Mundo de ficçãoIniciar sessãoEscolhida para herdar o trono de Galadi, Elyssia Aurelian jamais imaginou que a decisão de seu pai a transformaria em alvo dentro da própria família. A recusa do irmão mais velho em aceitar sua coroação acende conspirações perigosas que colocam sua vida em risco. Para protegê-la, o rei toma uma decisão extrema: enviá-la em segredo ao Império de Erendys, sob a tutela do imperador Ragnar, seu velho aliado. Para sobreviver, sua identidade precisa morrer. Elyssia passará a viver uma farsa cuidadosamente construída — ela será a noiva do príncipe herdeiro de Erendys, Rowan Kaelion. Frio, orgulhoso e conhecido tanto por sua posição quanto por sua habilidade como soldado, Rowan se recusa a ser usado como peça em um jogo político. Forçado pelo pai a escoltar a suposta noiva, o primeiro encontro entre eles é marcado por rejeição, atritos e desconfiança. Entre convivência forçada, provocações e alianças perigosas, a inimizade começa a dar lugar a sentimentos proibidos. Contudo, cada gesto de carinho nasce sobre uma mentira. E quando a verdade vier à tona, poderá destruir não apenas um reinado, mas também os dois corações envolvidos.
Ler maisImpério de Erendys, ano ???
A sala do imperador se encontrava em silêncio, como de costume, sendo rompido apenas pelo crepitar da lareira. O sol já havia há muito se posto, e o breu tomava conta do céu noturno. O silêncio confortável do recinto foi interrompido por três toques discretos à porta, barulho que tirou a atenção do imperador, que trabalhava até tarde naquela noite. — Entre! — ordenou Ragnar Kaelion, sua voz ressoando com autoridade, ainda que imbuída de calma. A porta abriu-se com discrição, revelando Frederick Asper, o fiel assistente e conselheiro de Ragnar. O homem adentrou o recinto, curvando-se com respeito diante do imperador. — Majestade — começou, a voz controlada, a fim de não quebrar a calmaria da sala. — Trago-lhe uma carta urgente do reino de Galadi. — Reino de Galadi? — repetiu Ragnar, estreitando os olhos ao ouvir o nome do território aliado. Ao receber o envelope, sua expressão adquiriu um traço de inquietação ao reconhecer o selo real estampado na cera dourada. — Agradeço-lhe. Pode retirar-se agora — disse com um gesto breve da mão, sem desviar o olhar do papel. O criado curvou-se uma última vez antes de sair silenciosamente, fechando a porta atrás de si com a mesma discrição com que a havia aberto. Ragnar permaneceu de pé, seus olhos fixos no envelope. Com dedos firmes, porém ansiosos, rompeu o selo. Ele desdobrou a carta e começou a ler, os olhos percorrendo as linhas com atenção: "Saudações, nobre imperador de Erendys, como tem sido sua estada nestes últimos meses? Não é hábito nosso ficarmos tanto tempo sem nos comunicarmos… A razão da minha carta é, de certo modo, familiar. Como você bem sabe, já escolhi quem será meu sucessor, ou melhor, minha sucessora; contudo, alguns eventos inesperados ocorreram em meu reino com meu primogênito, que se recusa a aceitar minha decisão. Preocupado com a segurança da minha filha, a futura rainha de Galadi, solicito a ajuda do Império de Erendys neste momento crítico. Em breve, Elyssia chegará no seu império. Espero poder contar com sua ajuda para que ela permaneça sob sua proteção até que a situação em meu reino se estabilize. Estou certo de que meu leal amigo não hesitará em acatar a este pedido. Naturalmente, a chegada dela e os detalhes de sua estadia devem ser mantidos em sigilo absoluto; peço que não confie a ninguém tal informação. Confio em sua habilidade para encontrar uma justificativa adequada para sua presença em vosso palácio, o que, sem dúvida, fortalecerá ainda mais os laços entre nossas nações. Serei eternamente grato. Do seu velho amigo, Aldrich Aurelian." Ao concluir a leitura, Ragnar permaneceu imóvel por um instante. Seus olhos, ainda voltados para a carta, refletiam o peso contido nas palavras escritas. A recordação de Aldrich Aurelian, o rei de Galadi, lhe veio à mente: um homem sábio, a quem não via desde a assinatura do tratado de paz que selou a aliança entre suas nações. Apesar da distância e da ausência física, ambos se mantinham em contato com certa frequência por meio de cartas, sustentando um elo de confiança mútua. Ragnar conhecia bem a jovem princesa, herdeira escolhida por Aldrich, de quem ele falava constantemente em suas cartas, e aprovava a decisão do rei. Ciente da delicadeza política e dos perigos que cercavam a sucessão em Galadi, não hesitou em reconhecer a importância do pedido e a necessidade de manter a princesa sob sua proteção. O imperador aproximou-se da lareira e, sem vacilar, lançou a carta entre as chamas. O papel, engolido pelo fogo, reduziu-se a cinzas rapidamente. Ragnar permaneceu diante do fogo por alguns minutos, absorto em pensamentos. Sua mente girava em torno de justificativas plausíveis para a presença da princesa no palácio, pois não poderia simplesmente abrigá-la sem levantar suspeitas entre as pessoas que ali moravam e os nobres que frequentavam o local; além disso, Aldrich foi claro em seu pedido de deixar tudo em sigilo de todos, e ele cumpriria o desejo do seu velho amigo. Decidido, ele ordenou discretamente alguns poucos empregados a fazerem os primeiros preparativos para receber a princesa. Ragnar pediu para que Frederick se limitassem a informar a corte acerca da chegada de uma visitante estrangeira, omitindo todos os detalhes quanto à identidade ou à finalidade de sua visita. Até que encontrasse um pretexto convincente, ele não daria muitos detalhes. __________________________ Seis dias depois, no Império de Erendys, as ruas da capital fervilhavam com uma energia contagiante. Bandeiras coloridas tremulavam e o burburinho dos cidadãos ressoava em meio à música dos artistas de rua, fundindo-se ao som de gargalhadas e dos passos apressados de crianças correndo por todas as partes. O aroma de especiarias, doces caramelizados e massas recém-assadas flutuava no ar. A cidade estava tomada pela animação de um evento local, atraindo habitantes de todas as classes sociais. Entre a multidão, ocultos por capas escuras com capuzes, dois viajantes caminhavam, uma encantada com a beleza daquele evento, o outro com passos calculados e olhos atentos. — Cuidado, princesa, a senhora não deve caminhar tão despreocupadamente assim! Pode ser arriscado — advertiu o escolta com voz baixa, mas firme, observando cada rosto ao redor com atenção. — Não se preocupe, Elliot. Ninguém aqui me conhece e estou coberta por essa capa com capuz; ninguém irá me notar — respondeu a jovem com um ar travesso no olhar, embora seu semblante permanecesse sereno. — Ainda assim, prin... — Evite me tratar com tanta formalidade, Elliot. Nessas terras estrangeiras, sou apenas uma pessoa qualquer. A forma como você me chama sim é o que pode atrair a atenção dos demais. O homem hesitou em responder, coçando a nuca com certo embaraço antes de soltar um breve riso, quase resignado. — Desculpe-me, senhorita. É força do hábito. Ambos continuaram a caminhar entre os habitantes, a jovem cada vez mais animada. _____________________ Enquanto isso, não muito distante: — Comandante, já me assegurei de que tudo está pacífico nesta área — informou Lucian, um oficial imperial. — Muito bem. Então deixaremos a vigilância local aos nossos colegas e voltaremos ao QG — respondeu o comandante, mas com o olhar ainda atento aos arredores. Os dois militares já se retiravam quando um grito cortou a harmonia daquele cenário. — Ladrão! Ladrão! Aquele jovem me roubou! — gritou um comerciante, sua voz embargada pela indignação. De imediato, o comandante virou-se em sua direção. Seus olhos estreitaram-se ao varrer a multidão. Nada de anormal parecia ocorrer até que o comerciante apontou, com precisão, na direção de uma figura encapuzada que se afastava rapidamente. — Ali, aquele garoto de capa escura! O comandante lançou apenas um olhar ao seu subordinado, que, captando a ordem silenciosa, correu em perseguição. Na tentativa de encurralar o suspeito, o próprio comandante contornou uma viela estreita, tomando um caminho alternativo. Ao alcançar a extremidade de um beco, ele se colocou no caminho do fugitivo como uma muralha. Sem demora, o comandante sacou sua espada com destreza e apontou a lâmina na altura da garganta do ladrão. O suspeito paralisou-se de imediato, vendo sua imagem refletida no aço bem polido da espada. Com um movimento preciso, o comandante moveu sua espada para a lateral do pescoço do suspeito, utilizando a lâmina para tirar o capuz que ocultava o rosto da figura diante de si, revelando, para surpresa dele, não um jovem rapaz, mas sim uma mulher com cabelos negros e lustrosos, com reflexos azulados sob a luz, caídos em ondas longas e sedosas. Seu rosto, de contornos nobres e delicadamente esculpidos, tinha uma expressão serena, contrariando a repentina situação. Os olhos da jovem, de um azul hipnótico e cintilante como safiras, e os cílios longos e densos que projetavam sombras sutis sobre sua pele de porcelana levemente corada, encararam o oficial à sua frente sem hesitar ou demonstrar qualquer emoção. — Que incomum... Não esperava que esse pequeno ladrão fosse, na verdade, uma dama… Muito menos esperava ver um ladrão com escolta — murmurou ao notar a presença de um homem que, a poucos passos, também empunhava sua espada em defesa da jovem, contra ele. — Abaixe sua espada — ordenou o comandante com frieza, seus olhos semicerrados avaliando o adversário.— Não há necessidade de explicar a relação dos dois, se essa for sua preocupação — interrompeu Elyssia, sua voz carregando uma nota de realismo. — Não é como se fosse uma surpresa, dado o comportamento da senhorita Morvane. E eu também não me importo se o príncipe tiver um caso com outra mulher — acrescentou, com franqueza.Olhando para ela com um olhar levemente pesaroso, Lucian lamentou. Pelo pouco que tinha conhecido a princesa, ele soube que ela era uma mulher digna e de bom coração. Ela não merecia se submeter a uma situação daquelas por alguém que não tinha mostrado qualquer interesse por ela.Diante do silêncio dele, Elyssia voltou-se em sua direção, os olhos firmes e atentos.— Espero poder confiar que você não irá comentar sobre isso com o príncipe… posso? — ela indagou, o rosto levemente suplicante.“— Pobre princesa, não quer passar pela humilhação de que aquele que a rejeita saiba que ela tem conhecimento sobre suas aventuras… É uma pena que ela tenha que
Após deixar a sala do imperador, Elyssia prosseguiu pelos amplos corredores, cujas colunas de mármore reluziam sob a luz dourada que atravessava as altas janelas envidraçadas. Ao seu lado caminhava Amélia, sua dama de companhia, que, com visível entusiasmo, lhe apresentava os encantos daquele vasto palácio.Enquanto conversavam, o som suave dos seus passos foi interrompido por uma silhueta que surgiu ao final do corredor. Tratava-se de Lucian Grael, que, ao avistá-la, inclinou-se levemente com uma reverência cortês.— É bom vê-la novamente, princesa.Elyssia deteve-se. Seus traços faciais franziram levemente assim que o viu.— Digo o mesmo, Sir Grael — respondeu com polidez, observando ao redor com discrição. — Encontra-se sozinho desta vez?— Sim. Rowan tinha um compromisso, então saiu antes de mim.— Oh, as aulas de equitação — disse ela, como quem resgata de súbito uma lembrança de pouca importância.— Então a senhorita já sabe? Que descortesia com a princesa, deixá-la sozinha em s
Estábulos do palácio imperial O aroma de feno recém-cortado misturava-se ao som dos cascos que batiam suavemente contra o piso de pedra. O dia estava perfeito para uma cavalgada.— Você possui um cavalo, não é verdade? — indagou Rowan, seus olhos a observando com notável atenção.— Sim, possuo — respondeu Merida com um aceno, deixando uma mecha rebelde cair sobre o rosto.Rowan, ignorando os olhares ao redor, aproximou-se de Merida e delicadamente deslizou seus dedos sobre a face dela, prendendo a mecha mais uma vez atrás de sua orelha.— Bem, então vamos buscá-lo — disse com um sorriso gentil.Ambos caminharam sozinhos pelo estábulo até onde estava o cavalo de Merida, então a ajudou a selar o animal. Na verdade, Rowan fez tudo sozinho, mantendo a concentração.— Está tudo bem? — Merida perguntou de repente.— Sim. Por que pergunta? — replicou, olhando-a com curiosidade.— Notei que está mais calado que de costume... e ainda se ofereceu para ensinar-me a montaria — ponderou ela, cruz
— Ah, perdoe-me pelo equívoco. Não sou irmão legítimo, apenas um irmão de consideração. A rigidez inicial no semblante da princesa suavizou-se, e um discreto sorriso lhe surgiu nos lábios, tornando seus traços ainda mais delicados. — Oh, compreendo — respondeu com gentileza. — Espero igualmente que possamos nos entender bem daqui por diante. É bom ter alguém amigável em terras desconhecidas. Rowan sentiu como se sua fala fosse uma farpada nele. Antes que o clima amistoso se estabelecesse por completo, o príncipe, cuja impaciência se tornava evidente no modo como cerrava levemente a mandíbula, cruzou os braços, interrompendo abruptamente a troca de gentilezas. — O que pretende aqui, senhorita? — indagou, com olhar penetrante. Elyssia voltou a encará-lo sem vacilar, mantendo sua altivez. — Vim encontrar o imperador, Alteza — respondeu com compostura, sustentando-lhe o olhar. — Não me refiro a este lugar — disse gesticulando o polegar para trás, apontando a sala do imperador —, ma
— Apenas sinto-me desconfortável em ser obrigado a me casar com alguém que não conheço. O senhor sabe que nunca apreciei casamentos de cunho político. Por um instante, o olhar de Ragnar perdeu parte do brilho e recaiu sobre o filho com maior seriedade; ele sabia o motivo por trás do desgosto de Rowan, mesmo que ele nunca o tenha dito claramente: a união dele com Cassandra. — Você sempre me assegurou estar disposto a sacrificar-se pelo bem do império — disse, voltando a suavizar sua expressão. — Por isso, confesso que não esperava que essa questão fosse causar tanta resistência… Pensei que você seria mais receptivo a notícia. — E estou disposto. Se desejar me mandar agora para o campo de batalha, morrerei com orgulho pela minha nação. Mas isso é bem diferente do campo de batalha... Esse é um sacrifício realmente necessário? — Rowan manteve-se calmo. Por breves segundos, Ragnar ficou em silêncio, como quem pondera não apenas sobre a pergunta, mas sobre o significado que ela carrega.
Na manhã seguinte, o sol sequer dava indício de sua aurora quando Rowan se levantou.Ele foi até as janelas e, com um gesto habitual, abriu as cortinas, revelando o céu ainda escuro e os jardins do palácio, que recebiam a luz suave das lanternas distribuídas por entre canteiros. O jardim exibia uma beleza serena e ordenada que jamais deixava de encantá-lo, independentemente da hora.Como era de seu costume, Rowan abriu a porta da varanda e saiu para o exterior, onde o ar fresco da manhã preenchia-lhe os pulmões. Ele permaneceu ali por alguns instantes, observando tudo ao seu redor. Nada parecia fora do lugar, exceto por aquele sentimento inquietante de desagrado, que, esperava ele, se dissiparia em breve.Retornando ao quarto, começou a vestir-se. Seus trajes, de estilo simples e funcional, eram os mesmos que costumava usar durante os compromissos militares, e ele os preferia justamente por dispensarem as formalidades dos elaborados trajes sociais e a assistência de criados. Rowan sem





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