Mundo de ficçãoIniciar sessãoA mulher estava encostada numa coluna, segurando uma taça como quem não precisava dela. Morena. Pele quente. Cabelo escuro caindo nos ombros com naturalidade. Um conjunto preto simples e caro, sem brilho, sem esforço.
E um olhar que não se deslumbrava. Não subia e descia no corpo dele. Não buscava aprovação. O olhar dela permanecia nos olhos. Estável. Avaliando. Otávio sentiu uma coisa pequena e irritante dentro do peito: curiosidade. — E você é…? — ele perguntou, devagar. — A pessoa que impedirá sua marca de virar um circo. Principalmente quando o assunto é sua vida particular. Otávio arqueou a sobrancelha. — Isso foi um elogio? — Foi um diagnóstico. Ele segurou o sorriso. — Carol Peters. Ela estendeu a mão primeiro. O detalhe o incomodou de um jeito bom. A mão dela era firme. Quente. — Otávio Guerra — ele respondeu, como se ela não soubesse. Carol sorriu de canto. — Eu sei. É difícil não saber quando seu sobrenome tá em letras douradas e em manchetes de jornais. Otávio riu, baixo, e a risada saiu mais verdadeira do que ele pretendia. — Você trabalha pra gente? — Ainda não. — “Ainda” soa como pedido. — “Ainda” soa como possibilidade — ela corrigiu. — Fui chamada pra avaliar riscos de imagem. Otávio sentiu a palavra “riscos” tocar a nuca dele. — E eu sou um risco? Carol inclinou a cabeça, estudando-o. — Você é… um homem com muita liberdade e pouca proteção. Isso é sempre um risco para pessoas públicas. A frase era inteligente demais para ser só provocação. Otávio cruzou os braços, sem saber se gostava mais da ousadia ou do cérebro dela. — Quem te chamou? Carol não desviou. — Sua mãe. Ah. Pronto. Agora fazia sentido. Óbvio que seria ela. Soraya Guerra não chamava pessoas. Soraya convocava ferramentas. — Ela acha que você é indomável — Carol continuou, como se estivesse falando de clima. — E isso deixa ela… apreensiva. Otávio soltou uma respiração curta. — Minha mãe é dramática. — Sua mãe gosta de controle — Carol respondeu, simples. — E você não dá controle pra ela. Ao menos não como ela gostaria. Otávio sentiu a provocação doer porque encaixou. Ele se aproximou um passo, mais por impulso do que por decisão. Todo charmoso. Carol não recuou. A distância entre os dois diminuiu, e o ar ganhou uma tensão estranha, como se tudo ao redor ficasse mais distante: música, risos, luzes, gente bonita. — Então você veio aqui pra me consertar? — Otávio perguntou com uma sobrancelha arqueada e um sorriso de lado. Carol deu um gole pequeno na bebida. — Eu vim pra impedir um desastre. Consertar não é bem minha função. Otávio riu de novo. E aquilo o irritou, porque era raro alguém fazê-lo rir sem tentar agradar. Atrás deles, Matteo apareceu como um fantasma curioso, atraído pelo cheiro de novidade e beleza feminina. — Oi — Matteo disse para Carol, sorriso aberto, sem vergonha. — Eu sou o irmão mais simpático e bonito. Isabela surgiu logo depois, como se tivesse sido puxada pela intuição. — Ele também é o que mente melhor — Isabela comentou, seca. Carol olhou para os dois e depois para Otávio. — Você tem… uma família grande. — Somos mexicanos. Família grande é quase um lema. Matteo apontou para o palco, ainda empolgado com o quase-escândalo. — Bela, você viu o cara quase subir pra cantar? Isabela fez uma careta. — Vi. E vi o Otávio impedindo um desastre com meia dúzia de palavras. — O melhor foi a cara de funeral do Júlio Matteo riu. — Júlio nasceu com cara de funeral. Carol observou Matteo e Isabela por um segundo a mais, como se estivesse calculando dinâmicas familiares. Depois voltou os olhos para Otávio. — Esses dois são… diferentes. — Eles ainda são muito jovens — Otávio respondeu. — Não. — Carol sorriu. — Eles ainda são livres. A frase ficou no ar como perfume. Otávio ia responder, mas Júlio apareceu de novo, como um lembrete de que o mundo real não descansava. — Otávio, mamãe quer você no lounge reservado. Agora. Otávio não tirou os olhos de Carol. — Agora? — Agora — Júlio repetiu, e o tom dele era um prazer pequeno. — Ela entrará em call Otávio sustentou o olhar de Carol mais um segundo, como se quisesse gravar a presença dela antes do golpe que estava por vir. — Você vai embora? — ele perguntou. Carol deu de ombros. — Vou ficar. — E completou, com um sorriso perigoso: — Alguém precisa proteger a marca Guerra. Ela diz com um sorrisinho zombeteiro. Otávio riu, baixo. — Boa sorte. — Eu não conto com sorte, Otávio — ela murmurou. — Eu conto com eficiência. Ele se afastou com Júlio, atravessando o corredor até o lounge reservado onde as paredes eram mais escuras, o tapete mais grosso e o silêncio mais sério. Ali não havia festa. Havia decisão. A porta fechou atrás deles, isolando o som do mundo. Havia um telão na sala, já conectado na vídeo chamada com a matriarca junto de três conselheiros e o advogado da família. Obviamente a presença que dominava o ambiente mesmo sem levantar a voz estava bem no meio: Soraya Guerra. Soraya tinha o cabelo preso, batom impecável, um colar discreto que ainda assim parecia uma coroa. Ela era extremamente conservada e bonita para quem estava chegando a casa dos sessenta anos. Fruto de vários procedimentos estéticos somados a boa genética latina. Ela olhou para Otávio como se estivesse observando um ativo que oscila. — Você chegou — ela disse, sem emoção. — É, cheguei... Mesmo a senhora sabendo que estou ocupada sendo o anfitrião do evento. Soraya inclinou a cabeça. — Você acha que eu chamaria se não fosse urgente? Otávio ficou em pé. Não se sentou. Era uma pequena guerra interna. — Fala logo, mãe. — Amanhã. Oito da manhã. Reunião do conselho. Otávio não piscou, segurando a vontade de revirar os olhos. — Eu tenho reunião amanhã. — Você terá outra — Soraya disse. — E essa será sobre você. Júlio se sentou, segurando a vontade de sorrir da cara do irmão mais velho. Soraya continuou, voz baixa, firme, sem necessidade de dramatização. — Sua imagem está se tornando instável. Otávio soltou um riso curto. — Instável? Eu acabei de evitar um escândalo ao vivo. Eu trabalho dia e noite, eu... Soraya o corta. — Você evitou um escândalo pequeno, insignificante. — Soraya corrigiu. — E se esforçar é mais do que sua obrigação, não é sobre isso que estou falando e você sabe! Um dos conselheiros compartilhou a tela do computador, relevando alguns slides específicos. Otávio abriu. Recortes. Print de sites. Fotos dele em eventos com mulheres diferentes. Manchetes com palavras como “playboy”, “herdeiro rebelde”, “solteirão mulherengo”. E, num canto, uma foto recente… dele perto de várias mulheres, uma no colo dele, as outras bem próximas. Otávio levantou os olhos. Soraya manteve o rosto impassível. — Eu sei que você é homem, jovem, bonito. — ela disse. — Mas não dá pra aceitar esses escândalos. Otávio suspirou, odiando o rumo daquela conversa — Você está preocupada demais. — Eu estou no controle do que importa — Soraya respondeu. — A nossa imagem Ele sentiu o estômago apertar. — Sempre a imagem. Soraya encostou os dedos na mesa, um gesto pequeno que mandava mais do que gritos. — Otávio, você tem trinta e dois anos. Já não é mais um menino! Silêncio. Ela então disse a frase com a frieza de quem anuncia a previsão do tempo: — Você vai se casar. Otávio soltou uma risada sem humor. — Não. Soraya sustentou o olhar dele. — Sim. — Eu não sou uma peça, mãe. Soraya não se alterou. — Você sempre foi. Todos nós somos. Júlio olhou para Otávio com um brilho breve, quase imperceptível. Soraya continuou, como se estivesse lendo um relatório: — Você se casa, dá estabilidade à marca, assume a presidência. Eu te entrego o império formalmente. — Você não se casa… e eu entrego tudo ao Júlio. Otávio virou o rosto para o irmão. Júlio abriu um sorriso pequeno. Otávio voltou para Soraya, e o olhar dele tinha algo mais escuro. — Você está me chantageando. Soraya inclinou a cabeça, educada. — Eu estou te guiando. — Isso é doentio. — Isso é família — Soraya corrigiu. Otávio respirou fundo, controlando a vontade de virar a mesa. — Com quem, então? — ele perguntou, voz baixa. — Com qual mulher você decidiu "fechar negócio" ? Soraya demorou um segundo, só para tornar a resposta mais impactante. — Alguém adequada. Otávio riu, um riso que não tinha alegria. — Adequada. Soraya assentiu. — Não será por amor. Não será por capricho. Será por estratégia. Um casamento comercial. Otávio sentiu a palavra “amor” atravessar a mente como uma piada de mal gosto. ' Amor ' só de pensar nessa palavra patética, Otávio já sentia o estômago embrulhar.






