — ela respondeu, caminhando até o centro do estúdio, sob a luz do lustre industrial que ela mesma havia projetado. — Eu passei a vida me escondendo atrás de paredes que outros construíram. Esta parede aqui é minha. Eu vou encará-lo.Um estrondo ecoou quando Ricardo golpeou a porta.— Abra esta porta, Helena! Eu sei que você está aí com o seu amante de aluguel! Apareça e encare o homem que te deu tudo!Helena fez um sinal para Gabriel. Ele, relutante, destravou o trinco eletrônico. A porta pesada deslizou, revelando um Ricardo Albuquerque que ninguém reconheceria. Ele estava sem gravata, o paletó
O impacto do leilão foi a última pá de terra sobre a reputação de Ricardo Albuquerque. Nos dias que se seguiram, os jornais não falavam de outra coisa: a ascensão meteórica da "Ex-Esposa de Ouro" e a queda vertiginosa do "Gigante de Barro". Ricardo estava trancado no que restava da sua mansão — agora uma carcaça vazia e fria, sem os quadros e tapetes que Helena comprara de volta.Bia V. já não disfarçava o seu tédio. O luxo que a atraíra desaparecera, deixando apenas um homem amargo e falido.— Ricardo, eu não posso ficar aqui a olhar para as paredes — reclamou ela, lixando as unhas. — O meu agente ligou. Se eu não pagar a mensalidade do clube e as parcelas do meu carro, eles vão levar tudo.Ricardo, sentado numa cadeira de plástico que os oficiais de justiça deixaram para trás por misericórdia, olhou para ela com desprezo.— O carro que eu paguei, Bia? O clube que eu financiei? Agora que a fonte secou, queres ir embora?— Eu sou jovem, Ricardo. Tenho uma carreira pela frente. Não
O dia do leilão judicial dos bens da Albuquerque & Associados amanheceu sob uma garoa fina, mas o saguão do hotel de luxo onde ocorria o evento estava lotado. O mercado imobiliário e a alta sociedade de Curitiba estavam lá por um único motivo: assistir à carcaça do império de Ricardo Albuquerque ser devorada pelos credores.Ricardo estava sentado na primeira fila, os olhos injetados de sangue e o terno visivelmente mais largo em seus ombros. Ao seu lado, Bia V. tentava manter a compostura, mas sua expressão era de puro desconforto. Ela não usava mais joias caras; sabia que os oficiais de justiça estavam de olho em tudo.— Quem são esses abutres? — Ricardo sibilava para o Dr. Gustavo. — Estão aqui para rir de mim?— Estão aqui pelos ativos, Ricardo. Mantenha a calma.O leiloeiro começou os lances. A casa de campo foi vendida por uma fração do valor. A coleção de carros importados seguiu o mesmo destino. Ricardo sentia cada batida do martelo como um prego em seu caixão financeiro.
O sol de Curitiba nasceu cinzento, combinando com o humor fúnebre que dominava a sede da Albuquerque & Associados. O saguão, antes decorado com orquídeas frescas e atendido por recepcionistas sorridentes, agora parecia o cenário de um naufrágio. O rumor do cancelamento do contrato de Dubai havia se espalhado como um incêndio em uma floresta seca.Ricardo estava em seu gabinete, a porta trancada por dentro. Ele observava a notificação oficial da multa rescisória. O valor tinha tantos zeros que parecia uma piada de mau gosto.— Eles não podem fazer isso... — ele murmurava, a voz embargada pelo conhaque que bebera logo cedo. — Eu sou Ricardo Albuquerque! Eu construí esta cidade!Um golpe seco na porta o assustou.— Ricardo, abra esta porta! É o Gustavo! Os oficiais de justiça estão aqui para o arrolamento de bens!Ricardo abriu a porta, deparando-se com o seu advogado e três homens de expressão neutra, carregando pranchetas e lacres oficiais. A justiça não esperava o arrependimento;





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