Mundo de ficçãoIniciar sessãoO elevador panorâmico do Edifício Itália subia com uma suavidade que fazia os ouvidos de Beatriz estalarem. Através do vidro, São Paulo se desdobrava em um tapete infinito de luzes, mas ela não conseguia apreciar a vista. Suas mãos, enluvadas pela primeira vez na vida, apertavam a pequena bolsa de cetim com tanta força que os dedos começavam a formigar.
Ao seu lado, Caio Vilela era a personificação da calma aristocrática. Ele havia trocado o terno de trabalho por um smoking de corte impecável. O colarinho rígido da camisa branca destacava o bronzeado de quem passava os fins de semana em barcos, não em ônibus lotados. Ele exalava um perfume amadeirado que parecia preencher todo o espaço do elevador, tornando o oxigênio escasso para ela.
— Respire, Beatriz — ele disse, sem olhar para ela, observando o próprio reflexo no espelho lateral enquanto ajustava as abotoaduras de ônix. — Você está pálida. Lembre-se: você não é minha secretária hoje. Você é a mulher que eu escolhi para dividir a vida. Se você não acreditar nisso, eles também não acreditarão.
— É difícil acreditar quando o sapato custa mais que o meu barraco, Sr. Vilela — ela sussurrou, a voz trêmula.
Caio finalmente se virou. Ele deu um passo em direção a ela, reduzindo a distância até que Beatriz pudesse ver os reflexos dourados em suas íris. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que a pegou desprevenida, tocou o queixo dela, forçando-a a erguer o rosto.
— Chame-me de Caio. Se o "Sr. Vilela" escapar da sua boca diante do Veronese, o contrato morre antes do couvert. E Beatriz... — ele fez uma pausa, os olhos descendo pelo vestido de seda que abraçava as curvas dela de forma perigosa. — Você está magnífica. Use isso a seu favor. A beleza é uma arma tão eficaz quanto qualquer cláusula contratual.
As portas se abriram com um tilintar discreto. O restaurante era um oceano de tapetes espessos, cristais tilintando e o som baixo de um piano de cauda ao fundo. O maître os conduziu imediatamente para uma mesa reservada em um recanto mais privativo, onde um homem de cabelos brancos e expressão severa já os aguardava.
— Alberto Veronese — anunciou Caio, assumindo instantaneamente uma postura de confiança absoluta. — Lamento o pequeno atraso. Gostaria de apresentar minha noiva, Beatriz Cavalcante.
O homem se levantou, analisando Beatriz com olhos que pareciam calcular o valor de mercado de cada fibra de seu ser. Beatriz sentiu o coração bater na garganta, mas o treinamento silencioso de anos observando Caio em reuniões assumiu o controle. Ela estendeu a mão com a palma para baixo, um gesto que vira Melissa fazer mil vezes, e deu um sorriso que não chegava aos olhos, mas que brilhava com a intensidade certa sob os lustres.
— É um prazer imenso, Sr. Veronese — disse ela, a voz saindo mais firme do que esperava. — Caio fala com muita admiração sobre sua visão para o futuro da arquitetura urbana.
Veronese pareceu surpreso. Ele beijou a mão dela e gesticulou para que se sentassem.
— Uma mulher que entende de negócios, Vilela? — Veronese comentou, servindo o vinho. — Isso é raro no nosso meio. Geralmente, as noivas dos CEOs estão mais preocupadas com a cor das flores do casamento do que com a visão urbana.
— Beatriz é... diferente — Caio respondeu, cobrindo a mão dela com a dele sobre a mesa. O toque foi possessivo, quente e enviou uma descarga elétrica pelo braço de Beatriz que quase a fez derrubar a taça. — Ela é minha bússola.
O jantar seguiu como uma dança coreografada. Caio conduzia a conversa sobre números e expansão imobiliária, enquanto Beatriz intervinha com comentários pontuais e inteligentes sobre a história dos bairros de São Paulo, algo que ela conhecia por vivência, mas que ali soava como erudição acadêmica. Veronese estava encantado. Ele via nela a sofisticação que faltava ao pragmatismo frio de Caio.
No entanto, a tensão sob a mesa era quase insuportável. Cada vez que Caio apertava sua mão para enfatizar um ponto, ou quando ele se inclinava para fingir um sussurro carinhoso no ouvido dela, Beatriz sentia a pele queimar. Era uma atuação, ela repetia para si mesma. Mas o modo como o hálito dele roçava seu pescoço parecia real demais.
— E sobre o novo projeto? — Veronese perguntou, limpando os lábios com o guardanapo de linho. — A revitalização da zona oeste. O projeto "Nova Era". Li que haverá uma limpeza profunda no terreno.
Caio endureceu imperceptivelmente.
— Sim. Vamos transformar aquela área degradada em um complexo de luxo. Shopping centers, torres residenciais de alto padrão. É o progresso inevitável.
— O senhor se refere à Vila Esperança? — Beatriz perguntou, a voz subitamente gélida. O nome do bairro saiu de seus lábios antes que ela pudesse conter.
Caio apertou os dedos dela com força, um sinal claro de advertência.
— Sim, querida — ele disse, com um sorriso tenso. — A área que discutimos. Onde o governo já deu o aval para a desapropriação.
— Desapropriação é uma palavra limpa para o que acontece lá, não acha? — Beatriz continuou, sentindo uma fúria surda borbulhar sob a seda preta. — Milhares de famílias moram naquele terreno há décadas.
Veronese arqueou uma sobrancelha, curioso com a súbita mudança de tom. Caio interveio rapidamente, sua voz ganhando uma autoridade cortante.
— Beatriz tem um coração muito generoso, Alberto. Ela se preocupa com o impacto social, o que é louvável. Por isso, estamos desenvolvendo planos de realocação... — ele olhou fixamente para ela, os olhos prometendo uma tempestade mais tarde — ... planos que ainda são confidenciais, não é, meu amor?
O jantar terminou com um aperto de mãos e a promessa de que o contrato seria assinado na manhã seguinte. Veronese saiu convencido de que Caio Vilela era o homem certo, equilibrado por uma mulher de fibra e consciência.
Assim que entraram no carro, o silêncio explodiu.
— O que foi aquilo? — Caio rugiu, desfazendo o nó da gravata borboleta com um gesto brusco. — Você quase jogou um ano de trabalho no lixo! "Desapropriação é uma palavra limpa"? Você enlouqueceu?
— A Vila Esperança é a minha casa, Caio! — Beatriz gritou de volta, as lágrimas de frustração finalmente vencendo a barreira dos cílios. — Minha mãe mora lá. Meus amigos moram lá. O seu "progresso inevitável" vai passar por cima do meu quarto, da cozinha da minha mãe, da padaria do Seu Zé!
Caio parou de falar. Ele a encarou, o peito subindo e descendo com a respiração pesada. A iluminação dos postes de luz passava rapidamente pelo rosto de Beatriz, revelando o rímel borrado e a dor genuína em seus olhos.
— Você mora lá? — ele perguntou, a voz subitamente baixa, quase inaudível.
— Eu disse que o senhor não sabia onde eu morava. O senhor apenas viu um endereço em uma ficha funcional. Para você, é um ponto no mapa. Para mim, é a minha vida.
Ela se virou para a janela, soluçando silenciosamente. O luxo do carro agora parecia sufocante, uma caixa de metal que a separava da realidade. Caio não disse mais nada. Ele se recostou no banco, olhando para o vazio, enquanto o motorista dirigia pelas ruas desertas da madrugada.
Quando o carro parou na entrada da Vila Esperança, o contraste era brutal. O sedã preto parecia um alienígena em meio ao lixo e à poeira. Beatriz abriu a porta antes que o motorista pudesse ajudá-la.
— O dinheiro será depositado na sua conta amanhã — Caio disse, sem olhar para ela. — Não precisa voltar ao escritório amanhã. Tire o dia de folga.
— Eu não quero o seu dinheiro para destruir a minha casa, Caio.
Ela saiu, batendo a porta. Caminhou pela rua escura, sentindo o salto alto afundar na terra batida, arrancando as pérolas do pescoço e sentindo cada uma delas cair no barro, perdidas para sempre.
O que ela não viu foi que, dentro do carro, Caio Vilela permaneceu imóvel por muito tempo, observando-a desaparecer na penumbra, sentindo pela primeira vez que o império que ele tanto lutava para construir tinha um cheiro de cinzas.
No dia seguinte, a foto dos dois no Terraço Itália estaria em todas as colunas sociais, sob o título: "O Novo Casal de Ouro da Vanguard". Mas, para Beatriz, o pesadelo estava apenas começando. Ao entrar em casa, ela viu sua mãe dormindo na poltrona, alheia ao fato de que o homem que sua filha acabara de beijar era o mesmo que assinaria a ordem de despejo de sua vida.
Beatriz sentou-se à mesa da cozinha, abriu a pasta de couro que trouxera escondida e encarou os mapas de demolição. A sabotagem não era mais uma opção; era uma necessidade de sobrevivência.







