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Helena de Alencar aprendera cedo que uma casa podia deixar de ser um lar muito antes de perder as paredes.
A residência alugada dos Ferraz possuía duas salas estreitas, um quarto dividido por uma cortina desbotada e uma cozinha onde apenas uma pessoa conseguia trabalhar por vez. O telhado apresentava manchas escuras nos dias de chuva, as janelas não fechavam completamente e o corredor cheirava permanentemente a umidade.
Ainda assim, Helena tentava acreditar que aquele lugar lhes pertencia. Havia fotografias dos pais nas paredes, livros empilhados sobre a mesa e uma pequena samambaia junto à janela. Ela havia plantado a muda em um vaso rachado quando tinha dezessete anos. Gabriel costumava dizer que a planta sobreviveria a qualquer coisa, porque aprendera com eles.
Naquela manhã, porém, até a samambaia parecia cansada.
Helena fechou o zíper da bolsa e conferiu pela terceira vez os documentos que levaria para o hospital. Sua declaração de conclusão do curso de enfermagem estava dobrada dentro de uma pasta azul. Havia também sua carteira de identidade, uma caneta e um pequeno porta-retratos com a fotografia dos pais.
Tinha apenas seis anos quando os perdera, mas ainda se lembrava da voz da mãe cantando enquanto dobrava roupas e do modo como o pai batia duas vezes à porta antes de entrar em qualquer cômodo.
Depois da morte deles, Leonor assumira a responsabilidade pelos sobrinhos.
Era assim que a tia contava a história.
Assumira a responsabilidade.
Como se houvesse feito um favor que precisava ser lembrado diariamente.
— Você vai mesmo sair sem falar comigo? — perguntou Leonor.
A tia estava sentada à mesa da cozinha, envolta em um robe vinho já desbotado. Diante dela havia uma xícara de café intocada e três envelopes abertos.
— Eu avisei ontem que tinha uma entrevista no hospital.
— Entrevista — repetiu Leonor, com uma risada curta. — O aluguel está atrasado há dois meses, Gabriel está devendo o curso e eu preciso comprar meus remédios. Mas Helena vai fazer uma entrevista.
— É o primeiro emprego na minha área.
— Você sempre consegue alguma coisa. Um estágio, um plantão, uma promessa. O que nunca consegue é resolver os problemas de verdade.
Gabriel apareceu no corredor, ainda vestindo a camiseta com que dormira. Os cabelos estavam despenteados, e havia uma marca de travesseiro em seu rosto.
— Tia, não começa.
Leonor virou-se para ele.
— Não se meta.
— Você está falando com ela como se ela fosse culpada pelo aluguel.
— Se você não tivesse escolhido um curso caro, talvez eu não precisasse cobrar nada de ninguém.
Gabriel fechou as mãos.
— Eu vou pagar.
— Com quê?
Ele não respondeu.
Helena pegou a bolsa.
— Eu preciso ir.
Leonor ergueu um dos envelopes.
— Octávio esteve aqui ontem.
Helena parou.
— O que ele queria?
— O aluguel. Disse que, se não pagarmos até o fim da semana, vai nos colocar na rua.
— O prazo termina na sexta-feira.
— Para você, talvez. Para ele, terminou ontem.
Helena apertou a alça da bolsa.
— Ele falou alguma coisa sobre mim?
Leonor desviou o olhar.
O silêncio foi suficiente.
— Tia.
— Disse que você deveria ser mais grata.
— Grata pelo quê?
— Por ele permitir que continuemos aqui.
— Ele permite porque recebe aluguel.
— Você acha que o mundo funciona assim? — Leonor perguntou, levantando-se. — Eu cuidei de você. Cuidei de Gabriel. Abandonei a minha vida por vocês dois.
A culpa entrou na cozinha como uma presença conhecida.
Helena baixou os olhos.
— Eu sei.
— Não, você não sabe. Se soubesse, não sairia daqui todos os dias como se fosse a única pessoa com problemas.
Gabriel bateu a mão na mesa.
— Para com isso.
Leonor o encarou, ferida e satisfeita ao mesmo tempo.
— Um dia vocês vão me deixar sozinha, assim como todos os outros fizeram.
Helena conhecia aquela frase. Leonor a dizia sempre que queria impedir que os sobrinhos fossem embora, quando precisava de dinheiro ou quando percebia que eles começavam a construir uma vida própria.
— Eu volto depois da entrevista — disse Helena.
— Talvez não encontre mais esta casa.
— Eu volto.
Saiu antes que a tia pudesse responder.
O hospital ficava a quarenta minutos de ônibus. A entrevista foi educada, mas incerta. A enfermeira responsável pelo setor ouviu Helena, examinou seus documentos e prometeu que ligaria caso ela fosse selecionada.
Helena saiu sem saber se conseguira o emprego.
Na praça central, recebeu uma mensagem de Gabriel.
Não volte pela rua de trás. Octávio está esperando.
Ela atravessou a rua imediatamente.
Encontrou o irmão diante da casa, discutindo com Octávio Ferraz. O proprietário era um homem corpulento, de cabelos grisalhos ralos, bigode bem aparado e roupas mais caras do que a casa que alugava.
— Helena chegou — disse Octávio, sorrindo.
— O que o senhor está fazendo aqui?
— Cobrando o que é meu.
— O prazo termina na sexta-feira.
— Para você, talvez.
Ele se aproximou. Seu perfume era forte e adocicado.
— Talvez você possa me convencer a esperar.
Helena recuou um passo.
— Não tenho nada para conversar com o senhor.
— Não precisa ser tão hostil. Eu sempre gostei de ajudar sua família.
— O senhor recebe aluguel.
— Há várias formas de ajudar alguém.
O olhar dele percorreu o rosto de Helena com uma lentidão deliberada. Ela sentiu o estômago se contrair.
— Afaste-se.
Octávio soltou uma risada.
— Você se acha muito importante.
— Apenas não quero que se aproxime.
— Vai continuar falando assim quando estiver dormindo na rua?
Gabriel avançou, mas Helena segurou seu braço.
— Vamos embora.
Octávio abriu a porta.
— Se não pagarem até sexta-feira, trocarei a fechadura.
Naquela noite, a chuva voltou. Gabriel quase não falou durante o jantar. Leonor reclamou dos remédios, das dívidas e da falta de consideração dos sobrinhos. Helena tentou ignorá-la, mas o cansaço tornava cada palavra mais pesada.
Na manhã seguinte, encontrou três chamadas perdidas de um número desconhecido.
Ligou de volta.
— Senhorita Helena de Alencar? Meu nome é Rafael Montenegro. Sou advogado. Gostaria de conversar sobre uma proposta de trabalho.
— Que tipo de trabalho?
— Enfermagem domiciliar. Para o senhor Augusto Villagran.
— Onde fica?
— Na Fazenda Villagran, a duas horas daqui. O salário é superior ao oferecido pelo hospital.
Rafael informou o valor.
Helena sentiu o coração acelerar. Seria suficiente para pagar o aluguel, comprar os remédios de Leonor e ajudar Gabriel.
— Quando posso começar?
— O senhor Villagran deseja que compareça ainda hoje.
— Hoje é muito rápido.
— A urgência é do meu cliente.
Helena olhou para os envelopes sobre a mesa. Um deles trazia o nome de Octávio Ferraz. Outro era uma cobrança do curso de Gabriel.
— Vou comparecer.
— Mandarei um carro buscá-la ao meio-dia.
— Não preciso de carro. Posso ir sozinha.
Houve uma pausa.
— Senhorita Alencar, o trabalho exige disciplina, discrição e disponibilidade. O senhor Villagran não é um homem fácil.
Helena fechou a pasta azul.
— Eu também não sou.
Desligou.
Ao sair da cozinha, encontrou a porta da frente aberta.
A fechadura estava quebrada.
E, sobre o capacho molhado pela chuva, havia uma mala de Helena jogada na rua.







