6

Na manhã seguinte, Helena recebeu autorização para ir à cidade.

Amália precisava comprar mantimentos e alguns remédios que não havia encontrado na semana anterior. Como Augusto ainda dormia, Helena decidiu acompanhá-la. Antes de sair, deixou uma lista detalhada dos horários da medicação sobre a mesa e pediu a Clara que avisasse caso ele acordasse.

— Ele não vai gostar de saber que você saiu — disse Amália, enquanto fechava a porta da caminhonete.

— Ele não precisa gostar de tudo o que faço.

— Está aprendendo rápido.

A estrada estava seca depois de dois dias de chuva, embora ainda houvesse lama junto às cercas. Amália dirigia com habilidade, desviando dos buracos sem diminuir muito a velocidade.

— A senhora trabalha para os Villagran há muito tempo? — perguntou Helena.

— Desde antes de Augusto nascer.

— E sempre foi assim?

— Augusto não.

— Não era cruel?

Amália suspirou.

— Era um menino curioso. Gostava de desmontar relógios, rádios, qualquer coisa que tivesse parafuso. Depois do acidente, tornou-se outra pessoa.

— A deficiência mudou o caráter dele?

Amália permaneceu em silêncio por algum tempo.

— O acidente mudou a maneira como ele passou a enxergar o mundo. O caráter já estava lá, mas ficou mais difícil escondê-lo.

Helena observou os campos pela janela.

— E Cecília?

— Cecília sempre foi dependente do irmão. Antes, porque o admirava. Agora, porque tem medo de ficar sozinha.

— Ela disse que Augusto retém a herança dela.

— É verdade.

— Por quê?

— Augusto diz que está protegendo o patrimônio da família. Cecília diz que ele quer prendê-la à fazenda.

— E quem está certo?

Amália sorriu sem alegria.

— Os dois.

A entrada da cidade estava parcialmente interditada por obras. Uma ponte antiga passava por reparos, e os veículos precisavam seguir por uma estrada provisória. Um caminhão parado bloqueava parte da passagem.

Amália diminuiu a velocidade.

— Devem ter começado a concretagem.

Um homem surgiu junto ao caminhão, usando calça de trabalho, camisa azul e colete refletivo. Era alto, magro e tinha cabelos castanho-escuros, levemente desalinhados. O rosto apresentava traços abertos, mas a expressão estava concentrada.

Ele se aproximou da caminhonete.

— Desculpem. O caminhão atolou e precisamos liberar a passagem.

— Quanto tempo vai levar? — perguntou Amália.

— Se o guincho chegar logo, quinze minutos.

— Isso significa meia hora — respondeu ela.

O homem sorriu.

— Provavelmente.

Helena desceu do veículo para ajudar a retirar algumas caixas da carroceria. Ao pisar no chão irregular, escorregou. O homem segurou seu braço antes que ela caísse.

— Cuidado.

— Eu estava cuidando.

— Então fez um trabalho excelente em quase cair.

Helena soltou o braço.

— Obrigada pela observação.

Ele pareceu surpreso, mas não ofendido.

— Henrique Duarte.

— Helena Alencar.

O olhar dele demorou um instante sobre o curativo em sua mão.

— Está machucada.

— Já me disseram isso.

— Então não vou repetir.

— Agradeço.

Henrique indicou as caixas.

— São medicamentos?

— Alguns. Minha paciente precisa deles.

— Você trabalha na cidade?

— Na Fazenda Villagran.

O sorriso desapareceu discretamente do rosto dele.

— Ah.

— Conhece a propriedade?

— Conheço Augusto Villagran.

— Isso explica a expressão.

Henrique apoiou as mãos na cintura.

— Não foi isso que quis dizer.

— Mas foi o que pensou.

— Pensei que a fazenda tivesse contratado alguém novo. Apenas isso.

Antes que Helena respondesse, uma mulher apareceu do outro lado da ponte. Tinha pele morena, cabelos pretos curtos e cacheados e carregava uma bolsa grande.

— Henrique, o guincho chegou.

Ela se aproximou e olhou para Helena.

— Você é a enfermeira?

— Sou.

— Sofia Duarte. Sou enfermeira no posto municipal.

— Prazer.

— Meu irmão é engenheiro e acredita que consegue resolver todos os problemas sozinho.

— Não acredito nisso — disse Henrique. — Apenas tento.

— É a mesma coisa.

Sofia apertou a mão de Helena e depois olhou para o curativo.

— Precisa trocar esse curativo.

— Está limpo.

— Não falei que estava sujo. Falei que precisa ser trocado.

— Você sempre dá ordens?

— Apenas quando vejo alguém tentando trabalhar com uma mão ferida.

Helena quase sorriu.

— Vou considerar sua recomendação.

— Faça isso.

O guincho finalmente conseguiu retirar o caminhão. Enquanto a passagem era liberada, Henrique ajudou Amália a acomodar as caixas na caminhonete.

— Você vem frequentemente à fazenda? — perguntou Helena.

— Estou acompanhando a reforma dos sistemas de irrigação.

— Para Augusto?

— Para a propriedade.

— Há diferença?

Henrique olhou para os campos distantes.

— Espero que sim.

A resposta ficou entre eles por alguns segundos.

Sofia chamou o irmão. Antes de partir, Henrique voltou-se para Helena.

— Se precisar trocar o curativo, passe no posto municipal. Minha irmã estará lá.

— Eu sou enfermeira. Sei trocar um curativo.

— Eu sei.

— Então por que ofereceu ajuda?

Henrique sorriu.

— Porque às vezes as pessoas sabem fazer tudo e ainda assim precisam de ajuda.

Helena não encontrou uma resposta imediata.

Henrique afastou-se com Sofia, atravessando a ponte em direção às obras. Ela o observou por mais tempo do que pretendia.

— Gostou dele? — perguntou Amália.

— Acabei de conhecê-lo.

— Não foi o que perguntei.

Helena entrou na caminhonete.

— A senhora sempre faz perguntas pessoais?

— Só quando são interessantes.

No caminho de volta, Helena tentou não pensar em Henrique, mas lembrava-se da maneira como ele falava: sem arrogância, sem piedade e sem tentar impor sua presença.

Na Fazenda Villagran, encontrou Augusto esperando na varanda.

Ele estava sozinho. A expressão fechada indicava que não havia gostado da demora.

— A senhora saiu às oito e voltou quase ao meio-dia.

— Fui à cidade comprar seus medicamentos.

— Amália poderia ter ido.

— A lista incluía itens que exigiam orientação profissional.

— Não lhe dei autorização para deixar a propriedade.

Helena subiu os degraus.

— Não sabia que precisava de autorização para acompanhar Amália.

— Enquanto estiver responsável por mim, precisa.

— Eu não sou sua prisioneira.

Augusto apertou as mãos sobre os braços da cadeira.

— Ainda não.

Helena parou.

— O que isso significa?

— Significa que você tem muita confiança para alguém que chegou aqui sem dinheiro, sem casa e com um processo nas costas.

Ela sentiu a raiva subir.

— E o senhor tem muita coragem para alguém que precisa de uma enfermeira até para lembrar os próprios remédios.

O rosto de Augusto endureceu.

Helena entrou na casa sem esperar resposta.

Atrás dela, a cadeira de rodas permaneceu parada na varanda, enquanto o olhar de Augusto seguia o caminho por onde ela havia chegado.

Pela primeira vez, ele não estava irritado apenas porque Helena desobedecera.

Estava irritado porque queria saber quem era o homem que a fizera voltar sorrindo.

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