Mundo de ficçãoIniciar sessãoA manhã seguinte não trouxe a clareza que o sol costuma oferecer. No apartamento de cobertura de Caio, no Jardins, a luz atravessava as persianas automáticas com uma agressividade que fazia sua cabeça latejar. Ele estava sentado à mesa de vidro da sala de jantar, cercado por um vazio que o luxo não conseguia preencher. O jornal Folha de S. Paulo estava aberto sobre o tampo frio. Na coluna social de Joyce Pascowitch, a foto em preto e branco capturada na saída do restaurante era nítida: ele, protetor e imponente; ela, esquiva e misteriosa sob o flash. A legenda falava em "amor improvável" e "finesse silenciosa".
Caio empurrou o jornal para longe. Ele se lembrou da sensação das pérolas de Beatriz contra a palma de sua mão quando a conduziu para fora do carro, e de como ela parecia terrivelmente frágil e, ao mesmo tempo, perigosamente forte ao confrontá-lo sobre a Vila Esperança.
O telefone residencial, um aparelho pesado de design alemão, tocou. Era seu pai, o patriarca da dinastia Vilela, ligando de sua fazenda no interior.
— Vi as notícias, Caio — a voz de Otávio Vilela era um trovão de autoridade cansada. — Melissa era previsível, mas essa moça... quem é ela? Os acionistas estão perguntando. A Bolsa abriu em alta com o boato da estabilidade do seu noivado.
— É uma situação sob controle, pai — Caio mentiu, sentindo o nó na garganta. — Beatriz é discreta. Exatamente o que a empresa precisa agora.
— Espero que sim. Porque se a Veronese recuar por causa de qualquer escândalo doméstico, você não será apenas o homem que perdeu a noiva, será o homem que enterrou o nome da família. Lembre-se: sentimentos são luxos que herdeiros não podem pagar.
Ao desligar, Caio sentiu o peso do legado como uma armadura de chumbo. Ele caminhou até o bar, servindo-se de um copo de água mineral. Sua mente vagou para o mapa da Zona Oeste. Ele via as casas da Vila Esperança como retângulos cinzas em um projeto de CAD, mas agora, aqueles retângulos tinham o rosto de Beatriz. Tinham o cheiro de café queimado que ele sentira impregnado no casaco dela.
Ele nunca se permitira olhar para baixo. Para Caio, a cidade era um organismo que precisava ser podado para crescer. Mas o modo como ela o chamara de "homem de gelo"... aquela frase ecoava em seus ouvidos como uma maldição. Ele odiava a vulnerabilidade que ela o fizera sentir. Odiava o fato de que, por um breve momento no carro, ele quisera pedir desculpas.
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Enquanto isso, na Vila Esperança, o despertar de Beatriz era um exercício de resistência. Ela não usou o vestido de seda. Voltou para seu uniforme de guerra: a calça jeans gasta e a camiseta de algodão. Sua mãe, Helena, lavava roupas no tanque nos fundos, o som do esfregar da escova contra o tecido servindo como um metrônomo para os pensamentos de Beatriz.
— Bia, você viu isso? — Helena entrou na cozinha, segurando um jornal amassado que o vizinho emprestara. — Estão dizendo que você vai casar com o patrão. Que história é essa, minha filha?
Beatriz sentiu o estômago despencar. A farsa saíra das colunas de fofoca e chegara à lama de seu bairro.
— É confusão da imprensa, mãe. Eu só o ajudei em um jantar importante. Eles inventam qualquer coisa para vender jornal.
— Tome cuidado — Helena disse, secando as mãos no avental, os olhos nublados pela preocupação. — Homens como esse Sr. Caio não veem gente como a gente como pessoas. Eles nos veem como obstáculos. Se você se aproximar demais do sol, vai se queimar.
Beatriz não respondeu. Ela entrou no quarto e pegou a pasta que trouxera da Vanguard. Espalhou os mapas sobre a cama desfeita. Ali estava o traçado vermelho: a futura avenida principal do complexo de luxo passava exatamente por cima da pequena mercearia da esquina e da igrejinha onde ela fora batizada.
"Ele não vai fazer isso", ela pensou, embora a lógica dissesse o contrário.
Ela precisava voltar à empresa, mesmo que ele tivesse dado o dia de folga. Não como a noiva de fachada, mas como a sabotadora. Ela conhecia as senhas de acesso. Sabia quais relatórios de impacto ambiental ainda não tinham sido assinados pela prefeitura. Se ela pudesse encontrar uma irregularidade, uma falha técnica no terreno, ela poderia atrasar o projeto o suficiente para que a Veronese perdesse o interesse e Caio fosse forçado a mudar os planos.
Seu coração martelava contra as costelas. Ela amava o modo como ele, por vezes, a olhava como se ela fosse a única coisa real em sua vida de plástico. Mas ela amava mais a terra sob seus pés.
***
À tarde, o escritório da Vanguard estava em polvorosa. Os sussurros cessavam assim que Caio passava. Ele entrou em sua sala e fechou a porta, mas a imagem de Beatriz não o abandonava. Ele tentou focar nos contratos, mas sua mão hesitou sobre a caneta-tinteiro.
Ele abriu a gaveta lateral e tirou um objeto que guardava escondido: um pequeno carrinho de metal, descascado pelo tempo. Era o único brinquedo que restara de sua infância, antes de seu pai decidir que ele era velho demais para brincar e jovem demais para não entender de juros. Caio também tivera uma "Vila Esperança" em algum lugar de sua memória, um tempo antes de ser moldado para ser um titã.
Ele olhou para o carrinho e depois para o projeto "Nova Era". A contradição era uma ferida aberta. Ele queria o sucesso. Ele precisava salvar a empresa para provar ao pai que era digno. Mas, pela primeira vez, ele se perguntou qual era o preço real do solo que ele pretendia pavimentar.
Um movimento na antessala chamou sua atenção através do vidro fosco. Era uma silhueta familiar. Beatriz estava lá, fora de seu horário, mexendo nos arquivos de aço com uma pressa que não condizia com sua rotina habitual.
Caio levantou-se silenciosamente. Ele não a chamou. Ele a observou pela fresta da porta. Ela parecia estar procurando algo específico, algo escondido. A tensão em seus ombros era visível.
Ele sentiu uma pontada de traição, mas também de admiração. Ela não estava apenas chorando pelos cantos; ela estava lutando. Ele cruzou os braços, encostado no portal de madeira, esperando o momento certo para intervir.
— Procurando os documentos do zoneamento ambiental, Beatriz? — a voz dele cortou o silêncio da sala como uma lâmina.
Beatriz congelou. A gaveta de aço ainda estava aberta entre suas mãos. Ela se virou lentamente, o rosto pálido, mas os olhos brilhando com uma determinação que ele nunca vira em Melissa ou em qualquer um de seus sócios.
— Eu não posso deixar você fazer isso, Caio — ela disse, a voz firme apesar do tremor nas mãos.
— E o que você pretende fazer? — ele deu um passo à frente, entrando no espaço dela. — Roubar um contrato de bilhões? Destruir sua carreira por um bairro que o governo já condenou?
— Eu vou fazer o que for preciso. Porque enquanto você vê números, eu vejo vidas. E se para salvar a minha mãe eu tiver que destruir a sua empresa, eu farei.
Eles estavam a centímetros de distância. O ar entre eles estava carregado com o cheiro de papel antigo e a eletricidade de um conflito que não era mais apenas profissional. Caio sentiu uma vontade avassaladora de segurá-la pelos ombros, de sacudi-la ou de beijá-la até que ambos esquecessem quem eram.
— Você é minha noiva perante o mundo, Beatriz — ele sussurrou, a voz rouca. — Se você me trair agora, nós dois caímos.
— Então talvez seja hora de aprendermos a voar entre os escombros.
O telefone na mesa dele tocou. Era Alberto Veronese, chamando para confirmar a assinatura final. O destino da Vila Esperança estava a um telefonema de distância.







