Mundo ficciónIniciar sesiónHelena acordou antes do despertador.
Durante alguns segundos, não reconheceu o quarto. O teto era alto, as paredes tinham papel de parede antigo e a chuva batia contra as janelas como dedos impacientes. Então se lembrou da casa pequena, da fechadura quebrada e da Fazenda Villagran.
Levantou-se e verificou a mão ferida. O corte não era profundo, mas ainda ardia. Rafael lhe dera um curativo antes de partir, prometendo retornar à cidade para acompanhar o depoimento de Gabriel.
Às seis horas, Helena desceu.
A casa parecia diferente durante a manhã. A luz entrava pelas janelas altas, revelando poeira suspensa no ar e móveis que pareciam não ser usados havia anos. Da cozinha vinha o cheiro de café recém-passado.
Uma mulher robusta, de cabelos grisalhos presos em um coque, organizava pratos sobre a mesa.
— Você deve ser Helena — disse ela.
— Sou.
— Amália Nogueira. Cuido da casa, da comida e de quase todos os problemas que aparecem por aqui.
Helena sorriu pela primeira vez desde que chegara.
— Então deve estar muito ocupada.
— Estou. Mas não costumo reclamar antes do café.
Ao lado da mesa, uma jovem descascava batatas. Tinha cabelos castanho-claros presos em uma trança, olhos azuis e algumas sardas sobre o nariz.
— Esta é Clara, minha afilhada.
Clara levantou-se depressa.
— Prazer.
— Prazer.
— O senhor Augusto já está acordado — avisou Amália. — Ele sempre está.
— Onde fica o quarto dele?
— Na ala oeste, junto à sala de leitura. Mas talvez seja melhor esperar.
— Ele pediu que eu começasse às seis.
Amália lançou-lhe um olhar comprido.
— Augusto pede muitas coisas. Nem todas precisam ser obedecidas imediatamente.
Antes que Helena pudesse responder, um ruído veio do corredor. Rodas se movendo sobre o piso de madeira.
Augusto surgiu na porta da cozinha.
Usava uma camisa azul-escura e carregava uma expressão severa. A cadeira avançava com movimentos precisos, sem ruído além do som discreto dos pneus sobre o chão.
— O café está atrasado — disse ele.
Amália olhou para o relógio.
— Está servido há três minutos.
— Eu pedi às seis e meia.
— São seis e vinte e sete.
— Então ainda não está servido.
Amália colocou uma xícara diante dele.
— Agora está.
Augusto observou o café como se a bebida fosse responsável por alguma ofensa pessoal. Depois ergueu os olhos para Helena.
— Você deveria estar no meu quarto.
— Fui informada de que o café era sua primeira exigência.
— Não pedi que discutisse.
— Ainda assim, estou aqui.
Cecília entrou na cozinha nesse momento, usando um robe claro e segurando o celular.
— Vocês começaram cedo.
Ela sentou-se sem cumprimentar ninguém. Clara colocou uma xícara diante dela, mas Cecília nem agradeceu.
Helena observou o ambiente. Amália movia-se com naturalidade, Clara evitava olhar diretamente para Cecília e Augusto parecia controlar até a respiração das pessoas à sua volta.
— Depois do café, preciso verificar sua medicação — disse Helena.
— Rafael já lhe entregou a lista?
— Sim.
— Então deve saber que não gosto de alterações.
— Não pretendo alterar nada.
— E não fará perguntas desnecessárias.
— Perguntas fazem parte do meu trabalho.
Augusto deixou a xícara sobre a mesa.
— Não quando são pessoais.
— Não tenho interesse na sua vida pessoal. Preciso apenas conhecer sua rotina, seus limites e suas necessidades.
A expressão dele se tornou mais fria.
— Já conhece o suficiente.
— Não. Conheço apenas seu nome, seu diagnóstico e os horários dos remédios. Isso não é suficiente para cuidar de ninguém.
Cecília soltou uma risada.
— Você vai se arrepender de ter dito isso.
— Talvez — respondeu Helena. — Mas ainda não me arrependi.
Augusto terminou o café em silêncio.
Depois, Helena o acompanhou até a sala de leitura. O cômodo tinha estantes altas, uma mesa de trabalho e uma janela que dava para os campos. Havia também equipamentos de fisioterapia cuidadosamente organizados junto à parede.
— A sessão começa às oito — disse Helena.
— Não farei fisioterapia hoje.
— Por quê?
— Porque não quero.
— O senhor está com dor?
— Não.
— Então a decisão parece emocional, não física.
Augusto virou a cadeira.
— Está aqui há menos de uma hora e já acredita que pode me analisar?
— Não estou analisando. Estou registrando.
— Registre que não farei a sessão.
Helena anotou algo no caderno.
— Muito bem.
Ele franziu a testa.
— Só isso?
— Por enquanto.
Helena deixou a sala, mas não foi longe. Precisava encontrar os medicamentos. Ao atravessar o corredor, ouviu vozes vindas da varanda.
Um homem alto, bronzeado e de cabelos negros carregava um saco de ração. Tinha os braços fortes e uma expressão cansada.
— Você é a enfermeira nova — disse ele.
— Helena.
— Bento Ribeiro.
Ele estendeu a mão, mas recolheu-a ao perceber o curativo dela.
— Está machucada.
— Foi um acidente.
— Na cidade?
— Sim.
Bento assentiu, sem insistir.
Perto da escada, Clara observava os dois. Quando Bento se afastou, ela voltou a descascar as batatas, embora parecesse mais interessada na conversa do que no trabalho.
— Bento conhece tudo nesta fazenda — explicou Amália, aproximando-se. — Se alguma coisa quebrar, procure-o. Se ele não puder resolver, procure a mim.
— E se a senhora não puder?
— Procure o problema e descubra por que ele aconteceu.
Um menino apareceu atrás dela. Era magro, tinha cabelos castanhos encaracolados e segurava um carrinho de madeira.
— Você é a moça que vai cuidar do senhor Augusto?
— Sou. E você?
— Davi.
— Quantos anos você tem?
— Nove.
— Mora aqui?
Davi olhou para Amália antes de responder.
— Moro.
Ele se aproximou e observou o curativo da mão de Helena.
— Você brigou?
— Tive de me defender.
— O senhor Augusto também briga quando tem medo.
Amália ficou séria.
— Davi.
O menino abaixou os olhos.
Antes que Helena pudesse perguntar qualquer coisa, Augusto apareceu novamente na porta da sala.
— A fisioterapeuta chegou.
— Então começaremos — respondeu Helena.
— Eu disse que não faria a sessão.
— E eu disse que começaremos.
A fisioterapeuta, uma mulher de meia-idade chamada Marta, entrou carregando uma pasta. Augusto lançou a Helena um olhar duro.
— Você está aqui para seguir ordens.
— Estou aqui para cuidar do senhor. Se a sessão estiver indicada, não vou ignorar o tratamento só porque o senhor está irritado.
O silêncio que se seguiu foi profundo.
Marta observou os dois e disfarçou um sorriso.
Augusto recuou a cadeira.
— Cinco minutos.
— Quinze.
— Dez.
— Quinze.
Ele a encarou como se ninguém jamais tivesse negociado com ele.
— Dez.
Helena assentiu.
— Por hoje.
Enquanto Marta organizava os equipamentos, Augusto manteve os olhos fixos na janela. Helena percebeu que suas mãos estavam fechadas sobre os braços da cadeira.
Ele parecia furioso.
Mas, pela primeira vez, não parecia completamente sozinho.







