Mundo ficciónIniciar sesiónA sessão de fisioterapia terminou depois de dez minutos, como Augusto havia exigido.
Ele não demonstrou dor. Também não demonstrou satisfação. Permaneceu imóvel enquanto Marta guiava os exercícios, com o rosto voltado para a janela e as mãos fechadas sobre os braços da cadeira.
Helena observava tudo com atenção. Augusto conhecia os próprios limites, mas parecia determinado a ultrapassá-los sempre que alguém tentava ajudá-lo.
— Amanhã serão quinze minutos — disse Marta, guardando os equipamentos.
— Não.
— Quinze — repetiu Helena.
Augusto lançou-lhe um olhar irritado.
— Você não decide minha rotina.
— A senhora Marta também não teria vindo até aqui se sua opinião não fosse necessária.
— Está dispensada.
Marta não pareceu ofendida. Apenas pegou a bolsa.
— Ele faz isso todos os dias — comentou com Helena. — Amanhã voltarei às oito.
Quando a fisioterapeuta saiu, Augusto virou-se para Helena.
— Não quero que discuta com as pessoas em meu nome.
— Não discuti. Apenas impedi que o senhor abandonasse o tratamento antes do horário.
— Eu não abandonei.
— Negociou para fazer menos.
— Isso não é da sua conta.
— Enquanto eu for responsável por sua rotina, é.
Augusto avançou com a cadeira até a mesa lateral.
— Minha rotina pertence a mim.
— Então o senhor deveria ser capaz de cumpri-la sem contratar uma enfermeira.
A frase produziu um silêncio imediato.
Helena percebeu que havia ultrapassado um limite, mas não se desculpou. Augusto a encarava com uma expressão tão fria que parecia ter fechado todas as portas da sala.
— Saia — ordenou.
— Ainda preciso verificar seus medicamentos.
— Saia.
— Não.
Ele apertou os lábios.
— Você foi contratada ontem.
— E o senhor já está tentando me despedir hoje.
— Talvez eu devesse.
— Talvez devesse tomar o remédio das dez antes de decidir.
Augusto desviou o olhar.
Sobre a mesa havia um copo de água e uma cartela de comprimidos. Helena verificou a prescrição e depois o relógio.
— O senhor não tomou.
— Não senti necessidade.
— A medicação não é tomada apenas quando sente necessidade.
— Conheço meu corpo.
— Conhecer o próprio corpo não significa ignorar um tratamento prescrito.
— Você fala como se eu fosse uma criança.
— Falo como uma profissional que não pretende permitir que o paciente transforme a própria irritação em negligência.
Augusto permaneceu em silêncio. Depois pegou o comprimido e o colocou na boca.
Helena lhe entregou o copo.
— Obrigada — disse ela.
Ele bebeu a água sem responder.
O restante da manhã foi ocupado por tarefas simples. Helena organizou os horários dos remédios, verificou os equipamentos da sala e anotou as necessidades de Augusto. Descobriu que ele não gostava de ajuda durante as refeições, detestava música e preferia trabalhar com as janelas abertas, mesmo quando fazia frio.
Também descobriu que recusava quase todas as perguntas.
Ao meio-dia, Amália serviu o almoço na varanda. Davi estava sentado ao lado de Clara, tentando esconder um pedaço de pão dentro do bolso.
— Não faça isso — disse Clara.
— Não estou fazendo nada.
— O pão está aparecendo.
Davi olhou para Helena, como se esperasse que ela o defendesse.
— Talvez ele esteja guardando para mais tarde.
— Ele sempre guarda para mais tarde — explicou Amália. — E depois esquece onde colocou.
— Uma vez eu encontrei dentro do sapato — disse Bento, entrando com um prato nas mãos.
Clara riu. Davi pareceu ofendido.
Por alguns minutos, a refeição transcorreu com normalidade. Helena quase se esqueceu de que estava em uma casa onde cada pessoa parecia esconder alguma coisa.
Cecília chegou atrasada e sentou-se ao lado de Augusto.
— Você não vai à cidade hoje?
— Não.
— Preciso que assine alguns documentos.
— Deixe com Rafael.
— Rafael não pode assinar por você.
— Então espere.
Cecília colocou os talheres sobre a mesa com força.
— Estou esperando há três anos.
Augusto continuou comendo.
— Já discutimos isso.
— Não. Você decidiu e encerrou a discussão.
— A fazenda ainda não foi dividida.
— A fazenda não é apenas sua.
Helena percebeu que Bento havia parado de comer. Clara abaixou os olhos. Amália continuou servindo a comida como se a discussão fosse uma parte habitual das refeições.
— Sua herança será entregue quando houver segurança para isso — disse Augusto.
— Segurança para quem?
— Para todos.
Cecília riu sem humor.
— Você sempre encontra uma maneira de transformar prisão em proteção.
Augusto a encarou.
— Tenha cuidado.
— Não. Quem deveria ter cuidado é você. Um dia todos vão cansar de obedecer.
Ela se levantou e saiu da varanda.
Helena permaneceu quieta, mas a frase ficou em sua mente.
À tarde, Rafael ligou.
— Como está o trabalho? — perguntou.
— Meu paciente é difícil.
— Isso eu poderia ter lhe dito.
— E o caso de Gabriel?
A voz do advogado ficou mais séria.
— Octávio apresentou uma testemunha.
— Que testemunha?
— Um homem que afirma ter ouvido a senhora ameaçá-lo.
Helena fechou os olhos.
— Isso é mentira.
— Eu sei. Mas a polícia precisa considerar todas as versões.
— Gabriel está bem?
— Está com sua tia. Por enquanto.
— Por enquanto?
— Se o delegado entender que houve intenção de agressão grave, ele poderá responder em liberdade, mas o processo será aberto.
Helena sentiu a garganta apertar.
— Eu não posso voltar agora.
— Não recomendo que volte sozinha.
— Ele vai destruir minha família.
— Octávio já começou.
A ligação terminou pouco depois.
Helena permaneceu na varanda, olhando os campos úmidos. Ao longe, Bento conduzia alguns cavalos para o estábulo. Clara o acompanhava, carregando uma cesta. Davi brincava perto do jardim, sob a vigilância de Amália.
— Você pode pedir ajuda — disse Augusto atrás dela.
Helena virou-se. Ele estava parado junto à porta.
— Não preciso.
— Precisa de um advogado.
— Já tenho um.
— Precisa de dinheiro para pagar esse advogado.
— Não quero seu dinheiro.
— Não ofereci por bondade.
— Então por quê?
Augusto aproximou-se alguns centímetros.
— Porque preciso que você permaneça trabalhando aqui sem distrações.
Helena cruzou os braços.
— Meu irmão não é uma distração.
— Para você, não. Para o caso, pode ser.
— Não aceitarei que use minha família para me prender.
— Você aceitou o emprego porque não tinha escolha.
A verdade doeu.
Augusto percebeu, mas não recuou.
— Isso não significa que possa me tratar como propriedade.
— Ainda não pedi isso.
— Mas está pensando.
Ele sustentou o olhar dela.
— Eu penso em muitas coisas, senhorita Alencar. Poucas delas são da sua conta.
Augusto afastou-se, deixando Helena sozinha na varanda.
No céu, a chuva começava novamente.
E, pela primeira vez, Helena percebeu que talvez a Fazenda Villagran não fosse apenas um lugar para onde fugira.
Talvez fosse outro tipo de prisão.







