7

Gabriel não gostava de esperar.

Desde que Helena partira para a Fazenda Villagran, ele passara a caminhar pela cidade com a sensação de que todos sabiam que sua irmã havia precisado abandonar a própria casa para sustentar a família. Evitava os conhecidos, não atendia às mensagens dos colegas do curso e recusava qualquer pergunta sobre o que faria dali em diante.

Naquela manhã, porém, aceitou uma proposta.

O homem chamava-se Sérgio e trabalhava com entregas para uma empresa de materiais de construção. Precisava de alguém que levasse uma pequena carga até um sítio nos arredores da cidade.

— É só uma viagem — disse Sérgio. — Você entrega e volta.

— Não tenho experiência com caminhão.

— Não é caminhão. É uma van.

Gabriel olhou para o veículo estacionado junto ao depósito. Era antigo, branco e coberto de marcas de ferrugem.

— E a documentação?

— Está tudo certo.

Gabriel não acreditou completamente, mas precisava do dinheiro.

— Quanto?

Sérgio informou o valor. Era suficiente para pagar parte da dívida do curso e comprar os remédios de Leonor.

— Eu faço.

— Sabia que podia contar com você.

Gabriel recebeu a chave e entrou na van.

O motor demorou a pegar. Quando finalmente funcionou, soltou uma nuvem escura pelo escapamento. Gabriel sentiu o estômago se contrair, mas Sérgio já estava ocupado descarregando caixas.

— Se ouvir algum barulho estranho, pare — gritou.

— Isso não deveria ser dito antes de eu sair?

Sérgio riu.

Gabriel partiu.

Durante os primeiros quilômetros, tudo correu bem. A estrada estava movimentada, mas o veículo respondia aos comandos. Ele manteve as duas mãos no volante e dirigiu devagar.

Pensou em Helena.

Ela provavelmente já estava na fazenda. Talvez Augusto tivesse sido tão insuportável quanto imaginavam. Gabriel sentia culpa por deixá-la cuidar de tudo, mas também queria provar que não era inútil.

Quando entrou na estrada rural, começou a chover.

A pista ficou escorregadia. Gabriel reduziu a velocidade, mas a van começou a vibrar. Ele tentou frear antes de uma curva e sentiu o pedal afundar sem resistência.

— Não…

Pisou novamente.

Nada.

À frente, um carro pequeno surgia na direção contrária. Gabriel puxou o volante para o acostamento, mas a van não respondeu imediatamente. A traseira deslizou, e as caixas se deslocaram dentro do compartimento.

Ele apertou o freio de mão.

A van girou parcialmente.

O outro motorista tentou desviar. Houve o som de uma buzina, depois o impacto.

Gabriel bateu a cabeça contra o volante. Por alguns segundos, não ouviu nada além de um zumbido intenso. Quando levantou o rosto, viu o outro carro atravessado na pista e uma mulher imóvel junto ao banco do passageiro.

— Meu Deus.

Tentou abrir a porta, mas ela estava presa. Empurrou com força até conseguir sair. A chuva misturava-se ao sangue que escorria de sua testa.

— Alguém chame uma ambulância! — gritou.

Pessoas começaram a sair de uma casa próxima. Um homem correu até o carro atingido. A mulher no banco do passageiro respirava com dificuldade. O motorista estava consciente, mas preso pelo cinto.

Gabriel ajoelhou-se junto à janela.

— Não se mexa. A ambulância está vindo.

— Você estava dirigindo? — perguntou alguém atrás dele.

Gabriel não respondeu.

Quando a polícia chegou, a primeira pergunta foi repetida.

— O senhor estava dirigindo a van?

— Estava.

— O veículo é seu?

— Não.

— Possui autorização para conduzi-lo?

Gabriel abriu a boca, mas não conseguiu responder imediatamente.

O policial anotou alguma coisa.

A mulher ferida foi retirada do carro e levada às pressas para o hospital. O motorista teve apenas ferimentos leves, mas não parava de acusar Gabriel.

— Ele entrou na curva rápido demais!

— Eu estava devagar — disse Gabriel.

— Você destruiu minha família!

A frase fez Gabriel recuar.

No fim da tarde, Helena estava na sala de leitura organizando os horários de Augusto quando Rafael telefonou.

— Senhorita Alencar, preciso que mantenha a calma.

Ela se levantou.

— O que aconteceu?

— É sobre Gabriel.

O corpo inteiro de Helena ficou tenso.

— Ele está ferido?

— Tem alguns cortes e uma pancada na cabeça. Está consciente.

— Então o que houve?

Rafael hesitou.

— Gabriel estava dirigindo uma van que se envolveu em um acidente grave. Uma mulher está internada em estado delicado.

Helena sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

— Foi culpa dele?

— A van apresentou problemas nos freios, segundo o próprio Gabriel. Mas o veículo não estava devidamente registrado e ele não possuía autorização para conduzi-lo.

— Ele será preso?

— Ainda não sei. Mas há uma investigação aberta.

Helena apertou o telefone.

— Eu preciso ir para a cidade.

— Recomendo que não vá sozinha.

— Preciso ver meu irmão.

— Já estou cuidando disso.

— Rafael, eu preciso—

— O senhor Villagran pode ajudar.

Helena levantou os olhos. Augusto estava junto à porta, ouvindo a conversa.

Ela não soube há quanto tempo.

— Não quero pedir nada a ele.

Rafael continuou:

— Não estou falando de caridade. Augusto possui recursos e influência suficientes para contratar um advogado especializado. Isso pode fazer diferença.

— Eu não quero dever nada ao seu cliente.

— Talvez em breve você não tenha outra escolha.

Helena encerrou a chamada.

Augusto entrou na sala.

— Seu irmão provocou o acidente?

Ela sentiu a irritação surgir por baixo do medo.

— Não sei.

— Mas estava dirigindo.

— Ele estava tentando trabalhar.

— E aceitou conduzir um veículo sem verificar as condições.

— Não precisa transformar isso em um julgamento.

— Já existe um julgamento. Só não começou no tribunal.

Helena encarou-o.

— Eu vou para a cidade.

— Não.

— O senhor não decide isso.

— A estrada está perigosa e você não conhece o caminho.

— Posso ir com Amália.

— Amália está cuidando da casa.

— Então irei sozinha.

Augusto aproximou-se com a cadeira.

— Se sair agora, perderá o horário de visitas e chegará quando já estiver escuro.

Helena ficou em silêncio.

— Rafael pode levá-la pela manhã — continuou Augusto. — Ele já estará na cidade.

— E o senhor quer o quê em troca?

— Nada.

— Não acredito.

— Isso é problema seu.

Helena virou o rosto.

Augusto estendeu-lhe um cartão.

— O hospital. O nome da mulher ferida está no verso.

Helena pegou o cartão com dedos trêmulos.

— Como conseguiu isso?

— Pedi a Rafael.

— Por quê?

Augusto sustentou o olhar dela.

— Porque você parecia prestes a desabar.

Helena não respondeu.

Naquela noite, não conseguiu jantar. Ficou junto à janela do quarto, observando a chuva cobrir os campos da Fazenda Villagran.

Em algum lugar da cidade, Gabriel aguardava para descobrir se ainda seria capaz de voltar para casa.

E, pela primeira vez, Helena compreendeu que talvez nunca mais existisse uma casa para onde voltar.

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