1 - Verniz

 

     O cheiro de café queimado e óleo diesel era a trilha sonora olfativa das manhãs de Beatriz. Antes que o sol vencesse completamente a névoa que cobria os telhados de amianto da Vila Esperança, ela já estava de pé. O despertador de plástico desbotado sobre o criado-mudo marcava cinco e meia. Ela o silenciou com um toque suave, evitando que o ruído acordasse sua mãe, que ainda tossia no quarto ao lado após uma noite mal dormida.

    Beatriz levantou-se e sentiu o chão de cimento queimado frio contra a sola dos pés. O quarto era pequeno, mas impecável. Nas paredes, não havia quadros caros, apenas uma prateleira com livros de contabilidade e romances de banca com as capas gastas. Ela se aproximou da janela e afastou a cortina de renda. Lá fora, o bairro despertava. Vizinhos saíam para o ponto de ônibus, o padeiro abria a porta de ferro e o som do rádio de pilha de algum morador trazia as notícias do dia.

Aquele era o seu mundo. Um lugar de cores opacas, mas de laços sólidos. Ela olhou para as próprias mãos, ainda macias, e sentiu uma pontada de culpa. Enquanto o bairro lutava para sobreviver a cada inflação e plano econômico, ela passava os dias cercada por mármore e ar-condicionado.

"É por elas", sussurrou para si mesma, olhando para a foto da avó na penteadeira. "É para que a dona Helena não precise mais remendar o telhado toda vez que o céu escurece."

O ritual de transformação começava no banheiro apertado. Beatriz prendia o cabelo em um coque tão firme que seus olhos levemente amendoados pareciam mais puxados. Ela aplicava um batom cor de boca, vestia a saia lápis que comprara em uma liquidação no centro e calçava os sapatos que engraxava todas as noites. Ao sair de casa, o contraste era absoluto: a lama da rua sem asfalto ameaçava o verniz de seus sapatos, forçando-a a caminhar na ponta dos pés até o asfalto, como uma bailarina em um campo de guerra.

Duas conduções e uma hora e meia depois, Beatriz atravessava as portas de vidro da Vanguard Empreendimentos. O ar gelado e purificado do lobby parecia sugar a humanidade dela, substituindo-a por uma eficiência robótica.

— Bom dia, Beatriz — cumprimentou o segurança, que nunca lembrava o nome de mais ninguém, mas a respeitava pela pontualidade militar.

— Bom dia, Jorge. O jornal já subiu?

— Já está na mesa do "homem de gelo".

Beatriz subiu o elevador sentindo o estômago dar um nó. Naquela manhã, o escritório parecia mais silencioso que o normal. O episódio da noite anterior, a saída tempestuosa de Melissa e o pacto sussurrado sob a luz do crepúsculo, pairavam sobre as mesas como uma fumaça invisível.

Ela entrou na antessala e viu que a porta de Caio já estava aberta. Ele estava sentado atrás da mesa monumental, vestindo uma camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos. Ele não parecia ter dormido. Havia uma sombra de barba em seu rosto, algo que Beatriz nunca vira em três anos de serviço.

— Você veio — ele disse, sem levantar os olhos do relatório que analisava.

— Eu nunca faltei, Sr. Vilela.

Caio finalmente ergueu a cabeça. Seus olhos vasculharam o rosto de Beatriz, não como um chefe, mas como um comprador avaliando a qualidade de uma mercadoria. Ele se levantou e caminhou até ela, parando a uma distância que fazia Beatriz sentir o calor que emanava de seu corpo.

— O jantar é às vinte horas no Terraço Itália. Você não pode ir vestida assim. Não que esteja mal — ele fez um gesto vago para a saia dela —, mas Melissa usaria algo que custa mais do que este andar inteiro. Eu mandei entregar algumas caixas na sua casa de tarde. Um motorista vai te buscar às dezenove.

Beatriz sentiu o sangue subir para as bochechas. O tom pragmático dele a irritava tanto quanto a atraía.

— Minha casa? — ela perguntou, a voz falhando levemente. — O senhor não sabe onde eu moro.

— Eu sou o dono da empresa, Beatriz. Eu tenho sua ficha funcional. — Ele voltou para a mesa, encerrando o assunto. — Prepare os relatórios do zoneamento da Zona Sul. O Veronese vai querer saber sobre a viabilidade de demolição das áreas periféricas.

Ela sentiu um frio súbito na espinha. Demolição de áreas periféricas. A frase ecoou em sua mente como um trovão distante.

— Algum problema? — Caio perguntou, notando a hesitação dela.

— Nenhum, senhor. Vou preparar os documentos agora mesmo.

Beatriz caminhou até sua mesa, mas suas pernas pareciam de chumbo. Ela se sentou e olhou para a tela do computador, mas os números e letras pareciam borrados. O que ela estava fazendo? Ela estava prestes a entrar em um carro de luxo, vestir roupas de uma socialite e mentir para os homens mais poderosos da cidade. E para quê? Para salvar o homem que via o mundo como um tabuleiro de xadrez onde pessoas como os seus vizinhos eram apenas peões a serem removidos.

O telefone tocou, interrompendo seus pensamentos. Era a recepção avisando que um pacote urgente de uma loja da Oscar Freire havia chegado para ela. O jogo começara.

Ao meio-dia, ela saiu para um almoço rápido, mas não conseguiu comer. Caminhou pelas ruas do centro, sentindo-se uma fraude. Em cada vitrine, ela via o reflexo da secretária séria e contida, mas por dentro, uma tempestade de incerteza crescia. Ela pensou em desistir, em subir as escadas e dizer a Caio que ele poderia ficar com seu dinheiro.

Mas então, ela lembrou da conta de luz atrasada sobre a mesa da cozinha e da goteira que ameaçava o armário de mantimentos da mãe.

"Apenas quatro horas", ela repetiu para si mesma como um mantra. "Quatro horas de mentira por uma vida de verdade."

Ao retornar ao prédio, ela cruzou com Caio no corredor. Ele estava falando ao celular — um daqueles aparelhos imensos de 1995 — e gesticulava com impaciência. Ao passar por ela, ele parou por um segundo, colocou a mão no ombro dela e inclinou-se para sussurrar em seu ouvido:

— Não se atrase. Minha vida está nas suas mãos, Beatriz.

O toque dele foi breve, mas deixou uma marca de calor através do tecido de seu blazer. Ela ficou parada, observando-o se afastar. Havia um desespero camuflado na arrogância dele, uma vulnerabilidade que ela nunca tinha notado antes. E foi esse vislumbre de humanidade que a assustou mais do que qualquer ameaça de demissão.

O resto da tarde passou como um borrão de planilhas e telefonemas. Quando o relógio marcou cinco horas, ela saiu apressada. Precisava chegar em casa, esconder as caixas de luxo da curiosidade dos vizinhos e se transformar na mulher que Caio Vilela precisava que ela fosse.

Ao descer do ônibus na entrada da Vila Esperança, o contraste foi violento. O cheiro de esgoto aberto e o lixo acumulado na esquina pareciam gritar que ela não pertencia ao mundo do Terraço Itália. Ela caminhou rápido, segurando a bolsa junto ao corpo, sentindo-se uma espiã em seu próprio território.

— Bia! Chegou umas caixas grandes lá em casa! — gritou um vizinho, curioso.

— É trabalho, Seu Zé! Só trabalho! — ela respondeu, sem parar.

Ao entrar em casa, viu as caixas pretas com letras douradas sobre o sofá desbotado. Sua mãe, Helena, estava sentada na poltrona, olhando para o luxo com uma mistura de admiração e medo.

— O que é isso, minha filha? Quem mandou essas coisas de rainha?

Beatriz olhou para a mãe e sentiu um nó na garganta. Ela não podia contar a verdade. Não ainda.

— É um evento da empresa, mãe. Eu fui escolhida para representar os funcionários. Preciso estar bonita.

Helena sorriu, mas seus olhos permaneciam preocupados.

— Você já é bonita, Bia. Só espero que esse povo não esqueça que você tem um coração de ouro debaixo desses panos caros.

Beatriz abraçou a mãe, escondendo o rosto em seu ombro. Ela sentia o cheiro de sabão de coco e cansaço que sempre acompanhava Helena. Naquele momento, ela jurou que faria qualquer coisa para tirar a mãe daquela vida. Mesmo que isso significasse vender sua alma para o homem de gelo no 22º andar.

Ela abriu a primeira caixa. Um vestido de seda preta, tão macio que parecia líquido, deslizou entre seus dedos. Havia também um par de sapatos de salto alto e uma caixa menor com brincos de pérola que brilhavam sob a luz fraca da lâmpada da sala.

Beatriz começou a se vestir. A seda fria contra sua pele era um lembrete constante da farsa. Enquanto se maquiava diante do espelho trincado do banheiro, ela via sua antiga identidade desaparecer. A secretária invisível estava dando lugar a uma mulher de mistério e poder.

Às dezenove horas em ponto, o som de um motor potente ecoou pela rua estreita. As crianças pararam de jogar bola para observar o sedã preto e brilhante que manobrava entre os buracos. Beatriz respirou fundo, deu um beijo na testa da mãe e saiu.

Ao abrir a porta do carro, o motorista, de luvas brancas, fez uma reverência. Ela entrou, sentindo o cheiro de couro novo e o silêncio absoluto da cabine. Enquanto o carro se afastava da Vila Esperança, ela olhou pelo vidro traseiro e viu sua casa diminuir até sumir na escuridão.

Ela estava atravessando a linha. E, lá no fundo, ela sabia que não haveria caminho de volta.

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