Mundo de ficçãoIniciar sessãoEm 1995, o poder é um jogo de aparências. Beatriz é a assistente invisível da Vanguard Empreendimentos, mas quando a noiva socialite do CEO Caio Vilela o abandona na véspera de um negócio bilionário, ela se torna sua única saída. Por uma fortuna, Beatriz aceita um contrato perigoso, como um pequeno fazer ao chefe: fingir ser a noiva ideal por uma noite. O plano falha espetacularmente quando um flagra da imprensa os transforma no casal do ano, forçando um "casamento" de fachada sob o luxo gélido de São Paulo. Enquanto a convivência forçada derrete a frieza de Caio e desperta em Beatriz um desejo proibido, a máscara cai. Ela descobre que o novo projeto dele destruirá a Vila Esperança, o bairro onde ela cresceu. Agora, Beatriz é a esposa devota nos eventos e a sabotadora infiltrada entre lençóis de seda. No epicentro de uma guerra entre o amor e as raízes, ela aprenderá que, no mundo dos negócios, o coração é o único ativo que não se pode comprar.
Ler maisO relógio de carvalho na parede da antessala da presidência da Vanguard Empreendimentos parecia martelar os segundos contra o silêncio pesado do corredor. Eram seis da tarde de uma terça-feira de 1995, e o ar em São Paulo estava carregado com a umidade que precedia as tempestades de verão. Dentro daquele escritório, porém, o clima era de um inverno seco e cortante.
Beatriz Cavalcante organizava as pastas de couro sobre sua mesa com uma precisão quase obsessiva. Era o seu mecanismo de defesa. Se os papéis estivessem alinhados, se o café estivesse na temperatura exata e se a agenda de Caio Vilela não tivesse um único minuto de lacuna, talvez o caos do mundo exterior não pudesse invadir aquele santuário de produtividade. Ela alisou a saia de linho, sentindo o tecido áspero sob as palmas das mãos suadas. No fundo, ela sabia que o silêncio vindo da sala interna era o prenúncio de um desastre.
A porta de mogno maciço se abriu com um estrondo que fez Beatriz saltar. Melissa, a noiva de Caio — ou o que restava dessa definição — saiu como um furacão de seda e perfume francês caro. Ela não olhou para trás. Seus passos de salto agulha ecoavam no mármore como tiros. Ela passou por Beatriz sem um aceno, deixando apenas o rastro de uma humilhação silenciosa e o brilho de um anel de diamante que agora, curiosamente, não estava mais em seu dedo.
Beatriz respirou fundo. Ela sentiu o peso do ar se deslocar. No interior da sala, Caio Vilela estava parado diante da imensa parede de vidro que oferecia uma visão privilegiada da Avenida Paulista. Os faróis dos carros lá embaixo começavam a formar rios de luz amarela e vermelha, uma pulsação urbana que parecia indiferente à ruína pessoal do homem no 22º andar.
Ele não se moveu quando ela entrou. Seus ombros, geralmente largos e imponentes sob o corte impecável do terno Armani, pareciam rígidos demais, como se a qualquer momento pudessem se quebrar.
— Ela foi embora — a voz de Caio soou baixa, desprovida de emoção, o que era muito mais assustador do que se ele estivesse gritando.
— Eu vi, Sr. Vilela — Beatriz respondeu suavemente, parando a uma distância segura. Ela notou o cinzeiro de cristal no canto da mesa, onde um charuto esquecido queimava sozinho. — O senhor deseja que eu cancele a reserva para o jantar de amanhã?
Caio se virou lentamente. A luz do crepúsculo batia em seu rosto, acentuando as linhas de cansaço ao redor dos olhos claros e a mandíbula cerrada. Ele riu, um som seco e sem humor que fez um arrepio percorrer a espinha de Beatriz.
— O jantar com o Grupo Veronese? O jantar que decide se a Vanguard continua existindo ou se nos tornamos uma nota de rodapé na história imobiliária deste país? Não, Beatriz. Eu não posso cancelar.
Ele caminhou em direção à mesa, os movimentos agora rápidos e erráticos, como os de um predador encurralado. Ele começou a revirar os papéis que ela acabara de organizar, procurando por algo que nem ele mesmo sabia.
— Eles são conservadores, Beatriz. "Homens de família". Veronese só assina esse contrato se sentir que está lidando com alguém estável. Alguém com raízes. Melissa não era apenas minha noiva; ela era a minha garantia de normalidade. E agora, em menos de vinte e quatro horas, eu sou apenas um solteiro desesperado com uma empresa sangrando.
Beatriz observava as mãos dele. Eram mãos fortes, que ela vira assinar cheques de milhões sem tremer. Agora, elas seguravam a borda da mesa com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela sentiu uma pontada de algo que tentou suprimir: compaixão. Ela conhecia aquele homem há três anos. Conhecia sua disciplina, sua arrogância e, nas raras brechas, sua solidão.
— Deve haver uma solução — ela disse, mais para si mesma do que para ele.
Caio parou de se mover. Ele ergueu os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, ele realmente a viu. Não como a assistente eficiente que trazia os relatórios de zoneamento ou o café preto sem açúcar. Ele a viu como uma presença. O cabelo castanho dela estava preso em um coque rigoroso, mas alguns fios escapavam, emoldurando um rosto que possuía uma beleza clássica e silenciosa, muitas vezes camuflada pela neutralidade de suas roupas de trabalho.
O olhar dele tornou-se analítico, quase predatório. O silêncio se estendeu, tornando-se denso, carregado por uma ideia que começou a tomar forma no vazio deixado por Melissa.
— Você tem planos para amanhã à noite, Beatriz? — ele perguntou, a voz subitamente calma, uma calma que sinalizava o início de uma negociação perigosa.
Beatriz sentiu o coração acelerar. Havia algo no tom de Caio que a fazia querer dar um passo para trás, de volta para a segurança de sua mesa e de sua vida invisível na Vila Esperança.
— Eu... eu pretendia visitar minha mãe. É aniversário da vizinha, nós íamos...
— Esqueça a vizinha — ele a interrompeu, contornando a mesa com passos lentos. — Eu preciso de uma noiva. E você conhece os detalhes da fusão melhor do que qualquer advogada que eu pudesse contratar. Você sabe o que dizer, sabe como me olhar e, mais importante, você é a única pessoa em quem eu confio para manter a boca fechada quando o sol nascer.
— O senhor não pode estar falando sério — Beatriz sussurrou, sentindo o sangue fugir de seu rosto. — Eu sou sua secretária. Ninguém acreditaria...
— As pessoas acreditam no que elas veem, Beatriz. E amanhã, elas verão uma mulher elegante, inteligente e dedicada ao meu lado. — Ele parou a poucos centímetros dela. O cheiro de sândalo e tabaco dele a envolveu. — Eu lhe pago o equivalente a um ano de salário por quatro horas de atuação. Pense na sua mãe. Pense na sua casa.
Beatriz fechou os olhos por um segundo. A imagem de sua mãe, remendando o telhado da casa velha na Vila Esperança, brilhou em sua mente. O dinheiro mudaria tudo. Mas, ao abrir os olhos e encontrar as orbes frias e determinadas de Caio, ela soube que o preço não seria apenas medido em moedas. Havia um perigo naquele pacto, uma rachadura no vidro que ela passara anos tentando manter intacto.
O jantar estava marcado. O palco estava montado. E ali, sob a luz pálida do escritório, Beatriz aceitou o papel que destruiria sua invisibilidade para sempre. Ela só não sabia que, ao salvar o império de Caio, ela estaria colocando um alvo no que mais amava.
O despertar no pensionato da Liberdade não trouxe o alívio que Beatriz esperava. O quarto, mergulhado em um silêncio quase monástico, parecia uma redoma de vidro que a isolava da tempestade que ela mesma ajudara a convocar. O sol de 1995 filtrava-se pelas frestas das venezianas de madeira, desenhando listras de luz dourada sobre o lençol áspero. Beatriz sentou-se na cama, sentindo cada músculo do corpo protestar. O cheiro de incenso e madeira velha do casarão era um contraste violento com o odor de gasolina e fumaça que ainda parecia impregnado em seus poros.Ela abriu a pasta de couro sobre o pequeno criado-mudo. Os documentos de 1974 olhavam para ela como fantasmas famintos por justiça. Escrituras com assinaturas trêmulas, mapas de loteamentos que nunca existiram legalmente e notas promissórias que compravam o silêncio de tabeliães mortos há décadas. Otávio Vilela não era apenas um empresário de sucesso; ele era um arquiteto do despojo.— O café está na mesa, irmã — a voz suav
A Praça da Sé, no coração geográfico de São Paulo, era um abismo de sombras e ecos naquela madrugada. O ano de 1995 não era gentil com quem caminhava sozinho pelo centro após a meia-noite. O vento encanado das avenidas trazia o cheiro de umidade e o som distante de pneus sobre o asfalto molhado. Beatriz caminhava apressada, apertando a pasta de couro contra o peito como se fosse um escudo. Seus pés, ainda calçados com os sapatos da "Cinderela do Asfalto", agora estavam sujos de lama e cinzas, e cada passo sobre o mosaico português da praça parecia um estrondo no silêncio sepulcral.A Catedral da Sé erguia-se diante dela como uma sentinela gótica, suas torres perfurando o céu nublado. Era um monumento à fé, mas para Beatriz, parecia uma fortaleza de pedra. Ela olhava para trás a cada dez segundos, esperando ver os faróis de Ricardo ou o brilho de uma arma sob os postes de luz amarelada. Sua respiração saía em pequenas nuvens de vapor. O frio da madrugada começava a penetrar se
O relógio na parede da delegacia de plantão parecia zombar da urgência de Caio. O tique-taque era metálico, seco, ecoando em uma sala cujas paredes descascadas exalavam um cheiro de cigarro barato e desinfetante vencido. Sentado em um banco de madeira duro, Caio Vilela encarava as próprias mãos. Elas ainda estavam manchadas de fuligem e terra, com pequenos cortes que latejavam sob a luz fria da lâmpada fluorescente. Ele não usava mais o terno Armani; o paletó se perdera nas chamas e a camisa branca, agora um trapo acinzentado, estava aberta no peito, revelando a pele vermelha pelo calor do incêndio.— Você tem direito a uma ligação, Vilela. Mas, se eu fosse você, guardaria para um advogado de peso. O Sindicato já mandou o depoimento das testemunhas e a coisa está feia para o seu lado.A voz do delegado era desprovida de emoção, o tom de quem já vira magnatas caírem e pobres serem esmagados tantas vezes que a diferença entre eles se tornara apenas uma questão de papelada. Caio nã
O silêncio no apartamento de Caio, no Jardins, era tão profundo que Beatriz podia ouvir o próprio coração martelando contra as costelas. O contraste era violento; o cheiro de fumaça e borracha queimada da Vila Esperança ainda estava impregnado em sua pele e em seus cabelos, mas ali, entre as paredes de mármore travertino e as obras de arte minimalistas, o mundo parecia ignorar a existência da tragédia.Ela caminhou pelo tapete persa, sentindo-se uma intrusa. O luxo de Caio, que antes a intimidava, agora parecia apenas uma moldura vazia. Ela foi direto para a sala de estar, onde o quadro de Portinari — uma cena de retirantes que agora parecia ironicamente profética — dominava a parede principal.A senha é o dia em que nos conhecemos.Beatriz parou com os dedos trêmulos sobre o teclado numérico escondido atrás da moldura. Sua mente viajou para três anos atrás. Não fora uma data romântica. Fora uma tarde chuvosa de terça-feira, 14 de março. Ela se lembrava porque era o dia do anivers
O asfalto da Avenida Paulista parecia derreter sob os pneus do sedã preto enquanto Caio ignorava todos os sinais vermelhos. O silêncio dentro do carro era cortante, interrompido apenas pela respiração ofegante de Beatriz e pelo chiado do rádio comunicador que ele mantinha ligado na frequência da segurança da empresa. A mão de Beatriz agarrava o puxador da porta com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos como mármore.— Eles não podem fazer isso, Caio. Eles não podem simplesmente queimar tudo — ela sussurrou, a voz embargada pela fumaça que já parecia preencher seus pulmões, mesmo a quilômetros de distância.— Em 1995, Beatriz, o fogo é a ferramenta de limpeza preferida de quem não quer enfrentar a justiça — Caio respondeu, a voz gélida, mas os olhos fixos na estrada com uma fúria que ela nunca vira. — Se o bairro for destruído por um "acidente", o decreto de interesse social perde o objeto. Sem casas, não há o que proteger. O terreno volta a ser apenas terra nua par
O corredor que conduzia à sala de reuniões do conselho da Vanguard Empreendimentos parecia ter se transformado em um túnel de gelo. O carpete cinza absorvia o som dos passos, mas não conseguia abafar o zumbido elétrico da ansiedade que emanava das salas adjacentes. Funcionários, cujos rostos Beatriz conhecia de anos de rotina silenciosa, agora desviavam o olhar ou cochichavam assim que ela passava. Para eles, ela não era mais a assistente eficiente que trazia os relatórios; era a mulher que, em uma semana, havia seduzido o herdeiro e colocado o império em risco.Ao seu lado, Caio caminhava com uma rigidez que beirava a paralisia. O terno azul-marinho, cortado sob medida, parecia uma armadura pesada demais. Beatriz notou como ele ajustava as abotoaduras compulsivamente, um tique nervoso que ele nunca demonstrara em três anos. Ela queria segurar a mão dele, sentir a pele quente para ter certeza de que não eram apenas fantasmas naquele santuário de vidro e aço, mas a etiqueta invisív





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