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O relógio de carvalho na parede da antessala da presidência da Vanguard Empreendimentos parecia martelar os segundos contra o silêncio pesado do corredor. Eram seis da tarde de uma terça-feira de 1995, e o ar em São Paulo estava carregado com a umidade que precedia as tempestades de verão. Dentro daquele escritório, porém, o clima era de um inverno seco e cortante.
Beatriz Cavalcante organizava as pastas de couro sobre sua mesa com uma precisão quase obsessiva. Era o seu mecanismo de defesa. Se os papéis estivessem alinhados, se o café estivesse na temperatura exata e se a agenda de Caio Vilela não tivesse um único minuto de lacuna, talvez o caos do mundo exterior não pudesse invadir aquele santuário de produtividade. Ela alisou a saia de linho, sentindo o tecido áspero sob as palmas das mãos suadas. No fundo, ela sabia que o silêncio vindo da sala interna era o prenúncio de um desastre.
A porta de mogno maciço se abriu com um estrondo que fez Beatriz saltar. Melissa, a noiva de Caio — ou o que restava dessa definição — saiu como um furacão de seda e perfume francês caro. Ela não olhou para trás. Seus passos de salto agulha ecoavam no mármore como tiros. Ela passou por Beatriz sem um aceno, deixando apenas o rastro de uma humilhação silenciosa e o brilho de um anel de diamante que agora, curiosamente, não estava mais em seu dedo.
Beatriz respirou fundo. Ela sentiu o peso do ar se deslocar. No interior da sala, Caio Vilela estava parado diante da imensa parede de vidro que oferecia uma visão privilegiada da Avenida Paulista. Os faróis dos carros lá embaixo começavam a formar rios de luz amarela e vermelha, uma pulsação urbana que parecia indiferente à ruína pessoal do homem no 22º andar.
Ele não se moveu quando ela entrou. Seus ombros, geralmente largos e imponentes sob o corte impecável do terno Armani, pareciam rígidos demais, como se a qualquer momento pudessem se quebrar.
— Ela foi embora — a voz de Caio soou baixa, desprovida de emoção, o que era muito mais assustador do que se ele estivesse gritando.
— Eu vi, Sr. Vilela — Beatriz respondeu suavemente, parando a uma distância segura. Ela notou o cinzeiro de cristal no canto da mesa, onde um charuto esquecido queimava sozinho. — O senhor deseja que eu cancele a reserva para o jantar de amanhã?
Caio se virou lentamente. A luz do crepúsculo batia em seu rosto, acentuando as linhas de cansaço ao redor dos olhos claros e a mandíbula cerrada. Ele riu, um som seco e sem humor que fez um arrepio percorrer a espinha de Beatriz.
— O jantar com o Grupo Veronese? O jantar que decide se a Vanguard continua existindo ou se nos tornamos uma nota de rodapé na história imobiliária deste país? Não, Beatriz. Eu não posso cancelar.
Ele caminhou em direção à mesa, os movimentos agora rápidos e erráticos, como os de um predador encurralado. Ele começou a revirar os papéis que ela acabara de organizar, procurando por algo que nem ele mesmo sabia.
— Eles são conservadores, Beatriz. "Homens de família". Veronese só assina esse contrato se sentir que está lidando com alguém estável. Alguém com raízes. Melissa não era apenas minha noiva; ela era a minha garantia de normalidade. E agora, em menos de vinte e quatro horas, eu sou apenas um solteiro desesperado com uma empresa sangrando.
Beatriz observava as mãos dele. Eram mãos fortes, que ela vira assinar cheques de milhões sem tremer. Agora, elas seguravam a borda da mesa com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela sentiu uma pontada de algo que tentou suprimir: compaixão. Ela conhecia aquele homem há três anos. Conhecia sua disciplina, sua arrogância e, nas raras brechas, sua solidão.
— Deve haver uma solução — ela disse, mais para si mesma do que para ele.
Caio parou de se mover. Ele ergueu os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, ele realmente a viu. Não como a assistente eficiente que trazia os relatórios de zoneamento ou o café preto sem açúcar. Ele a viu como uma presença. O cabelo castanho dela estava preso em um coque rigoroso, mas alguns fios escapavam, emoldurando um rosto que possuía uma beleza clássica e silenciosa, muitas vezes camuflada pela neutralidade de suas roupas de trabalho.
O olhar dele tornou-se analítico, quase predatório. O silêncio se estendeu, tornando-se denso, carregado por uma ideia que começou a tomar forma no vazio deixado por Melissa.
— Você tem planos para amanhã à noite, Beatriz? — ele perguntou, a voz subitamente calma, uma calma que sinalizava o início de uma negociação perigosa.
Beatriz sentiu o coração acelerar. Havia algo no tom de Caio que a fazia querer dar um passo para trás, de volta para a segurança de sua mesa e de sua vida invisível na Vila Esperança.
— Eu... eu pretendia visitar minha mãe. É aniversário da vizinha, nós íamos...
— Esqueça a vizinha — ele a interrompeu, contornando a mesa com passos lentos. — Eu preciso de uma noiva. E você conhece os detalhes da fusão melhor do que qualquer advogada que eu pudesse contratar. Você sabe o que dizer, sabe como me olhar e, mais importante, você é a única pessoa em quem eu confio para manter a boca fechada quando o sol nascer.
— O senhor não pode estar falando sério — Beatriz sussurrou, sentindo o sangue fugir de seu rosto. — Eu sou sua secretária. Ninguém acreditaria...
— As pessoas acreditam no que elas veem, Beatriz. E amanhã, elas verão uma mulher elegante, inteligente e dedicada ao meu lado. — Ele parou a poucos centímetros dela. O cheiro de sândalo e tabaco dele a envolveu. — Eu lhe pago o equivalente a um ano de salário por quatro horas de atuação. Pense na sua mãe. Pense na sua casa.
Beatriz fechou os olhos por um segundo. A imagem de sua mãe, remendando o telhado da casa velha na Vila Esperança, brilhou em sua mente. O dinheiro mudaria tudo. Mas, ao abrir os olhos e encontrar as orbes frias e determinadas de Caio, ela soube que o preço não seria apenas medido em moedas. Havia um perigo naquele pacto, uma rachadura no vidro que ela passara anos tentando manter intacto.
O jantar estava marcado. O palco estava montado. E ali, sob a luz pálida do escritório, Beatriz aceitou o papel que destruiria sua invisibilidade para sempre. Ela só não sabia que, ao salvar o império de Caio, ela estaria colocando um alvo no que mais amava.







