Mundo de ficçãoIniciar sessãoA cobertura de Otávio era linda. Fria. Grande demais. Cara demais.
Parecia um hotel cinco estrelas onde ninguém dormia. Ele entrou, tirou o paletó e jogou sobre o sofá, sem cuidado. Foi até o bar, serviu um dedo de whisky em um copo baixo. O líquido âmbar brilhava como ouro. Ele encarou o copo por um segundo e pensou em como em pouco tempo muito provavelmente o simples prazer daquele ato de chegar em casa e não dever satisfação a ninguém, seria arrancado. O celular vibrou. Matteo. MATTEO: Mano, a mamãe te matou? A Bela disse que ela chegou aqui em casa sorrindo. E você sabe que ela só faz isso quando está transformando nossas vidas em um inferno. Otávio olhou a mensagem e quase sorriu. Quase. OTÁVIO: Vai estudar ou ela irá sorrir pra você também! MATTEO: Espero estar longe daqui quando ela notar que eu e a Bela existimos. Otávio ignorou. Ele abriu a agenda. Reuniões, ligações, jantar com investidores, visita à destilaria, cronograma do lançamento. E, no meio, um nome que ele não deveria querer ver ali. Carol Peters. Ela era a consultora de crise publicitária. A recém contratada. A profissional. Mas, por algum motivo, a simples ideia de falar com ela parecia… respirar. Otávio pegou o telefone e ligou. Chamou duas vezes. — Carol na linha — ela atendeu, voz firme, sem doçura falsa. — Está precisando de dicas de como se portar em público no próximo evento promocional, senhor Guerra? A fala dela era carregada de deboche alegre. Otávio soltou um riso curto, a primeira coisa parecida com leveza naquele dia. — Não, não. Essa chatice aí você deixa pra dona Soraya. — Então é sobre quê o motivo de sua encantadora ligação? Otávio olhou para o copo de tequila na mão. — Eu posso passar aí? Silêncio do outro lado. Um silêncio avaliando, não hesitando. — Pode — Carol disse. — Mas só se você prometer trazer vinho ao invés de dor de cabeça pra mim. Otávio olhou para a janela, para a cidade lá embaixo. — Não prometo nada. Carol riu. — Então vem logo, Guerra. O prédio de Carol era bom. Não luxuoso como o dele, mas bom. Portaria simples, elevador que não parecia um spa, corredor com cheiro de gente morando, não de gente decorando. Quando ela abriu a porta, Otávio percebeu o primeiro detalhe: ela não estava arrumada para ninguém. Estava confortável para si. Cabelo preso de qualquer jeito, camiseta preta surrada, short jeans folgado. Olhar atento. — Você parece… cansado — ela disse, sem enfeitar. Otávio entrou e sentiu o cheiro do apartamento: algo limpo, levemente cítrico, com fundo de café. Tinha livros, plantas, uma mesa com laptop aberto e post-its espalhados. Uma vida. Não uma vitrine. — Eu tô bem — ele mentiu. Carol fechou a porta, cruzou os braços, e o olhou com a mesma precisão com que olharia um relatório. — Você não veio até aqui pra mentir. Senta. Otávio sentou no sofá. Era confortável. Humano. Ele odiou o quanto gostou. Carol foi até a cozinha e voltou com dois copos e uma garrafa. — Já que você não trouxe o vinho que pedi, vamos de tequila.— ela disse, colocando na mesa. Otávio arqueou a sobrancelha. — Você bebe tequila? — Eu bebo o que presta. — Ela pegou o sal e o limão com naturalidade. — Sua tequila, por sinal, presta. Isso não significa que você preste. Otávio riu de verdade dessa vez. — Isso foi quase um elogio. Carol serviu os copos. — Foi um diagnóstico. Otávio pegou o copo e girou o líquido devagar. — Minha mãe… Carol sentou na poltrona em frente, como se fosse uma sessão de terapia que ela não pediu. — Ela disse que eu sou uma ameaça à marca. Carol bebeu um gole pequeno. — Convenhamos que ela tá errada e certa ao mesmo tempo. Otávio encarou com o cenho franzido — Explica. — Ela tá errada porque você é competente e adulto. — Carol ergueu um dedo, como quem enumera. — Ela tá certa porque infelizmente o meio de vocês ainda é bem conservador. Investidor nenhum vai querer continuar depositando crédito na marca Guerra se o primogênito da família continuar sendo visto como um solteirão galinha. Otávio soltou o ar devagar, irritado. Não com Carol, com as circunstâncias — E pra conter isso, a grande solução de dona Soraya é que eu me case Carol ficou em silêncio por meio segundo. Depois disse, calma: — Imaginei que ela iria querer isso. Otávio fechou a mão no copo. — Ela condicionou a presidência a isso. Carol não fez drama. Não arregalou os olhos. Ela só assentiu, como se estivesse confirmando um padrão. — Ela não te enxerga como filho. Ela te enxerga como peça. Otávio engoliu seco. — Eu sei. Carol inclinou o rosto, mais suave. — E mesmo assim você continua jogando o jogo. Otávio riu sem humor. — Porque se eu não jogar, eu perco tudo. — Você perde o quê? — Carol perguntou, direta. A pergunta pegou Otávio num lugar desconfortável. Ele abriu a boca e fechou. Depois falou, bem baixo: — Você acha que eu faço errado? Digo... eu vivo para aquela empresa, de verdade. Desde os dezoito anos, desde antes de me formar na faculdade eu já participava ativamente das reuniões, das estratégias, dos números. Aquilo lá é minha vida, não apenas um legado que ela tanto insiste em falar. — Ele bebe todo o líquido de uma vez, enchendo o copo novamente. Carol observou ele por um longo instante. — Otávio… É nítido o quanto você gosta dos negócios da sua família. Chega a ser bonito ver o jeito que você fala sobre. Mas você acha que vale a pena abrir mão da sua liberdade em troco da presidência? E quando eu digo liberdade, não estou falando sobre a solteirice, e sim sobre seu direito de escolher, de existir como um ser independente. Ele encarou o apartamento. As plantas. Os livros. O caos organizado da mesa. E desviou ligeiramente o assunto. — Aqui… parece simples. Carol riu. — Minha vida não é simples. Ela só não tem uma matriarca bilionária me ameaçando. Otávio olhou para ela, e por algum motivo, aquilo pareceu uma intimidade perigosa. Carol levantou o copo. — Brinda comigo. Ao seu trauma familiar. Otávio ergueu o copo, encostou no dela. — Ao meu trauma familiar. Eles beberam. E, pela primeira vez em horas, Otávio sentiu o ombro relaxar um milímetro. Carol recostou e apontou para ele com o copo. — Você sabe qual é seu problema? Otávio deu um meio sorriso. — Tenho vários. — Seu problema é achar que está sempre controle. — Carol estreitou os olhos. Otávio soltou uma risada baixa. — Eu não sei fazer diferente. Deve ser de família. Carol deu de ombros. — Aprende. E, sem perceber como, eles começaram a rir. De coisas pequenas. De comentários secos sobre investidores. De absurdos da imprensa. Carol imitando uma repórter dramática. Otávio imitando um conselheiro alarmista. A noite foi ficando menos pesada. Até que, no meio de uma risada, Otávio ficou quieto. Carol também. O silêncio veio denso, não desconfortável. Um silêncio cheio. Otávio olhou para a boca dela por um segundo rápido demais. Carol percebeu. Claro que percebeu. — Não — ela disse, antes mesmo dele se mover. Otávio franziu o cenho, frustrado como um homem que não costuma ouvir “não” e não sabe onde guardar aquilo. — Eu nem fiz nada. Carol riu, quase divertida com o fato de ele tentar negar o óbvio. — Você ia fazer. Otávio inclinou o corpo um pouco. — E se eu ia? Carol levantou a mão, dois dedos tocando de leve o peito dele, impedindo sem empurrar. — Não mistura. Otávio fechou os olhos por um instante, como quem respira uma vontade. — Misturar o quê? — Trabalho com… isso — Carol disse, e o “isso” foi dito como se fosse algo que ela não queria nomear alto. Otávio abriu os olhos. — E amizade? Carol arqueou a sobrancelha. — Você quer ser meu amigo? Otávio soltou um riso breve, nervoso. — Posso tentar Carol sustentou o olhar dele e, por um segundo, parecia quase tentada. Muito tentada. Otávio Guerra era um tremendo de um gostoso. Mas ela recuou, sorrindo. — Então Tá. — E provocou: — Sem tentar me beijar Otávio bufou, teatral. — Você é cruel. — Sensata. — Carol corrigiu. — E eu tenho trinta e seis anos. Não brinco de confundir coisas. Otávio passou a mão no cabelo, frustrado. — Aproveita — ele murmurou, tentando transformar em piada antes que ficasse tenso— Já já eu serei um senhor casado. Carol gargalhou de verdade. — Senhor? Você? Otávio fingiu indignação e encarou ela, quase ofendido e quase… tentado novamente. — Então é isso? Você está me oferecendo amizade? Carol sorriu de canto. — Tô te oferecendo mais tequila. E, de algum jeito, aquilo era o que ele precisava.






