Mundo ficciónIniciar sesiónNa manhã seguinte, Helena recebeu autorização para ir à cidade.
Amália precisava comprar mantimentos e alguns remédios que não havia encontrado na semana anterior. Como Augusto ainda dormia, Helena decidiu acompanhá-la. Antes de sair, deixou uma lista detalhada dos horários da medicação sobre a mesa e pediu a Clara que avisasse caso ele acordasse.
— Ele não vai gostar de saber que você saiu — disse Amália, enquanto fechava a porta da caminhonete.
— Ele não precisa gostar de tudo o que faço.
— Está aprendendo rápido.
A estrada estava seca depois de dois dias de chuva, embora ainda houvesse lama junto às cercas. Amália dirigia com habilidade, desviando dos buracos sem diminuir muito a velocidade.
— A senhora trabalha para os Villagran há muito tempo? — perguntou Helena.
— Desde antes de Augusto nascer.
— E sempre foi assim?
— Augusto não.
— Não era cruel?
Amália suspirou.
— Era um menino curioso. Gostava de desmontar relógios, rádios, qualquer coisa que tivesse parafuso. Depois do acidente, tornou-se outra pessoa.
— A deficiência mudou o caráter dele?
Amália permaneceu em silêncio por algum tempo.
— O acidente mudou a maneira como ele passou a enxergar o mundo. O caráter já estava lá, mas ficou mais difícil escondê-lo.
Helena observou os campos pela janela.
— E Cecília?
— Cecília sempre foi dependente do irmão. Antes, porque o admirava. Agora, porque tem medo de ficar sozinha.
— Ela disse que Augusto retém a herança dela.
— É verdade.
— Por quê?
— Augusto diz que está protegendo o patrimônio da família. Cecília diz que ele quer prendê-la à fazenda.
— E quem está certo?
Amália sorriu sem alegria.
— Os dois.
A entrada da cidade estava parcialmente interditada por obras. Uma ponte antiga passava por reparos, e os veículos precisavam seguir por uma estrada provisória. Um caminhão parado bloqueava parte da passagem.
Amália diminuiu a velocidade.
— Devem ter começado a concretagem.
Um homem surgiu junto ao caminhão, usando calça de trabalho, camisa azul e colete refletivo. Era alto, magro e tinha cabelos castanho-escuros, levemente desalinhados. O rosto apresentava traços abertos, mas a expressão estava concentrada.
Ele se aproximou da caminhonete.
— Desculpem. O caminhão atolou e precisamos liberar a passagem.
— Quanto tempo vai levar? — perguntou Amália.
— Se o guincho chegar logo, quinze minutos.
— Isso significa meia hora — respondeu ela.
O homem sorriu.
— Provavelmente.
Helena desceu do veículo para ajudar a retirar algumas caixas da carroceria. Ao pisar no chão irregular, escorregou. O homem segurou seu braço antes que ela caísse.
— Cuidado.
— Eu estava cuidando.
— Então fez um trabalho excelente em quase cair.
Helena soltou o braço.
— Obrigada pela observação.
Ele pareceu surpreso, mas não ofendido.
— Henrique Duarte.
— Helena Alencar.
O olhar dele demorou um instante sobre o curativo em sua mão.
— Está machucada.
— Já me disseram isso.
— Então não vou repetir.
— Agradeço.
Henrique indicou as caixas.
— São medicamentos?
— Alguns. Minha paciente precisa deles.
— Você trabalha na cidade?
— Na Fazenda Villagran.
O sorriso desapareceu discretamente do rosto dele.
— Ah.
— Conhece a propriedade?
— Conheço Augusto Villagran.
— Isso explica a expressão.
Henrique apoiou as mãos na cintura.
— Não foi isso que quis dizer.
— Mas foi o que pensou.
— Pensei que a fazenda tivesse contratado alguém novo. Apenas isso.
Antes que Helena respondesse, uma mulher apareceu do outro lado da ponte. Tinha pele morena, cabelos pretos curtos e cacheados e carregava uma bolsa grande.
— Henrique, o guincho chegou.
Ela se aproximou e olhou para Helena.
— Você é a enfermeira?
— Sou.
— Sofia Duarte. Sou enfermeira no posto municipal.
— Prazer.
— Meu irmão é engenheiro e acredita que consegue resolver todos os problemas sozinho.
— Não acredito nisso — disse Henrique. — Apenas tento.
— É a mesma coisa.
Sofia apertou a mão de Helena e depois olhou para o curativo.
— Precisa trocar esse curativo.
— Está limpo.
— Não falei que estava sujo. Falei que precisa ser trocado.
— Você sempre dá ordens?
— Apenas quando vejo alguém tentando trabalhar com uma mão ferida.
Helena quase sorriu.
— Vou considerar sua recomendação.
— Faça isso.
O guincho finalmente conseguiu retirar o caminhão. Enquanto a passagem era liberada, Henrique ajudou Amália a acomodar as caixas na caminhonete.
— Você vem frequentemente à fazenda? — perguntou Helena.
— Estou acompanhando a reforma dos sistemas de irrigação.
— Para Augusto?
— Para a propriedade.
— Há diferença?
Henrique olhou para os campos distantes.
— Espero que sim.
A resposta ficou entre eles por alguns segundos.
Sofia chamou o irmão. Antes de partir, Henrique voltou-se para Helena.
— Se precisar trocar o curativo, passe no posto municipal. Minha irmã estará lá.
— Eu sou enfermeira. Sei trocar um curativo.
— Eu sei.
— Então por que ofereceu ajuda?
Henrique sorriu.
— Porque às vezes as pessoas sabem fazer tudo e ainda assim precisam de ajuda.
Helena não encontrou uma resposta imediata.
Henrique afastou-se com Sofia, atravessando a ponte em direção às obras. Ela o observou por mais tempo do que pretendia.
— Gostou dele? — perguntou Amália.
— Acabei de conhecê-lo.
— Não foi o que perguntei.
Helena entrou na caminhonete.
— A senhora sempre faz perguntas pessoais?
— Só quando são interessantes.
No caminho de volta, Helena tentou não pensar em Henrique, mas lembrava-se da maneira como ele falava: sem arrogância, sem piedade e sem tentar impor sua presença.
Na Fazenda Villagran, encontrou Augusto esperando na varanda.
Ele estava sozinho. A expressão fechada indicava que não havia gostado da demora.
— A senhora saiu às oito e voltou quase ao meio-dia.
— Fui à cidade comprar seus medicamentos.
— Amália poderia ter ido.
— A lista incluía itens que exigiam orientação profissional.
— Não lhe dei autorização para deixar a propriedade.
Helena subiu os degraus.
— Não sabia que precisava de autorização para acompanhar Amália.
— Enquanto estiver responsável por mim, precisa.
— Eu não sou sua prisioneira.
Augusto apertou as mãos sobre os braços da cadeira.
— Ainda não.
Helena parou.
— O que isso significa?
— Significa que você tem muita confiança para alguém que chegou aqui sem dinheiro, sem casa e com um processo nas costas.
Ela sentiu a raiva subir.
— E o senhor tem muita coragem para alguém que precisa de uma enfermeira até para lembrar os próprios remédios.
O rosto de Augusto endureceu.
Helena entrou na casa sem esperar resposta.
Atrás dela, a cadeira de rodas permaneceu parada na varanda, enquanto o olhar de Augusto seguia o caminho por onde ela havia chegado.
Pela primeira vez, ele não estava irritado apenas porque Helena desobedecera.
Estava irritado porque queria saber quem era o homem que a fizera voltar sorrindo.







