Mundo ficciónIniciar sesiónHelena quase não dormiu.
Passou a noite sentada junto à janela, olhando a chuva cair sobre os campos escuros. Sempre que fechava os olhos, imaginava Gabriel dentro da van, sozinho na estrada, ouvindo o som dos freios que não funcionavam.
Às seis da manhã, Rafael chegou à Fazenda Villagran.
— Está pronta? — perguntou.
Helena pegou a bolsa.
— Há notícias da mulher?
— Continua internada. O estado é grave, mas estável.
— E Gabriel?
— Foi liberado do hospital sob custódia. Está na delegacia.
Helena entrou no carro sem dizer mais nada.
A viagem até a cidade foi silenciosa. Rafael dirigia com atenção, enquanto Helena segurava o cartão do hospital entre os dedos.
— A senhora precisa entender a situação — disse ele. — Gabriel pode ser responsabilizado por conduzir um veículo sem autorização e por negligência.
— Os freios falharam.
— Isso ainda precisa ser comprovado.
— O proprietário da van sabia que ela estava com problemas?
— Sérgio desapareceu.
Helena virou-se para ele.
— Desapareceu?
— Não atende ao telefone e fechou o depósito.
Ela apertou a bolsa contra o corpo.
— Então ele deixou Gabriel sozinho.
— Sim.
— E meu irmão vai pagar por tudo?
— Se não encontrarmos provas de que o veículo estava irregular, é possível.
O hospital estava movimentado. Pessoas aguardavam junto à recepção, enfermeiros atravessavam os corredores e o cheiro de desinfetante fazia Helena lembrar-se do período em que ainda era estudante.
Uma mulher de cabelos curtos e cacheados aproximou-se carregando uma prancheta.
— Helena?
Ela reconheceu Sofia Duarte.
— Você trabalha aqui.
— Trabalho. O que aconteceu?
— Meu irmão está envolvido no acidente de ontem.
Sofia ficou séria.
— Gabriel de Alencar?
Helena assentiu.
— A mulher ferida está na unidade de emergência. Ainda não sabemos se precisará de cirurgia.
— Posso vê-la?
— Apenas por alguns minutos. Mas você precisa entender que ela está sedada.
Sofia conduziu Helena até uma sala isolada. A mulher estava deitada, ligada a aparelhos. Tinha o rosto pálido e os cabelos presos junto à cabeça. Helena parou junto à porta.
Não conhecia aquela mulher.
Mesmo assim, sentiu a culpa como se o acidente tivesse acontecido pelas próprias mãos.
— Ela se chama Teresa Amaral — explicou Sofia. — Estava no banco do passageiro. O marido sofreu ferimentos leves.
— Ela vai sobreviver?
— Estamos fazendo tudo o que podemos.
Helena observou os monitores.
— Posso ajudar?
Sofia olhou para ela.
— Você está aqui como irmã do motorista.
— Também sou enfermeira.
— Então sabe que, às vezes, ajudar é sair da frente para que a equipe trabalhe.
Helena assentiu.
No corredor, encontrou Henrique.
Ele vestia uma camisa de trabalho e segurava um capacete. Ao vê-la, parou.
— O que aconteceu?
— Meu irmão esteve no acidente.
Henrique olhou para Sofia.
— A mulher é Teresa Amaral?
Sofia confirmou.
— Ele a conhece? — perguntou Helena.
— O marido dela trabalha em uma empresa de engenharia que contratou Henrique — explicou Sofia. — Eles estavam indo para uma obra.
Henrique aproximou-se.
— Sinto muito.
— Não foi por imprudência. Os freios falharam.
— Eu não perguntei isso.
Helena percebeu a dureza de sua resposta.
— Desculpe.
— Você não precisa se desculpar comigo.
Os olhos dele percorreram o rosto dela.
— Você está bem?
— Não.
Henrique pareceu não saber o que dizer. Pela primeira vez, sua segurança desapareceu.
— Posso fazer alguma coisa?
— Não sei.
— Então, quando souber, diga.
Sofia chamou o irmão para uma conversa. Antes de sair, Henrique entregou a Helena um copo de café.
— Você precisa beber alguma coisa.
Ela olhou para o copo.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer por tudo.
— É um hábito.
— Talvez devesse perdê-lo.
Henrique afastou-se.
Helena tomou um pequeno gole. O café estava amargo, mas quente.
Pouco depois, Rafael a encontrou na recepção.
— O delegado autorizou a visita de Gabriel.
A delegacia ficava a poucas ruas do hospital. Gabriel estava sentado em uma sala estreita, com um curativo na testa e o rosto pálido.
Quando viu Helena, levantou-se.
— Você veio.
— É claro que vim.
Ele tentou sorrir, mas não conseguiu.
— Eu não sabia que a van estava daquele jeito.
— Eu acredito.
— A mulher pode morrer.
Helena sentou-se diante dele.
— Ainda não morreu.
— Mas pode.
— Gabriel, olhe para mim.
Ele obedeceu.
— Você não fez isso de propósito.
— Isso não muda o que aconteceu.
— Não. Mas muda quem você é.
Gabriel passou as mãos pelo rosto.
— Eu só queria ajudar.
— Eu sei.
— Você já faz tudo. Eu queria fazer alguma coisa.
Helena segurou a mão dele.
— Você precisa aprender a pedir ajuda antes de transformar uma tentativa de ajudar em outra tragédia.
A porta se abriu. Rafael entrou acompanhado de um homem que Helena conhecia apenas pela voz.
Augusto Villagran.
Ele usava um casaco escuro e estava sentado na cadeira de rodas. A presença dele parecia deslocada naquele ambiente estreito, mas sua expressão continuava impassível.
Helena levantou-se.
— O que está fazendo aqui?
— Rafael me informou que a situação exigia uma decisão rápida.
— Eu não pedi que viesse.
— Eu sei.
Augusto olhou para Gabriel.
— Você é o irmão.
Gabriel ficou rígido.
— Sou.
— O advogado contratado por Rafael cuidará do caso. A perícia examinará o veículo e tentará localizar o proprietário.
Helena sentiu um alívio imediato, seguido de desconfiança.
— Quanto isso vai custar?
Augusto voltou os olhos para ela.
— Muito.
— Não posso pagar.
— Eu sei.
— Então por que está oferecendo?
— Porque sua dívida comigo ainda não existe.
A frase fez o alívio desaparecer.
— Sempre existe uma dívida quando alguém como o senhor ajuda.
Augusto aproximou-se.
— Talvez.
Rafael interveio:
— Augusto, não é o momento.
— O momento é exatamente este.
Helena não desviou o olhar.
— O que quer?
Augusto permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu:
— Quero que volte para a Fazenda Villagran e faça exatamente o trabalho para o qual foi contratada.
— Isso é tudo?
— Por enquanto.
Helena olhou para Gabriel. O irmão parecia assustado demais para compreender a conversa.
Ela sabia que aquele não era um favor.
Era o início de uma negociação.
E, embora ainda não soubesse qual seria o preço, já começava a temer que ele fosse alto demais.







