Quando o Inverno Floresce
Quando o Inverno Floresce
Por: Yekaterina Orman
1

Helena de Alencar aprendera cedo que uma casa podia deixar de ser um lar muito antes de perder as paredes.

A residência alugada dos Ferraz possuía duas salas estreitas, um quarto dividido por uma cortina desbotada e uma cozinha onde apenas uma pessoa conseguia trabalhar por vez. O telhado apresentava manchas escuras nos dias de chuva, as janelas não fechavam completamente e o corredor cheirava permanentemente a umidade.

Ainda assim, Helena tentava acreditar que aquele lugar lhes pertencia. Havia fotografias dos pais nas paredes, livros empilhados sobre a mesa e uma pequena samambaia junto à janela. Ela havia plantado a muda em um vaso rachado quando tinha dezessete anos. Gabriel costumava dizer que a planta sobreviveria a qualquer coisa, porque aprendera com eles.

Naquela manhã, porém, até a samambaia parecia cansada.

Helena fechou o zíper da bolsa e conferiu pela terceira vez os documentos que levaria para o hospital. Sua declaração de conclusão do curso de enfermagem estava dobrada dentro de uma pasta azul. Havia também sua carteira de identidade, uma caneta e um pequeno porta-retratos com a fotografia dos pais.

Tinha apenas seis anos quando os perdera, mas ainda se lembrava da voz da mãe cantando enquanto dobrava roupas e do modo como o pai batia duas vezes à porta antes de entrar em qualquer cômodo.

Depois da morte deles, Leonor assumira a responsabilidade pelos sobrinhos.

Era assim que a tia contava a história.

Assumira a responsabilidade.

Como se houvesse feito um favor que precisava ser lembrado diariamente.

— Você vai mesmo sair sem falar comigo? — perguntou Leonor.

A tia estava sentada à mesa da cozinha, envolta em um robe vinho já desbotado. Diante dela havia uma xícara de café intocada e três envelopes abertos.

— Eu avisei ontem que tinha uma entrevista no hospital.

— Entrevista — repetiu Leonor, com uma risada curta. — O aluguel está atrasado há dois meses, Gabriel está devendo o curso e eu preciso comprar meus remédios. Mas Helena vai fazer uma entrevista.

— É o primeiro emprego na minha área.

— Você sempre consegue alguma coisa. Um estágio, um plantão, uma promessa. O que nunca consegue é resolver os problemas de verdade.

Gabriel apareceu no corredor, ainda vestindo a camiseta com que dormira. Os cabelos estavam despenteados, e havia uma marca de travesseiro em seu rosto.

— Tia, não começa.

Leonor virou-se para ele.

— Não se meta.

— Você está falando com ela como se ela fosse culpada pelo aluguel.

— Se você não tivesse escolhido um curso caro, talvez eu não precisasse cobrar nada de ninguém.

Gabriel fechou as mãos.

— Eu vou pagar.

— Com quê?

Ele não respondeu.

Helena pegou a bolsa.

— Eu preciso ir.

Leonor ergueu um dos envelopes.

— Octávio esteve aqui ontem.

Helena parou.

— O que ele queria?

— O aluguel. Disse que, se não pagarmos até o fim da semana, vai nos colocar na rua.

— O prazo termina na sexta-feira.

— Para você, talvez. Para ele, terminou ontem.

Helena apertou a alça da bolsa.

— Ele falou alguma coisa sobre mim?

Leonor desviou o olhar.

O silêncio foi suficiente.

— Tia.

— Disse que você deveria ser mais grata.

— Grata pelo quê?

— Por ele permitir que continuemos aqui.

— Ele permite porque recebe aluguel.

— Você acha que o mundo funciona assim? — Leonor perguntou, levantando-se. — Eu cuidei de você. Cuidei de Gabriel. Abandonei a minha vida por vocês dois.

A culpa entrou na cozinha como uma presença conhecida.

Helena baixou os olhos.

— Eu sei.

— Não, você não sabe. Se soubesse, não sairia daqui todos os dias como se fosse a única pessoa com problemas.

Gabriel bateu a mão na mesa.

— Para com isso.

Leonor o encarou, ferida e satisfeita ao mesmo tempo.

— Um dia vocês vão me deixar sozinha, assim como todos os outros fizeram.

Helena conhecia aquela frase. Leonor a dizia sempre que queria impedir que os sobrinhos fossem embora, quando precisava de dinheiro ou quando percebia que eles começavam a construir uma vida própria.

— Eu volto depois da entrevista — disse Helena.

— Talvez não encontre mais esta casa.

— Eu volto.

Saiu antes que a tia pudesse responder.

O hospital ficava a quarenta minutos de ônibus. A entrevista foi educada, mas incerta. A enfermeira responsável pelo setor ouviu Helena, examinou seus documentos e prometeu que ligaria caso ela fosse selecionada.

Helena saiu sem saber se conseguira o emprego.

Na praça central, recebeu uma mensagem de Gabriel.

Não volte pela rua de trás. Octávio está esperando.

Ela atravessou a rua imediatamente.

Encontrou o irmão diante da casa, discutindo com Octávio Ferraz. O proprietário era um homem corpulento, de cabelos grisalhos ralos, bigode bem aparado e roupas mais caras do que a casa que alugava.

— Helena chegou — disse Octávio, sorrindo.

— O que o senhor está fazendo aqui?

— Cobrando o que é meu.

— O prazo termina na sexta-feira.

— Para você, talvez.

Ele se aproximou. Seu perfume era forte e adocicado.

— Talvez você possa me convencer a esperar.

Helena recuou um passo.

— Não tenho nada para conversar com o senhor.

— Não precisa ser tão hostil. Eu sempre gostei de ajudar sua família.

— O senhor recebe aluguel.

— Há várias formas de ajudar alguém.

O olhar dele percorreu o rosto de Helena com uma lentidão deliberada. Ela sentiu o estômago se contrair.

— Afaste-se.

Octávio soltou uma risada.

— Você se acha muito importante.

— Apenas não quero que se aproxime.

— Vai continuar falando assim quando estiver dormindo na rua?

Gabriel avançou, mas Helena segurou seu braço.

— Vamos embora.

Octávio abriu a porta.

— Se não pagarem até sexta-feira, trocarei a fechadura.

Naquela noite, a chuva voltou. Gabriel quase não falou durante o jantar. Leonor reclamou dos remédios, das dívidas e da falta de consideração dos sobrinhos. Helena tentou ignorá-la, mas o cansaço tornava cada palavra mais pesada.

Na manhã seguinte, encontrou três chamadas perdidas de um número desconhecido.

Ligou de volta.

— Senhorita Helena de Alencar? Meu nome é Rafael Montenegro. Sou advogado. Gostaria de conversar sobre uma proposta de trabalho.

— Que tipo de trabalho?

— Enfermagem domiciliar. Para o senhor Augusto Villagran.

— Onde fica?

— Na Fazenda Villagran, a duas horas daqui. O salário é superior ao oferecido pelo hospital.

Rafael informou o valor.

Helena sentiu o coração acelerar. Seria suficiente para pagar o aluguel, comprar os remédios de Leonor e ajudar Gabriel.

— Quando posso começar?

— O senhor Villagran deseja que compareça ainda hoje.

— Hoje é muito rápido.

— A urgência é do meu cliente.

Helena olhou para os envelopes sobre a mesa. Um deles trazia o nome de Octávio Ferraz. Outro era uma cobrança do curso de Gabriel.

— Vou comparecer.

— Mandarei um carro buscá-la ao meio-dia.

— Não preciso de carro. Posso ir sozinha.

Houve uma pausa.

— Senhorita Alencar, o trabalho exige disciplina, discrição e disponibilidade. O senhor Villagran não é um homem fácil.

Helena fechou a pasta azul.

— Eu também não sou.

Desligou.

Ao sair da cozinha, encontrou a porta da frente aberta.

A fechadura estava quebrada.

E, sobre o capacho molhado pela chuva, havia uma mala de Helena jogada na rua.

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