Capítulo 6: Entre Limites e Pretextos

Do outro lado da cidade, na parte mais nobre da Califórnia, Soraya Guerra estava em casa.

E Soraya não dormia cedo.

Ela estava no escritório particular, luz baixa, uma taça de vinho intocada ao lado. O telefone no ouvido. A voz dela, suave, parecia gentileza.

— Sim, senhor Petronus. Eu concordo plenamente.

Ela fez uma pausa, ouvindo.

— A união entre nossas famílias será… Revolucionária. — Outra pausa. — Sim. Eu entendo sua preocupação. Não, não haverá escândalos. Meu filho será impecável.

Soraya caminhou até a janela. A cidade lá embaixo parecia um tabuleiro.

— E sua filha… Lilly, correto? — ela disse o nome como se fosse uma peça valiosa. — Eu ouvi coisas excelentes. Discreta, educada, criada com valores. — Um sorriso pequeno. — O tipo de mulher ideal.

Outra pausa.

— Data? Eu gostaria de algo… breve. — Soraya falou “breve” como quem diz “inevitável”. — Otávio é resistente, mas ele é um homem de responsabilidade. Ele vai compreender.

Ela desligou.

Olhou para a mesa. Um dossiê, enviado pelo motorista. Um endereço.

Soraya leu o endereço mais uma vez.

E o sorriso dela sumiu.

— Carol Peters… — ela murmurou para o vazio. — Você deveria ser solução. Não distração.

Soraya pegou o telefone de novo.

— Diga ao Júlio que eu quero uma atualização sobre a agenda do Otávio — ela disse ao assistente, sem levantar a voz.

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Otávio voltou ao apartamento de Carol dois dias depois.

Com uma desculpa.

E, naquela altura, os dois já sabiam que a desculpa era só pretexto.

Carol abre a porta com um sorriso curto.

— Isso tá virando hábito.

Otávio entrou e olhou ao redor como se estivesse checando se o lugar ainda existia.

— Eu precisava… de opinião.

— Opinião? — Carol fechou a porta. — Você tem conselho. Tem advogado. Tem irmão chato.

— Justamente. — Otávio tirou o paletó. — Eu precisava de opinião real.

Carol arqueou a sobrancelha e ficou quieta por um instante. Depois apontou para a cozinha.

— Senta. Eu vou fazer alguma coisa pra gente comer. Você parece um homem que se alimenta de reuniões.

— Eu me alimento de resultados — Otávio disse, seguindo até a sala.

— O que explica sua cara de exaustão — Carol respondeu do corredor.

A noite no apê dela virou ritual.

Ele chegava com o mundo nas costas. Ela tirava o mundo dele com humor, comida simples e verdade.

Sentavam no chão com pizza em cima da caixa. Ou num sofá com macarrão em pote. Falavam de trabalho, mas também de coisas pequenas: música, infância, lugares.

Otávio descobriu, com surpresa, que Carol era do tipo que não se impressionava com riqueza, mas se interessava por essência.

E isso mexia com ele, mesmo que ele jamais admitiria.

Em algum momento, Carol contou uma história de um cliente famoso.

— Eu olhei pra ele e falei: “querido, você não tem dinheiro suficiente pra comprar minha dignidade” — ela disse, rindo.

Otávio riu junto, balançando a cabeça.

— Você não tem medo de nada.

— Tenho medo de não ser eu mesma— Carol respondeu, séria por um segundo. — Eu não devo nada pra ninguém. Isso me deixa livre.

Otávio ficou quieto. A palavra “livre” parecia um idioma estranho.

No fim da noite, quando ele estava de pé, pronto para ir embora, os dois ficaram perto demais na porta.

Otávio olhou para ela.

Carol olhou de volta.

Ele se inclinou, devagar, como quem pergunta sem falar.

Carol riu, a risada nervosa de quem sente e tenta disfarçar.

— Não — ela disse, encostando a mão no peito dele de novo, o mesmo gesto de limite que já estava virando assinatura. — Nem tenta.

Otávio fechou os olhos, frustrado.

— Você vai me negar até quando?

Carol ergueu o queixo.

— Até você parar de agir como se toda mulher fosse imune a você.

— Eu não disse isso.

— Ótimo — Carol disse, firme. — Então se comporta como quem sabe disso.

Otávio respirou fundo. A frustração e o desejo queimavam, mas o respeito era maior.

Ele deu um meio sorriso, tentando salvar o orgulho com humor.

— Logo eu serei um homem casado, fiel, preso, inalcançável e você vai pensar que podia ter aproveitado.

Carol gargalhou.

— Senhor casado… Parece até piada

Otávio soltou uma risada curta.

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Na semana seguinte, Soraya chamou Otávio para jantar na mansão.

Foi um jantar silencioso demais. Com garçons demais. Com talheres demais. Com formalidade demais.

Matteo e Isabela estavam lá, fingindo normalidade.

Isabela, observava Soraya como se estivesse lendo uma tempestade se formando.

Soraya falava do negócio como se fosse conversa leve.

— O evento da semana passada teve boa repercussão.

— Foi mérito da equipe.

Soraya olhou para ele.

— Foi mérito seu. Não seja modesto.

Otávio prendeu a respiração. Soraya não falava desse jeito sem objetivo.

Ela então soltou, como se fosse uma casualidade:

— E a consultora… Carol Peters. Ela tem estado… próxima.

O garfo de Matteo parou no ar.

Isabela olhou para Otávio com um “Ferrou”.

Otávio manteve a expressão neutra.

— Ela está fazendo o trabalho dela.

Soraya sorriu, pequeno.

— Claro. — E então, com a precisão de quem corta carne: — Só não se apegue.

Otávio ergueu o olhar, frio.

— Eu não me apego, a senhora sabe.

Soraya sustentou o olhar.

— Ótimo.

Mas a frase dela tinha uma camada escondida: "porque eu não vou permitir."

Otávio olhou para a escada, para as paredes da mansão, para aquela frieza que sempre existiu ali, mesmo quando todos moravam debaixo do mesmo teto, mesmo quando o pai dele ainda estava vivo. E pensou quase instantaneamente no apê de Carol.

No cheiro de café.

No caos humano.

Ele saiu de lá e dirigiu direto para o apartamento dela.

Carol abriu a porta e, dessa vez, nem brincou, notou que ele não estava bem.

— O que aconteceu?

— Minha mãe — ele disse, e a voz saiu mais baixa do que ele queria. — Ela tá me enlouquecendo

Carol fechou a porta devagar.

Carol ficou alguns segundos em silêncio, observando-o, como se estivesse escolhendo o cuidado certo para um homem que só sabia ser duro.

— Vem — ela disse. — Senta.

Ele sentou no sofá, as mãos juntas, olhar fixo em um ponto vazio.

Carol serviu dois copos de tequila e sentou ao lado, mantendo uma distância respeitosa.

— Fala comigo — ela disse, madura, sem teatralidade.

Otávio passou a mão no rosto.

— Eu resolvo tudo. Tudo. Eu corro atrás, eu protejo, eu negocio, eu seguro crise. E mesmo assim… ela olha pra mim como se eu fosse um adolescente brincando.

Carol deu um gole pequeno.

— Infelizmente ela não dava separar mercadoria de família e você sabe disso.

Otávio virou o rosto para Carol.

— É... eu sei. Também sei que não tem nada o que possa ser feito. Só estou reclamando mesmo

Carol sustentou o olhar dele.

— Na verdade da pra fazer algo sim, mas você não está pronto pra isso. Ainda acha que ela faz tudo por amor.

Otávio respirou fundo. Ficou imóvel. Como se ela tivesse tocado uma ferida antiga.

Carol continuou, mais suave:

— E conveniência não é amor.

Otávio engoliu seco e responde quase no mesmo segundo:

— E o que é amor além de uma ilusão?

Carol ri e afaga os cabelos negros dele

— Sei que você não acredita no amor, mas vai por mim, existe!

Ele olhou para ela, e por um segundo, toda a vontade que ele vinha engolindo semana após semana subiu como fogo. Não como romantismo ou algo assim. Era desejo puro.

Ele se inclinou.

Carol não recuou

Ficou ali, por meio segundo, quase cedendo.

Depois riu, nervosa, e colocou a mão no peito dele.

— Negativo.

Otávio fechou os olhos… quase rindo também de si mesmo.

— Você gosta de me torturar.

Carol riu, balançando a cabeça.

— Eu gosto de não estragar o que a gente tá construindo.

Otávio abriu os olhos.

— E o que a gente tá construindo, Carol?

A frase veio como trovão, o timbre dele mais roco do que o normal.

— Uma parceria.

Otávio encarou ela como se aquela frase fosse perigosa demais para existir.

Ele soltou um riso curto, tentando transformar em piada antes que virasse confissão.

— Sermos parceiros impede que eu te deite nesse sofá e suba por cima de você?

Carol não esperava por aquela fala tão direta, tão quente.

Carol gargalhou, mas o riso veio trêmulo.

— Não fala assim...

Otávio respondeu, baixo:

— Tudo bem, tudo bem. Desisto! Ao menos por hoje

Ambos dão risada enquanto Carol levanta do sofá para buscar algum drink para eles.

Embora ela tentasse conter as coisas entre eles, achando que era melhor assim. a verdade era que Carol Pieters não sabia até quando ela iria resistir ao charme irresistível de Otávio Guerra.

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