Mundo ficciónIniciar sesiónO carro deixou a cidade sob uma chuva fina e persistente.
Helena permaneceu sentada junto à janela, com a mala aos pés e a mão ferida enrolada em um lenço. Gabriel ficara na delegacia com Leonor para prestar depoimento. Rafael garantira que cuidaria do caso, mas ela não conseguia afastar a sensação de que estava abandonando o irmão no pior momento possível.
— Eu deveria ter ficado — disse.
— Seu irmão não está sozinho — respondeu Rafael, dirigindo sem tirar os olhos da estrada. — Minha equipe acompanhará o depoimento.
— E se Octávio mentir?
— Ele provavelmente mentirá.
Helena virou-se para ele.
— Isso não parece tranquilizador.
— Não estou tentando tranquilizá-la. Estou tentando prepará-la.
Ela observou o advogado pelo reflexo do vidro. Rafael possuía uma postura impecável, cabelos escuros penteados para trás e uma expressão tão controlada que parecia não se alterar diante de nada.
— O senhor sempre fala assim?
— Assim como?
— Como se toda desgraça fosse apenas um problema a ser organizado.
— Na minha profissão, geralmente é.
Helena voltou a olhar para a estrada.
— E o seu cliente? Augusto Villagran também é um problema a ser organizado?
Rafael demorou alguns segundos para responder.
— Augusto é um homem que perdeu o controle da própria vida e tentou recuperá-lo controlando a vida dos outros.
— Isso é uma maneira elegante de dizer que ele é cruel?
— É uma maneira precisa.
A estrada tornou-se estreita à medida que se afastavam da cidade. As casas deram lugar a terrenos vazios, pequenos sítios e longos trechos de árvores. O sinal do celular desapareceu. Helena tentou ligar para Gabriel, mas a chamada não completou.
— Ainda posso desistir? — perguntou.
— Pode.
— E o que acontece comigo?
— A senhora volta para a cidade, enfrenta o processo e procura outro emprego.
Helena apertou o lenço sobre a mão.
— Não tenho onde morar.
Rafael não respondeu.
A chuva diminuiu quando o carro passou por um portão de ferro ladeado por duas colunas de pedra. Em uma delas havia uma placa escura, com letras metálicas:
FAZENDA VILLAGRAN
Depois do portão, uma estrada de terra seguia entre árvores antigas. O caminho era largo, mas irregular. À esquerda, havia campos cultivados; à direita, pastos cercados e um pequeno lago escuro pela chuva.
A casa surgiu após uma curva.
Era grande, antiga e silenciosa. Possuía dois andares, paredes claras, janelas altas e uma varanda que contornava toda a fachada. Não havia sinais de abandono, mas faltava calor. As plantas estavam bem cuidadas, os jardins podados e os caminhos limpos. Ainda assim, o lugar parecia existir sob uma espécie de silêncio permanente.
— Augusto mora sozinho? — perguntou Helena.
— Com a irmã, Cecília. Alguns funcionários também vivem na propriedade.
— E ele precisa de uma enfermeira em tempo integral?
— Precisa de alguém que permaneça disponível.
— Isso não é a mesma coisa.
— Para Augusto, é.
O carro parou diante da varanda. Antes que Rafael pudesse abrir a porta, uma mulher apareceu na entrada da casa.
Cecília Villagran era alta e magra, com cabelos castanho-claros na altura dos ombros e olhos azuis quase transparentes. Usava uma blusa de seda e calças bem ajustadas, roupas elegantes demais para uma tarde chuvosa no campo.
Seu olhar percorreu Helena da cabeça aos pés.
— Essa é a enfermeira?
— Senhorita Helena de Alencar — respondeu Rafael.
— Parece jovem.
— Tenho formação e experiência suficientes.
Cecília sorriu sem simpatia.
— Não foi uma crítica.
— Soou como uma.
Rafael fechou os olhos por um breve instante, como se já esperasse aquela resposta.
Cecília afastou-se da porta.
— Augusto está esperando.
Helena pegou a mala e entrou.
O interior da casa era amplo, mas pouco acolhedor. Havia móveis antigos, quadros de paisagens e uma escadaria de madeira que levava ao andar superior. Sobre uma mesa, um vaso com flores brancas começava a perder as pétalas.
Um homem aguardava junto à janela da sala.
Augusto Villagran era alto, mesmo sentado na cadeira de rodas. Tinha os ombros largos, cabelos negros levemente ondulados e olhos cinza-escuros. Vestia uma camisa preta e calças igualmente escuras. As mãos repousavam sobre os braços da cadeira, imóveis, mas tensas.
Ele não se virou quando Helena entrou.
— Esta é a enfermeira? — perguntou.
— É — respondeu Rafael.
— Ela está atrasada.
Helena olhou para o relógio.
— A entrevista foi marcada para o meio-dia. Ainda não são quatro horas.
Augusto virou o rosto lentamente.
— Eu não perguntei que horas são.
— Então não deveria afirmar que estou atrasada.
Cecília soltou uma pequena risada, mas parou quando o irmão lançou-lhe um olhar.
Augusto examinou a mão machucada de Helena.
— O que aconteceu?
— Cortei a mão.
— Percebi. Perguntei o que aconteceu.
— Tive um problema na cidade.
— Problemas não fazem parte das minhas exigências.
— Talvez seja melhor procurar outra pessoa.
— Talvez.
A resposta foi tão rápida que Helena se surpreendeu.
Augusto empurrou as rodas da cadeira e aproximou-se alguns centímetros.
— Minha rotina começa às seis da manhã. O café deve ser servido às seis e meia. Minha medicação precisa ser administrada nos horários exatos. Não aceito atrasos, improvisos ou visitas desnecessárias. Não permito que funcionários alterem a disposição dos móveis e não tolero que confundam cuidado com intimidade.
— Não costumo confundir as duas coisas.
— A maioria das pessoas diz isso antes de tentar me tratar como um inválido.
Helena sentiu o tom ofensivo, mas também percebeu algo por trás dele. Raiva, talvez. Ou medo de ser observado com piedade.
— Eu não vim tratá-lo como inválido — respondeu. — Vim trabalhar.
— Então compreenda seu lugar.
A frase atravessou a sala.
Rafael respirou fundo.
— Augusto.
— O quê? Ela veio porque precisa do dinheiro. Eu preciso de alguém que cumpra suas funções. Não há motivo para fingirmos que isto é mais do que um contrato.
Helena deixou a mala no chão.
— Concordo. E, justamente por ser um contrato, espero ser tratada com respeito.
Augusto estreitou os olhos.
— Respeito precisa ser conquistado.
— Então será uma longa convivência.
Por um instante, nenhum dos dois falou.
Na varanda, a chuva recomeçou. O som das gotas no telhado parecia preencher todos os espaços deixados pelo silêncio.
Cecília cruzou os braços.
— Ela vai ficar?
Augusto continuou olhando para Helena.
— Por enquanto.
— Excelente. A casa estava tranquila demais.
Helena não respondeu. Apenas ergueu a mala.
— Onde fica o quarto?
Augusto apontou para o corredor.
— No segundo andar.
— Há escadas.
— Há um quarto no térreo, mas está ocupado.
— Por quem?
— Por mim, quando preciso descansar.
Helena encarou-o.
— Então vou ficar no segundo andar.
— Não conseguirá subir e descer várias vezes ao dia carregando seus materiais.
— Conseguirei.
— Não gosto de pessoas que insistem em provar que conseguem fazer tudo.
— E eu não gosto de homens que decidem o que os outros são capazes de fazer.
Rafael cobriu o rosto com uma das mãos.
Augusto, porém, não pareceu irritado. Pela primeira vez, algo semelhante a interesse surgiu em seu olhar.
— Veremos quanto tempo essa coragem dura, senhorita Alencar.
Helena segurou a alça da mala.
— Veremos.
E subiu as escadas, enquanto, atrás dela, a Fazenda Villagran permanecia silenciosa como se estivesse observando a chegada de uma tempestade.







