3

O carro deixou a cidade sob uma chuva fina e persistente.

Helena permaneceu sentada junto à janela, com a mala aos pés e a mão ferida enrolada em um lenço. Gabriel ficara na delegacia com Leonor para prestar depoimento. Rafael garantira que cuidaria do caso, mas ela não conseguia afastar a sensação de que estava abandonando o irmão no pior momento possível.

— Eu deveria ter ficado — disse.

— Seu irmão não está sozinho — respondeu Rafael, dirigindo sem tirar os olhos da estrada. — Minha equipe acompanhará o depoimento.

— E se Octávio mentir?

— Ele provavelmente mentirá.

Helena virou-se para ele.

— Isso não parece tranquilizador.

— Não estou tentando tranquilizá-la. Estou tentando prepará-la.

Ela observou o advogado pelo reflexo do vidro. Rafael possuía uma postura impecável, cabelos escuros penteados para trás e uma expressão tão controlada que parecia não se alterar diante de nada.

— O senhor sempre fala assim?

— Assim como?

— Como se toda desgraça fosse apenas um problema a ser organizado.

— Na minha profissão, geralmente é.

Helena voltou a olhar para a estrada.

— E o seu cliente? Augusto Villagran também é um problema a ser organizado?

Rafael demorou alguns segundos para responder.

— Augusto é um homem que perdeu o controle da própria vida e tentou recuperá-lo controlando a vida dos outros.

— Isso é uma maneira elegante de dizer que ele é cruel?

— É uma maneira precisa.

A estrada tornou-se estreita à medida que se afastavam da cidade. As casas deram lugar a terrenos vazios, pequenos sítios e longos trechos de árvores. O sinal do celular desapareceu. Helena tentou ligar para Gabriel, mas a chamada não completou.

— Ainda posso desistir? — perguntou.

— Pode.

— E o que acontece comigo?

— A senhora volta para a cidade, enfrenta o processo e procura outro emprego.

Helena apertou o lenço sobre a mão.

— Não tenho onde morar.

Rafael não respondeu.

A chuva diminuiu quando o carro passou por um portão de ferro ladeado por duas colunas de pedra. Em uma delas havia uma placa escura, com letras metálicas:

FAZENDA VILLAGRAN

Depois do portão, uma estrada de terra seguia entre árvores antigas. O caminho era largo, mas irregular. À esquerda, havia campos cultivados; à direita, pastos cercados e um pequeno lago escuro pela chuva.

A casa surgiu após uma curva.

Era grande, antiga e silenciosa. Possuía dois andares, paredes claras, janelas altas e uma varanda que contornava toda a fachada. Não havia sinais de abandono, mas faltava calor. As plantas estavam bem cuidadas, os jardins podados e os caminhos limpos. Ainda assim, o lugar parecia existir sob uma espécie de silêncio permanente.

— Augusto mora sozinho? — perguntou Helena.

— Com a irmã, Cecília. Alguns funcionários também vivem na propriedade.

— E ele precisa de uma enfermeira em tempo integral?

— Precisa de alguém que permaneça disponível.

— Isso não é a mesma coisa.

— Para Augusto, é.

O carro parou diante da varanda. Antes que Rafael pudesse abrir a porta, uma mulher apareceu na entrada da casa.

Cecília Villagran era alta e magra, com cabelos castanho-claros na altura dos ombros e olhos azuis quase transparentes. Usava uma blusa de seda e calças bem ajustadas, roupas elegantes demais para uma tarde chuvosa no campo.

Seu olhar percorreu Helena da cabeça aos pés.

— Essa é a enfermeira?

— Senhorita Helena de Alencar — respondeu Rafael.

— Parece jovem.

— Tenho formação e experiência suficientes.

Cecília sorriu sem simpatia.

— Não foi uma crítica.

— Soou como uma.

Rafael fechou os olhos por um breve instante, como se já esperasse aquela resposta.

Cecília afastou-se da porta.

— Augusto está esperando.

Helena pegou a mala e entrou.

O interior da casa era amplo, mas pouco acolhedor. Havia móveis antigos, quadros de paisagens e uma escadaria de madeira que levava ao andar superior. Sobre uma mesa, um vaso com flores brancas começava a perder as pétalas.

Um homem aguardava junto à janela da sala.

Augusto Villagran era alto, mesmo sentado na cadeira de rodas. Tinha os ombros largos, cabelos negros levemente ondulados e olhos cinza-escuros. Vestia uma camisa preta e calças igualmente escuras. As mãos repousavam sobre os braços da cadeira, imóveis, mas tensas.

Ele não se virou quando Helena entrou.

— Esta é a enfermeira? — perguntou.

— É — respondeu Rafael.

— Ela está atrasada.

Helena olhou para o relógio.

— A entrevista foi marcada para o meio-dia. Ainda não são quatro horas.

Augusto virou o rosto lentamente.

— Eu não perguntei que horas são.

— Então não deveria afirmar que estou atrasada.

Cecília soltou uma pequena risada, mas parou quando o irmão lançou-lhe um olhar.

Augusto examinou a mão machucada de Helena.

— O que aconteceu?

— Cortei a mão.

— Percebi. Perguntei o que aconteceu.

— Tive um problema na cidade.

— Problemas não fazem parte das minhas exigências.

— Talvez seja melhor procurar outra pessoa.

— Talvez.

A resposta foi tão rápida que Helena se surpreendeu.

Augusto empurrou as rodas da cadeira e aproximou-se alguns centímetros.

— Minha rotina começa às seis da manhã. O café deve ser servido às seis e meia. Minha medicação precisa ser administrada nos horários exatos. Não aceito atrasos, improvisos ou visitas desnecessárias. Não permito que funcionários alterem a disposição dos móveis e não tolero que confundam cuidado com intimidade.

— Não costumo confundir as duas coisas.

— A maioria das pessoas diz isso antes de tentar me tratar como um inválido.

Helena sentiu o tom ofensivo, mas também percebeu algo por trás dele. Raiva, talvez. Ou medo de ser observado com piedade.

— Eu não vim tratá-lo como inválido — respondeu. — Vim trabalhar.

— Então compreenda seu lugar.

A frase atravessou a sala.

Rafael respirou fundo.

— Augusto.

— O quê? Ela veio porque precisa do dinheiro. Eu preciso de alguém que cumpra suas funções. Não há motivo para fingirmos que isto é mais do que um contrato.

Helena deixou a mala no chão.

— Concordo. E, justamente por ser um contrato, espero ser tratada com respeito.

Augusto estreitou os olhos.

— Respeito precisa ser conquistado.

— Então será uma longa convivência.

Por um instante, nenhum dos dois falou.

Na varanda, a chuva recomeçou. O som das gotas no telhado parecia preencher todos os espaços deixados pelo silêncio.

Cecília cruzou os braços.

— Ela vai ficar?

Augusto continuou olhando para Helena.

— Por enquanto.

— Excelente. A casa estava tranquila demais.

Helena não respondeu. Apenas ergueu a mala.

— Onde fica o quarto?

Augusto apontou para o corredor.

— No segundo andar.

— Há escadas.

— Há um quarto no térreo, mas está ocupado.

— Por quem?

— Por mim, quando preciso descansar.

Helena encarou-o.

— Então vou ficar no segundo andar.

— Não conseguirá subir e descer várias vezes ao dia carregando seus materiais.

— Conseguirei.

— Não gosto de pessoas que insistem em provar que conseguem fazer tudo.

— E eu não gosto de homens que decidem o que os outros são capazes de fazer.

Rafael cobriu o rosto com uma das mãos.

Augusto, porém, não pareceu irritado. Pela primeira vez, algo semelhante a interesse surgiu em seu olhar.

— Veremos quanto tempo essa coragem dura, senhorita Alencar.

Helena segurou a alça da mala.

— Veremos.

E subiu as escadas, enquanto, atrás dela, a Fazenda Villagran permanecia silenciosa como se estivesse observando a chegada de uma tempestade.

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