Capítulo 4: Casamento Comercial

O relógio marcou 07:58 quando Otávio Guerra entrou na sala do conselho.

Não havia risos. Não havia luz quente, nem taças, nem slogans sobre legado. Só ar condicionado, madeira cara, telas com números e gente que sabia transformar uma vida inteira em planilhas.

Otávio estava impecável. Terno escuro, gravata discreta, expressão neutra. A postura de quem podia falar “bom dia” e, ainda assim, parecer uma ordem.

Ele cumprimentou dois conselheiros, apertos de mão rápidos, sem intimidade. Um advogado da família já deixava documentos alinhados. O diretor financeiro abriu uma apresentação.

Tudo normal.

Quase.

Soraya Guerra estava sentada na ponta da mesa, como sempre.

Não precisava levantar a voz para dominar um ambiente. Bastava existir. Batom perfeito, colar discreto, olhar que parecia ler pessoas do mesmo jeito que lia contratos.

Júlio, ao lado dela, ocupava a cadeira como se fosse dele desde sempre.

Otávio não se sentou de imediato. Esperou o diretor financeiro começar a falar, como se dissesse, sem dizer: eu só aceito esse teatro se tiver utilidade.

— Temos um entrave no porto — o diretor anunciou, projetando uma tela com gráficos e um mapa. — Container do lote doze. Fiscalização travou.

Otávio já sabia. Tinha resolvido antes do café.

Ele se sentou, cruzou as mãos sobre a mesa, e deixou o diretor terminar a frase só por educação.

— Eles alegam inconsistência na documentação de origem — completou o homem, hesitando. — E…

— E pediram “taxa de urgência” — Otávio concluiu, sem emoção.

O silêncio na sala foi quase respeitoso. Alguém pigarreou.

Soraya piscou devagar, como se aquilo fosse um teste. Júlio ergueu um canto de boca, mínimo, como quem pensa: vamos ver se você se garante.

Otávio inclinou o rosto para o diretor financeiro.

— O lote sai hoje.

— Hoje? — o diretor se alarmou. — Eles estão ameaçando segurar setenta e duas horas.

Otávio nem mudou a expressão.

— Como disse, sai hoje.

Diz Otávio, firme.

O advogado levantou a cabeça.

— Como assim?

— Eu lido com problemas do tipo desde os dezoito anos — Otávio disse, encarando o advogado. — Eu e Sandoval já resolvemos do nosso jeito.

— Isso pode escalar — um conselheiro alertou, preocupado com a palavra “escala” como se fosse um pecado.

Otávio virou o olhar na direção do homem.

— Escalar é melhor do que pagar. Hoje é um container. Amanhã é uma linha inteira. Se a gente cedesse toda vez que algum espertinho tenta tirar vantagem, a Guerra Corp. já teria quebrado há tempos.

O conselheiro engoliu seco.

— E se a imprensa descobrir?

Otávio deu um sorriso curto, quase educado.

— Não me importo nenhum pouco. Não é a imprensa que gera nossos lucros.

Júlio apoiou os cotovelos na mesa.

— Isso é… arriscado.

Otávio olhou para ele.

— É. Só que é arriscado do jeito certo.

Soraya, então, falou. Baixo. Frio.

— Faça.

Uma palavra. Uma assinatura.

Otávio assentiu.

E, por dois minutos, a reunião seguiu com assuntos de expansão, custos, distribuição. Tudo dentro do controle dele, como se o mundo fosse uma empresa e ele fosse a única pessoa capaz de organizar o caos.

Até que, no fim, Soraya fechou a pasta dela devagar.

O som do couro batendo na mesa pareceu um ponto final.

— Otávio, fique — ela disse.

Ninguém discutiu. Os conselheiros saíram, o diretor financeiro recolheu papéis, o advogado fez uma reverência muda e desapareceu.

Júlio, claro, demorou um pouco mais, como se quisesse ficar.

Soraya nem olhou para ele.

— Júlio, nos de licença, sim?

Júlio respirou pelo nariz, contrariadinho, mas obedeceu. Antes de sair, lançou um olhar para Otávio, aquele olhar de irmão que não sabia ser irmão. Mais perto de um competidor.

Quando a porta fechou, Soraya cruzou as mãos sobre a mesa.

— Você foi eficiente — ela disse.

Otávio esperou. Elogio em Soraya era sempre a primeira camada de alguma coisa pior.

— Obrigado.

— Não foi um elogio — Soraya corrigiu, sem alterar o tom. — Foi uma constatação.

Otávio soltou um riso sem humor.

— Você me chamou aqui pra isso?

Soraya inclinou a cabeça.

— Você acha que eu chamaria se não fosse necessário?

Otávio se recostou na cadeira, mas não relaxou. Ele nunca relaxava perto dela.

— Então vamos direto ao ponto, mamá.

Soraya abriu uma pasta, tirou um envelope fino e colocou sobre a mesa como se fosse uma oferta.

Otávio olhou para o envelope como se ele pudesse morder.

— Oito da manhã e já tem ultimato?

— Oito da manhã é quando homens sérios resolvem a vida — ela respondeu, suave. — Homens irresponsáveis resolvem depois do almoço. Você não é irresponsável, certo?

Otávio prendeu a vontade de responder algo venenoso.

— Depende de quem pergunta e do dia.

Ele fala com deboche.

Soraya deslizou o envelope na direção dele.

— Você é profissional, Otávio. Você sempre foi. Você resolve crises. Você protege a marca. Você sustenta a empresa. Eu reconheço isso.

A frase “eu reconheço” parecia um prêmio absurdo vindo dela.

Otávio não sorriu. Só disse:

— E ainda assim não basta, não é?

Soraya piscou. Um gesto mínimo que, nela, era quase emoção.

— Exato.

Otávio pegou o envelope, abriu, tirou os papéis.

Cláusulas. Termos. Cronogramas.

Uma palavra repetida ali como um refrão: estabilidade.

Ele folheou devagar, com uma calma que era só casca.

— Você escreveu “presidência condicionada ao casamento” — ele disse, voz baixa.

— São os fatos— Soraya respondeu.

Otávio largou os papéis sobre a mesa.

— Eu acabei de estabilizar um lote, aliás, eu faço isso o tempo todo e mesmo assim...

— Você fez o que tinha que fazer — Soraya cortou. — Trabalho é o mínimo. Legado é o máximo. Não espere um prêmio por fazer a empresa funcionar bem.

Otávio apoiou as mãos na mesa, inclinando-se.

— Então diz de uma vez, o que você quer de mim?

Soraya sustentou o olhar.

— Eu quero uma família que continue existindo quando eu não estiver mais aqui. — A voz dela não tremia. — Você tem trinta e dois anos. E a cada foto sua com uma mulher diferente, a marca perde força.

Otávio soltou uma risada curta.

— Isso é ridículo. A marca é a tequila. Não a minha vida.

Soraya disse, calmíssima:

— Você está errado.

Otávio ficou imóvel.

Soraya continuou, como quem ensina algo básico a uma criança teimosa.

— Produtos são histórias. Pessoas compram histórias. E a sua história, atualmente, é: “solteirão rico e inconsequente”. Eu não vou permitir que isso seja o resumo do nosso sobrenome.

— Nosso sobrenome? — Otávio repetiu, com ironia. — Ou o seu?

Soraya não se ofendeu. Ela não se ofendia. Ela apenas ajustava o alvo.

— O meu sobrenome é o mesmo que você carrega — ela disse. — E ele não é negociável.

Otávio respirou fundo.

— E se eu não aceitar?

Soraya encostou a ponta do dedo no papel, como se marcasse uma linha.

— Então eu passo a presidência para o Júlio. Te deserdo... A escolha é sua.

Otávio ficou em silêncio por dois segundos, mas por dentro tudo endureceu.

— "Escolha" que piada! Você está me chantageando.

— Não seja dramático, Otávio Armando. É a vida, são os negócios. Não trate como se eu não te amasse e quisesse sua infelicidade— Soraya respondeu. — Esse legado é seu por direito e mérito. Mas também deve ter obediência.

Obediência. A palavra saiu sem vergonha.

Otávio fechou a mão.

— Com quem?

Soraya sorriu, quase satisfeita por ele ter perguntado.

— Uma união estratégica.

Otávio riu sem alegria.

— Ótimo, definitivamente eu sou uma tequila na prateleira de um mercado! Você nem disfarça.

— Disfarçar é perda de tempo — Soraya respondeu. — Você vai se casar, Otávio. Você vai ser impecável. E, quando isso acontecer, você assume.

Otávio encarou a mãe por um longo momento. A sala parecia menor.

— Você fala como se tivesse certeza que eu vou aceitar essa maluquice.

Soraya inclinou o rosto, e por um segundo, uma coisa quase humana apareceu no olhar dela. Quase. Depois sumiu.

— Eu sei o filho que eu criei. E sei que você vai optar pela sensatez.

Otávio se levantou.

— Eu tenho trabalho. Até mais, mamãe

Soraya não respondeu, não precisava.

Permaneceu no mesmo lugar, sentada na cadeira do escritório como se fosse um trono.

E o sorriso sem mostrar os dentes denunciava a vitória silenciosa, pois se tinha algo que Soraya Guerra sabia e se orgulhava era do domínio. Domínio não apenas dos negócios, mas de seus próprios filhos.

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