Mundo de ficçãoIniciar sessão
O problema de festas caras é que elas tentam fingir que são sobre alegria.
Na verdade, são sobre poder. Ao menos na maioria das vezes. Poder disfarçado de riso, de brilho, de champanhe gelado e promessas que ninguém pretende cumprir. O salão inteiro respirava uma vaidade bem treinada, com gente bonita demais, perfume demais, e uma ansiedade coletiva que só aparece quando há câmeras por perto. O letreiro dourado atrás do balcão refletia tudo como um espelho impiedoso: GUERRA. A tequila da noite, edição limitada, rótulo preto com detalhes em ouro, era o tipo de objeto que não parecia bebida. Parecia herança. Parecia um pedaço de família engarrafado e pronto para ser vendido como experiência. Otávio Guerra atravessou o lounge VIP com a calma de quem sabia que o mundo se ajustava em torno dele, não o contrário. Trinta e dois anos. Corpo forte. Cabelo escuro, olhos verdes intensos. Camisa azul clara de tecido fino, o primeiro botão aberto, punhos dobrados como se aquilo fosse casual e não cuidadosamente escolhido para passar a mensagem certa: rico, mas não rígido. Poderoso, mas acessível. Era uma estética. E ele dominava. Uma mulher grudada no braço dele ria alto demais. Bonita. Jovem. Vestido que brilhava sob as luzes quentes. Um sorriso treinado para câmeras e homens ricos. Ela apertou o bíceps de Otávio com a possessividade de quem queria ser fotografada como “a escolhida”. — Você é sempre assim… sério? — sussurrou na orelha dele. Otávio sorriu sem dar espaço para romantização. — As vezes. Ela riu como se ele tivesse inventado o humor. E seguiu pendurada nele, feliz com a própria fantasia. Otávio deixou. Deixar era mais fácil do que explicar. E, em algum ponto da vida, ele descobriu que as pessoas não queriam explicações. Queriam uma versão dele que confirmasse as expectativas delas. Solteiro. Bonito. Milionário. Perigoso. Indomável. Se ele entregasse isso, todo mundo ficava satisfeito. O celular vibrou no bolso e, no mesmo segundo, o mundo particular dele se separou do mundo público. Ele se afastou um passo, encostando-se numa coluna, como se apenas estivesse admirando a festa. O assessor, com tablet na mão, entendeu o gesto e recuou. Os seguranças discretos continuaram ali, sombras de terno. A tela acendeu. RODRIGO LOGÍSTICA : Temos problemas com o container 12. Fiscalização travou. Dizem que a documentação de origem do lote tá incompleta. Otávio sentiu a mandíbula endurecer um milímetro. Ele olhou para o salão lotado, para os investidores rindo, para as taças erguendo brindes, e pensou em caminhões parados num porto por causa de um homem médio tentando arrancar dinheiro. OTÁVIO: Não tá incompleta. Tão pedindo “taxa de urgência”. RODRIGO: Quer que eu pague? Otávio respirou devagar, a respiração de quem escolhe não explodir porque explode com estratégia. OTÁVIO: Não. Registra tudo. Aciona o jurídico. E liga pro Sandoval agora. RODRIGO: O Sandoval? OTÁVIO: Ele conhece o caminho mais curto pra resolver. Rodrigo digitou rápido. RODRIGO: Ok. Mas estão ameaçando segurar o lote por 72h. Otávio sorriu sem humor. OTÁVIO: Eles podem ameaçar o que quiserem. O lote sai hoje! RODRIGO: Entendido Ele guardou o telefone, reencaixou o rosto no personagem público e voltou para o salão como se nada tivesse acontecido. A mulher no braço dele tentou colar de novo. — Tá tudo bem? — perguntou, voz doce demais para ser real. — Tudo — ele mentiu. — Só trabalho. Ela fez biquinho e puxou o braço dele. — Você precisa relaxar. Otávio pensou que, se relaxasse de verdade, provavelmente quebraria alguma coisa. Em vez disso, ele sorriu. E foi nesse exato instante que uma mão bateu no ombro dele com intimidade de sangue. — Otávio. A voz era a de Júlio. Otávio virou e encontrou o irmão do meio parado ali como se estivesse numa reunião, não em um evento onde o produto deles era o foco. Júlio Guerra era bonito também, mas do tipo que parecia mais acessível. Terno impecável. Cabelo alinhado. Olhar calculado. Trinta anos e uma aura de idoso. O sorriso dele era cordial, mas vinha com pontas. — Você tá sumido — Júlio disse. — Eu tô trabalhando. Júlio olhou para a mulher agarrada nele e depois para Otávio. — Trabalhando… ou farreando? A mulher riu, tentando se enturmar. Otávio não riu. — E isso te interessa?— respondeu afiado Júlio sustentou o sorriso, só um pouco rígido. — La Madre perguntou por você. “La Madre” era uma armadilha. Soraya Guerra nunca soava como uma “mamãe”. Soraya era matriarca, presidente moral, a mão invisível que apertava o pescoço de tudo o que ela considerava “família”. — Ela sabe onde me achar — Otávio respondeu. Júlio deu um passo mais perto, abaixando o tom. — Quando você vai começar agir como o homem da família? Otávio manteve o olhar. O problema de Júlio não era a ambição. Era a convicção de que merecia o topo só por ser um capacho da mãe deles. Uma gargalhada juvenil explodiu atrás deles e, de repente, o ar ficou mais leve. Matteo e Isabela atravessaram o corredor como se o salão fosse uma extensão da casa deles. Vinte anos, gêmeos. Ainda com aquele brilho insolente de quem não sente o peso do sobrenome. Matteo tinha o mesmo cabelo escuro de Otávio, os mesmo olhos verdes intensos e um sorriso cativante. Ele andava como se não tivesse nada a perder. Isabela era mais contida, mas tinha olhos atentos, o tipo de inteligência que observa tudo e fala só o necessário. — Eu achei vocês! — Matteo anunciou, abrindo os braços. — Meu Deus, isso aqui tá cheio de gente… rica. Isabela ergueu a sobrancelha. — Você fala como se não fosse. Matteo fez um gesto dramático. — Nascemos ricos, Bela. Não foi por mérito Otávio puxou os dois num abraço rápido. Era como ele dizia “eu me importo” sem dizer. — Vocês não deveriam estar estudando? — ele perguntou. — Relaxa aí, mano. Tá tudo sob controle — Matteo decretou brincalhão. Isabela revirou os olhos. — Eu vim porque a mamãe mandou — ela disse, e aquilo era tão verdade que quase doía. — E porque eu queria ver você em um lugar que não fosse a Guerra Corp. Júlio pigarreou, como se precisasse lembrar a todos que existia uma hierarquia invisível. — A imprensa tá ali — ele apontou discretamente para um grupo de fotógrafos e gente importante. — E o conselho também. — O conselho sempre tá — Otávio respondeu. — Exatamente. — Júlio ajeitou o punho da camisa. — Então talvez… menos performance e mais postura. Isabela olhou para Júlio com uma calma venenosa. — Traduzindo: “sorri pra foto e não envergonha a mamãe”. Matteo levantou a taça. — Um brinde à sinceridade da Bela, a pessoa mais sensata dessa família. Otávio ia responder, mas o assessor reapareceu com a cara de quem tinha visto um incêndio nascer. — Senhor Guerra… desculpa interromper. Temos uma situação. Otávio já estava no modo trabalho. — Fala. — Um influencer… bastante conhecido… bebeu demais. Tá tentando subir no palco pra “fazer um discurso”. Tem uma repórter filmando. Isabela soltou um riso curto. — Perfeito. Tequila nova, escândalo novo. Júlio olhou para Otávio com um quê de satisfação. — Vai lá. Resolve. Você não é ' o cara '? Otávio deu um passo e a mulher no braço dele tentou ir junto. — Amor, deixa comigo — ela disse, já querendo virar a “parceira” da crise. Otávio virou o rosto só o suficiente. — Não. Fica aqui. Não foi grosso. Foi definitivo. Ela murchou um pouco, ofendida, mas obedeceu. Otávio não mandava com grito. Mandava com certeza. Ele atravessou o salão e viu o problema antes de chegar: o influencer com camisa aberta, garrafa na mão como microfone, sorriso escancarado, tentando subir os degraus do palco. O staff tentava conter com uma delicadeza desesperada. A repórter filmava com olhos brilhando. Otávio entrou no círculo com naturalidade e tocou o ombro do homem como se fossem amigos. — Irmão, você tá tendo a melhor noite da sua vida — disse baixo. — E eu quero que amanhã você acorde lembrando disso. — OTÁVIO GUERRA! — o influencer gritou, e o salão inteiro pareceu ouvir. — EU AMO VOCÊ! EU AMO A TEQUILA GUERRA Otávio sorriu como se aquela frase fosse um prêmio. — Eu também — ele respondeu. — Só amo mais quando ela não faz a gente virar meme. O homem piscou. A repórter aproximou o microfone — Otávio, uma palavrinha? Otávio virou o rosto, sorrindo com a perfeição de quem nasceu para controlar narrativa. — Hoje é noite de celebração — disse. — Estamos homenageando as famílias do agave e o trabalho duro que existe por trás de cada garrafa. Brindem, celebrem… e façam isso com responsabilidade. O influencer riu, mas já estava indo, conduzido por Otávio para uma área reservada longe das câmeras, como se estivesse recebendo um presente. Quando ele virou para voltar, ouviu uma voz feminina, baixa e irônica, bem perto. — Impressionante. Otávio parou.






