8

Helena quase não dormiu.

Passou a noite sentada junto à janela, olhando a chuva cair sobre os campos escuros. Sempre que fechava os olhos, imaginava Gabriel dentro da van, sozinho na estrada, ouvindo o som dos freios que não funcionavam.

Às seis da manhã, Rafael chegou à Fazenda Villagran.

— Está pronta? — perguntou.

Helena pegou a bolsa.

— Há notícias da mulher?

— Continua internada. O estado é grave, mas estável.

— E Gabriel?

— Foi liberado do hospital sob custódia. Está na delegacia.

Helena entrou no carro sem dizer mais nada.

A viagem até a cidade foi silenciosa. Rafael dirigia com atenção, enquanto Helena segurava o cartão do hospital entre os dedos.

— A senhora precisa entender a situação — disse ele. — Gabriel pode ser responsabilizado por conduzir um veículo sem autorização e por negligência.

— Os freios falharam.

— Isso ainda precisa ser comprovado.

— O proprietário da van sabia que ela estava com problemas?

— Sérgio desapareceu.

Helena virou-se para ele.

— Desapareceu?

— Não atende ao telefone e fechou o depósito.

Ela apertou a bolsa contra o corpo.

— Então ele deixou Gabriel sozinho.

— Sim.

— E meu irmão vai pagar por tudo?

— Se não encontrarmos provas de que o veículo estava irregular, é possível.

O hospital estava movimentado. Pessoas aguardavam junto à recepção, enfermeiros atravessavam os corredores e o cheiro de desinfetante fazia Helena lembrar-se do período em que ainda era estudante.

Uma mulher de cabelos curtos e cacheados aproximou-se carregando uma prancheta.

— Helena?

Ela reconheceu Sofia Duarte.

— Você trabalha aqui.

— Trabalho. O que aconteceu?

— Meu irmão está envolvido no acidente de ontem.

Sofia ficou séria.

— Gabriel de Alencar?

Helena assentiu.

— A mulher ferida está na unidade de emergência. Ainda não sabemos se precisará de cirurgia.

— Posso vê-la?

— Apenas por alguns minutos. Mas você precisa entender que ela está sedada.

Sofia conduziu Helena até uma sala isolada. A mulher estava deitada, ligada a aparelhos. Tinha o rosto pálido e os cabelos presos junto à cabeça. Helena parou junto à porta.

Não conhecia aquela mulher.

Mesmo assim, sentiu a culpa como se o acidente tivesse acontecido pelas próprias mãos.

— Ela se chama Teresa Amaral — explicou Sofia. — Estava no banco do passageiro. O marido sofreu ferimentos leves.

— Ela vai sobreviver?

— Estamos fazendo tudo o que podemos.

Helena observou os monitores.

— Posso ajudar?

Sofia olhou para ela.

— Você está aqui como irmã do motorista.

— Também sou enfermeira.

— Então sabe que, às vezes, ajudar é sair da frente para que a equipe trabalhe.

Helena assentiu.

No corredor, encontrou Henrique.

Ele vestia uma camisa de trabalho e segurava um capacete. Ao vê-la, parou.

— O que aconteceu?

— Meu irmão esteve no acidente.

Henrique olhou para Sofia.

— A mulher é Teresa Amaral?

Sofia confirmou.

— Ele a conhece? — perguntou Helena.

— O marido dela trabalha em uma empresa de engenharia que contratou Henrique — explicou Sofia. — Eles estavam indo para uma obra.

Henrique aproximou-se.

— Sinto muito.

— Não foi por imprudência. Os freios falharam.

— Eu não perguntei isso.

Helena percebeu a dureza de sua resposta.

— Desculpe.

— Você não precisa se desculpar comigo.

Os olhos dele percorreram o rosto dela.

— Você está bem?

— Não.

Henrique pareceu não saber o que dizer. Pela primeira vez, sua segurança desapareceu.

— Posso fazer alguma coisa?

— Não sei.

— Então, quando souber, diga.

Sofia chamou o irmão para uma conversa. Antes de sair, Henrique entregou a Helena um copo de café.

— Você precisa beber alguma coisa.

Ela olhou para o copo.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer por tudo.

— É um hábito.

— Talvez devesse perdê-lo.

Henrique afastou-se.

Helena tomou um pequeno gole. O café estava amargo, mas quente.

Pouco depois, Rafael a encontrou na recepção.

— O delegado autorizou a visita de Gabriel.

A delegacia ficava a poucas ruas do hospital. Gabriel estava sentado em uma sala estreita, com um curativo na testa e o rosto pálido.

Quando viu Helena, levantou-se.

— Você veio.

— É claro que vim.

Ele tentou sorrir, mas não conseguiu.

— Eu não sabia que a van estava daquele jeito.

— Eu acredito.

— A mulher pode morrer.

Helena sentou-se diante dele.

— Ainda não morreu.

— Mas pode.

— Gabriel, olhe para mim.

Ele obedeceu.

— Você não fez isso de propósito.

— Isso não muda o que aconteceu.

— Não. Mas muda quem você é.

Gabriel passou as mãos pelo rosto.

— Eu só queria ajudar.

— Eu sei.

— Você já faz tudo. Eu queria fazer alguma coisa.

Helena segurou a mão dele.

— Você precisa aprender a pedir ajuda antes de transformar uma tentativa de ajudar em outra tragédia.

A porta se abriu. Rafael entrou acompanhado de um homem que Helena conhecia apenas pela voz.

Augusto Villagran.

Ele usava um casaco escuro e estava sentado na cadeira de rodas. A presença dele parecia deslocada naquele ambiente estreito, mas sua expressão continuava impassível.

Helena levantou-se.

— O que está fazendo aqui?

— Rafael me informou que a situação exigia uma decisão rápida.

— Eu não pedi que viesse.

— Eu sei.

Augusto olhou para Gabriel.

— Você é o irmão.

Gabriel ficou rígido.

— Sou.

— O advogado contratado por Rafael cuidará do caso. A perícia examinará o veículo e tentará localizar o proprietário.

Helena sentiu um alívio imediato, seguido de desconfiança.

— Quanto isso vai custar?

Augusto voltou os olhos para ela.

— Muito.

— Não posso pagar.

— Eu sei.

— Então por que está oferecendo?

— Porque sua dívida comigo ainda não existe.

A frase fez o alívio desaparecer.

— Sempre existe uma dívida quando alguém como o senhor ajuda.

Augusto aproximou-se.

— Talvez.

Rafael interveio:

— Augusto, não é o momento.

— O momento é exatamente este.

Helena não desviou o olhar.

— O que quer?

Augusto permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu:

— Quero que volte para a Fazenda Villagran e faça exatamente o trabalho para o qual foi contratada.

— Isso é tudo?

— Por enquanto.

Helena olhou para Gabriel. O irmão parecia assustado demais para compreender a conversa.

Ela sabia que aquele não era um favor.

Era o início de uma negociação.

E, embora ainda não soubesse qual seria o preço, já começava a temer que ele fosse alto demais.

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