Mundo ficciónIniciar sesiónHelena de Alencar está prestes a se tornar enfermeira quando uma acusação injusta destrói o pouco que resta de sua família. Para proteger o irmão e impedir que ambos acabem na miséria, ela aceita trabalhar na Fazenda Villagran, cuidando de Augusto Villagran, um homem rico, paraplégico e conhecido por sua crueldade. A convivência entre os dois começa com discussões, desconfiança e ressentimento. Augusto está convencido de que todos acabam abandonando aqueles que se tornam frágeis; Helena se recusa a se submeter aos caprichos de um homem acostumado a controlar tudo ao seu redor. Quando um acidente coloca o irmão de Helena em risco de ser preso, Augusto lhe oferece ajuda em troca de um casamento. Desesperada e acreditando que seu primeiro amor está morto, ela aceita. Entretanto, a chegada inesperada de Henrique à Fazenda Villagran reacende sentimentos que Helena julgava perdidos e ameaça revelar uma rede de mentiras, segredos familiares e antigas traições. Entre conflitos, armações e pequenos dramas do cotidiano, Helena e Augusto descobrirão que, às vezes, o amor nasce justamente no lugar onde ninguém esperava encontrar esperança.
Leer másHelena de Alencar aprendera cedo que uma casa podia deixar de ser um lar muito antes de perder as paredes.
A residência alugada dos Ferraz possuía duas salas estreitas, um quarto dividido por uma cortina desbotada e uma cozinha onde apenas uma pessoa conseguia trabalhar por vez. O telhado apresentava manchas escuras nos dias de chuva, as janelas não fechavam completamente e o corredor cheirava permanentemente a umidade.
Ainda assim, Helena tentava acreditar que aquele lugar lhes pertencia. Havia fotografias dos pais nas paredes, livros empilhados sobre a mesa e uma pequena samambaia junto à janela. Ela havia plantado a muda em um vaso rachado quando tinha dezessete anos. Gabriel costumava dizer que a planta sobreviveria a qualquer coisa, porque aprendera com eles.
Naquela manhã, porém, até a samambaia parecia cansada.
Helena fechou o zíper da bolsa e conferiu pela terceira vez os documentos que levaria para o hospital. Sua declaração de conclusão do curso de enfermagem estava dobrada dentro de uma pasta azul. Havia também sua carteira de identidade, uma caneta e um pequeno porta-retratos com a fotografia dos pais.
Tinha apenas seis anos quando os perdera, mas ainda se lembrava da voz da mãe cantando enquanto dobrava roupas e do modo como o pai batia duas vezes à porta antes de entrar em qualquer cômodo.
Depois da morte deles, Leonor assumira a responsabilidade pelos sobrinhos.
Era assim que a tia contava a história.
Assumira a responsabilidade.
Como se houvesse feito um favor que precisava ser lembrado diariamente.
— Você vai mesmo sair sem falar comigo? — perguntou Leonor.
A tia estava sentada à mesa da cozinha, envolta em um robe vinho já desbotado. Diante dela havia uma xícara de café intocada e três envelopes abertos.
— Eu avisei ontem que tinha uma entrevista no hospital.
— Entrevista — repetiu Leonor, com uma risada curta. — O aluguel está atrasado há dois meses, Gabriel está devendo o curso e eu preciso comprar meus remédios. Mas Helena vai fazer uma entrevista.
— É o primeiro emprego na minha área.
— Você sempre consegue alguma coisa. Um estágio, um plantão, uma promessa. O que nunca consegue é resolver os problemas de verdade.
Gabriel apareceu no corredor, ainda vestindo a camiseta com que dormira. Os cabelos estavam despenteados, e havia uma marca de travesseiro em seu rosto.
— Tia, não começa.
Leonor virou-se para ele.
— Não se meta.
— Você está falando com ela como se ela fosse culpada pelo aluguel.
— Se você não tivesse escolhido um curso caro, talvez eu não precisasse cobrar nada de ninguém.
Gabriel fechou as mãos.
— Eu vou pagar.
— Com quê?
Ele não respondeu.
Helena pegou a bolsa.
— Eu preciso ir.
Leonor ergueu um dos envelopes.
— Octávio esteve aqui ontem.
Helena parou.
— O que ele queria?
— O aluguel. Disse que, se não pagarmos até o fim da semana, vai nos colocar na rua.
— O prazo termina na sexta-feira.
— Para você, talvez. Para ele, terminou ontem.
Helena apertou a alça da bolsa.
— Ele falou alguma coisa sobre mim?
Leonor desviou o olhar.
O silêncio foi suficiente.
— Tia.
— Disse que você deveria ser mais grata.
— Grata pelo quê?
— Por ele permitir que continuemos aqui.
— Ele permite porque recebe aluguel.
— Você acha que o mundo funciona assim? — Leonor perguntou, levantando-se. — Eu cuidei de você. Cuidei de Gabriel. Abandonei a minha vida por vocês dois.
A culpa entrou na cozinha como uma presença conhecida.
Helena baixou os olhos.
— Eu sei.
— Não, você não sabe. Se soubesse, não sairia daqui todos os dias como se fosse a única pessoa com problemas.
Gabriel bateu a mão na mesa.
— Para com isso.
Leonor o encarou, ferida e satisfeita ao mesmo tempo.
— Um dia vocês vão me deixar sozinha, assim como todos os outros fizeram.
Helena conhecia aquela frase. Leonor a dizia sempre que queria impedir que os sobrinhos fossem embora, quando precisava de dinheiro ou quando percebia que eles começavam a construir uma vida própria.
— Eu volto depois da entrevista — disse Helena.
— Talvez não encontre mais esta casa.
— Eu volto.
Saiu antes que a tia pudesse responder.
O hospital ficava a quarenta minutos de ônibus. A entrevista foi educada, mas incerta. A enfermeira responsável pelo setor ouviu Helena, examinou seus documentos e prometeu que ligaria caso ela fosse selecionada.
Helena saiu sem saber se conseguira o emprego.
Na praça central, recebeu uma mensagem de Gabriel.
Não volte pela rua de trás. Octávio está esperando.
Ela atravessou a rua imediatamente.
Encontrou o irmão diante da casa, discutindo com Octávio Ferraz. O proprietário era um homem corpulento, de cabelos grisalhos ralos, bigode bem aparado e roupas mais caras do que a casa que alugava.
— Helena chegou — disse Octávio, sorrindo.
— O que o senhor está fazendo aqui?
— Cobrando o que é meu.
— O prazo termina na sexta-feira.
— Para você, talvez.
Ele se aproximou. Seu perfume era forte e adocicado.
— Talvez você possa me convencer a esperar.
Helena recuou um passo.
— Não tenho nada para conversar com o senhor.
— Não precisa ser tão hostil. Eu sempre gostei de ajudar sua família.
— O senhor recebe aluguel.
— Há várias formas de ajudar alguém.
O olhar dele percorreu o rosto de Helena com uma lentidão deliberada. Ela sentiu o estômago se contrair.
— Afaste-se.
Octávio soltou uma risada.
— Você se acha muito importante.
— Apenas não quero que se aproxime.
— Vai continuar falando assim quando estiver dormindo na rua?
Gabriel avançou, mas Helena segurou seu braço.
— Vamos embora.
Octávio abriu a porta.
— Se não pagarem até sexta-feira, trocarei a fechadura.
Naquela noite, a chuva voltou. Gabriel quase não falou durante o jantar. Leonor reclamou dos remédios, das dívidas e da falta de consideração dos sobrinhos. Helena tentou ignorá-la, mas o cansaço tornava cada palavra mais pesada.
Na manhã seguinte, encontrou três chamadas perdidas de um número desconhecido.
Ligou de volta.
— Senhorita Helena de Alencar? Meu nome é Rafael Montenegro. Sou advogado. Gostaria de conversar sobre uma proposta de trabalho.
— Que tipo de trabalho?
— Enfermagem domiciliar. Para o senhor Augusto Villagran.
— Onde fica?
— Na Fazenda Villagran, a duas horas daqui. O salário é superior ao oferecido pelo hospital.
Rafael informou o valor.
Helena sentiu o coração acelerar. Seria suficiente para pagar o aluguel, comprar os remédios de Leonor e ajudar Gabriel.
— Quando posso começar?
— O senhor Villagran deseja que compareça ainda hoje.
— Hoje é muito rápido.
— A urgência é do meu cliente.
Helena olhou para os envelopes sobre a mesa. Um deles trazia o nome de Octávio Ferraz. Outro era uma cobrança do curso de Gabriel.
— Vou comparecer.
— Mandarei um carro buscá-la ao meio-dia.
— Não preciso de carro. Posso ir sozinha.
Houve uma pausa.
— Senhorita Alencar, o trabalho exige disciplina, discrição e disponibilidade. O senhor Villagran não é um homem fácil.
Helena fechou a pasta azul.
— Eu também não sou.
Desligou.
Ao sair da cozinha, encontrou a porta da frente aberta.
A fechadura estava quebrada.
E, sobre o capacho molhado pela chuva, havia uma mala de Helena jogada na rua.
— Ele levou o nome verdadeiro de Helena!A voz de Amália desapareceu sob o estrondo da explosão.O chão se abriu entre eles, lançando poeira e pedaços de pedra pelo corredor. Helena caiu de joelhos, enquanto Augusto segurava as rodas da cadeira para não ser arrastado pela inclinação.— Helena! — Alexandre gritou.Ele tentou alcançá-la, mas Dário o segurou pelo braço.— Não avance!— Minha irmã está lá!— O chão ainda está cedendo!Do outro lado da abertura, Helena agarrou uma coluna rachada. Abaixo dela havia apenas escuridão e o brilho avermelhado das chamas.— Augusto! — ela chamou.— Estou aqui!Ele se aproximou o máximo que podia. Helena estendeu a mão, mas a distância era grande demais.Então Amália se deitou no chão e segurou o pulso da filha.— Não solte!— Eu não vou!Dário e Alexandre puxaram Amália para trás. Com esforço, conseguiram retirar Helena da borda pouco antes de outra parte do piso ruir.Helena caiu contra o peito de Amália.— O que ele levou? — perguntou, ofegante
Helena ergueu a certidão.— Celina Avelar.Celina ficou imóvel.Dário olhou para o documento e perdeu a cor.— Não pode ser.— Você conhece esse nome? — Helena perguntou.Ele não respondeu.A menina nos braços de Eduardo começou a chorar.Celina aproximou-se lentamente.— Dê-me a certidão.Helena entregou o papel.Celina reconheceu a própria caligrafia no canto inferior da página. Não era o nome da criança. Era uma anotação feita por ela, décadas antes, quando ainda acreditava que a filha estava morta.Celina Avelar — mãe.— Eu escrevi isso — sussurrou.Dário fechou os olhos.— O que significa? — Eduardo perguntou.Celina levantou o rosto.— Eu tive duas filhas.A sala pareceu silenciar, apesar do tremor que percorria o chão.— Antonella — continuou ela. — E outra menina.Antonella empalideceu.— Eu tinha uma irmã?— Você tinha.Dário encarou a menina nos braços de Eduardo.— Ela nasceu alguns minutos depois de você.Celina levou a mão à boca.— Disseram que ela não havia sobrevivido.
Eduardo não se moveu.A fotografia permanecia diante dele, presa à parede por um alfinete enferrujado. O menino sorria para a câmera, segurando uma pequena espada de madeira. Tinha os olhos escuros, o queixo delicado e a mesma marca acima da sobrancelha esquerda.A marca que Eduardo possuía.— Sou eu — disse.Afonso fechou os olhos.— Sim.Beatriz levou a mão ao peito.— Não…Eduardo virou-se para ela.— Você sabia?— Eu sabia que Artur havia levado você. Não sabia que Afonso tinha tirado essa fotografia.— Então todos sabiam alguma coisa.Sua voz não era alta. Era pior assim.— Todos sabiam menos eu.Afonso aproximou-se do retrato.— Você foi levado para a Fazenda Villagran quando tinha três anos.— Por quê?— Porque Dário havia desaparecido. Artur dizia que você era filho de ninguém. Um menino sem nome.Dário deu um passo à frente.— Ele era meu filho.— Eu sei.— Então por que permitiu que Artur o levasse?Afonso apertou os lábios.— Porque Artur ameaçou matar Beatriz.Eduardo olho
O nome permaneceu sobre o papel como uma sentença.Afonso Villagran.Antonella olhou para o pai.— Você assinou o primeiro testamento?Afonso não respondeu.A chuva batia no telhado da construção, mas nenhum som parecia capaz de atravessar o silêncio entre eles.— Pai?Afonso fechou os olhos.— Assinei.Antonella recuou.— Então Artur estava dizendo a verdade.— Não completamente.— Você assinou o documento que tirou Alexandre da própria família.— Eu assinei um documento que acreditava ser provisório.Alexandre apanhou a folha do chão.— Provisório?— Artur me disse que você havia morrido.— E você acreditou?— Eu vi o incêndio. Vi a casa ruir. Vi homens retirando corpos.— Mas não viu o meu.— Não.— Mesmo assim, assinou.Afonso abaixou a cabeça.— Eu estava tentando impedir que Artur assumisse tudo.Dário soltou uma risada amarga.— E entregou a ele exatamente o que queria.— O documento não dava a Fazenda a Artur. Dava a administração temporária ao conselho da família até que o he





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