4 - O Brinde

 

— Você não vai atender? — a pergunta de Beatriz foi um desafio lançado no ar carregado de ozônio da antessala.

O telefone sobre a mesa de carvalho de Caio continuava a tocar, um som insistente, metálico, que parecia marcar as batidas de um coração mecânico. Caio não desviou os olhos dela. Ele sentia a pulsação na ponta dos dedos, uma mistura de fúria e uma admiração involuntária que o desestabilizava.

— O Veronese não gosta de esperar — Caio respondeu, a voz mais rouca do que o normal. — E ele não perdoa hesitação. Se eu não atender, ele vai interpretar como fraqueza. E se ele sentir fraqueza, a Vanguard desmorona antes do pôr do sol.

— Então atenda — Beatriz deu um passo à frente, desafiando o espaço pessoal dele. O cheiro de sabão de coco da Vila Esperança colidindo com o perfume caro de Caio. — Atenda e diga que o projeto mudou. Diga que você descobriu que o solo da Vila Esperança é instável, que há lençóis freáticos protegidos. Invente uma mentira técnica, você é bom nisso. Salve a minha gente, Caio.

Caio soltou uma risada amarga, dando as costas para ela e caminhando até o aparelho que não parava de berrar.

— Você acha que o mundo funciona com base em bondade, Beatriz? Se eu desistir daquele terreno, outro grupo compra. A desapropriação vai acontecer com ou sem a minha assinatura. A diferença é que, comigo, eu posso garantir que ninguém saia de mãos vazias.

— Garantir? — ela rebateu, a voz subindo um tom. — Como você garantiu que eu seria uma "noiva" por apenas uma noite? Olhe para aquela banca de jornal lá embaixo! Minha vida virou um espetáculo de circo para alimentar os seus acionistas.

O telefone parou de tocar. O silêncio que se seguiu foi ainda mais pesado. Caio encarou o aparelho mudo, sentindo o peso da oportunidade perdida. Ele sabia que Alberto Veronese não ligaria uma segunda vez; ele esperaria que Caio o procurasse, em uma posição de submissão.

— Viu o que você fez? — Caio se virou, os olhos faiscando. — Você acabou de custar milhões à empresa.

— Eu custei dinheiro a você. Você está custando a alma para a minha mãe — Beatriz sentiu as lágrimas pinicarem, mas se recusou a deixá-las cair. Ela puxou uma pasta debaixo do braço. — Eu encontrei isto nos arquivos de 1978. A Vila Esperança foi declarada área de interesse social por um decreto que nunca foi revogado. Se eu levar isso para um promotor...

Caio atravessou a sala com três passos largos. Antes que Beatriz pudesse reagir, ele segurou a pasta, mas suas mãos acabaram se encontrando sobre o papel frio. O toque foi como um curto-circuito. Ele a prensou levemente contra o armário de arquivos, não com violência, mas com uma urgência desesperada.

— Por que você tem que ser tão teimosa? — ele sussurrou, o rosto a milímetros do dela. — Eu poderia te dar tudo, Beatriz. Eu poderia comprar uma casa para sua mãe em qualquer bairro nobre de São Paulo. Você nunca mais precisaria engraixar sapato ou pegar dois ônibus.

— Você não entende, não é? — Beatriz sentia o calor do corpo dele, a firmeza de seus braços a cercando. Era uma prisão de luxo. — Minha mãe não quer uma mansão no Morumbi. Ela quer o jardim onde plantou o pé de amora. Ela quer as vizinhas que sabem o nome dela. Você quer comprar o meu silêncio com o mesmo dinheiro que vai destruir as memórias dela.

Caio olhou para os lábios de Beatriz, que tremiam levemente. A raiva que ele sentia estava se transformando em outra coisa, algo que ele vinha tentando sufocar desde o jantar no Terraço Itália. Ele via a determinação nos olhos dela, uma pureza de propósito que ele havia perdido há muito tempo nas salas de reunião.

— Eu te odeio por me fazer sentir que eu sou o vilão dessa história — ele murmurou.

— Talvez você seja, Caio. Mas ainda dá tempo de mudar o roteiro.

O momento de tensão foi quebrado pelo som da porta principal se abrindo. Era o vice-presidente da empresa, um homem ambicioso chamado Ricardo, que entrou sem bater, segurando um exemplar da revista de fofocas Contigo.

— Caio! Você viu isso? A imprensa descobriu que sua "noiva" mora em um cortiço na periferia! Estão chamando de "Cinderela do Asfalto". Isso é um desastre de relações públicas ou a maior jogada de marketing do século!

Caio e Beatriz se afastaram bruscamente. Beatriz ajeitou a saia, sentindo o rosto queimar de vergonha. Ricardo olhou de um para o outro, notando o clima pesado na sala.

— Beatriz, querida, você está sendo procurada por três canais de TV — Ricardo continuou, com um sorriso predatório. — Caio, se jogarmos direito, podemos usar a origem dela para humanizar o projeto da Vila Esperança. "De moradora a primeira-dama do empreendimento". Veronese vai adorar o ângulo social!

Beatriz sentiu uma náusea profunda. Ela olhou para Caio, esperando que ele defendesse a dignidade dela, que ele repudiasse aquela ideia nojenta de usá-la como garota-propaganda da própria destruição de seu bairro.

Caio hesitou por um segundo longo demais. O cérebro corporativo dele, treinado para ver vantagens em crises, começou a processar a sugestão de Ricardo. Ele olhou para Beatriz, e o brilho de "homem de gelo" voltou aos seus olhos.

— Ricardo tem razão — Caio disse, a voz assumindo o tom frio de comando. — É a nossa melhor saída. Beatriz, vamos marcar uma entrevista. Você vai falar sobre como a Vanguard está trazendo dignidade para a área.

O tapa no rosto de Caio ecoou pela sala silenciosa.

Beatriz recuou, a mão ainda ardendo, os olhos cheios de um desprezo que cortou Caio mais do que qualquer queda na bolsa de valores.

— Eu não sou um ativo da sua empresa, Caio Vilela. E eu não sou sua Cinderela.

Ela saiu da sala, passando por um Ricardo chocado, e caminhou em direção ao elevador. Enquanto as portas se fechavam, ela viu Caio parado no meio da sala, a mão no rosto, parecendo, pela primeira vez na vida, completamente perdido.

A guerra agora tinha um rosto. E não era apenas o futuro de um bairro que estava em jogo, mas os fragmentos de um amor que começara a nascer no solo mais infértil possível.

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