Mundo ficciónIniciar sesiónCátia cresceu com a poeira no rosto, a rédea na mão e o coração fincado na Fazenda Sabiá-Laranjeira. Foi ali que ela e o seu pai se ergueram após a perda da sua mãe. Mas uma tragédia inesperada devastou o sustento da família da noite para o dia, deixando dívidas astronômicas e uma única saída dolorosa: vender a propriedade. Fernand é um CEO frio, pragmático e acostumado a dominar a selva de pedra. Ao comprar a Sabiá-Laranjeira por uma pechincha, seu objetivo é simples: apagar as memórias do lugar e erguer um resort de luxo. O que ele não contava era com o gênio indomável da jovem boiadeira, nem com a obrigação de mantê-la na propriedade durante a fase de transição. A convivência diária vira um campo de batalha. Cátia odeia cada centímetro do empresário que invadiu o seu mundo. Fernand não consegue tirar os olhos da mulher que o enfrenta sem piscar. No entanto, quando os verdadeiros interesses por trás da falência da fazenda começam a se revelar, Fernand percebe que o perigo está mais perto do que imagina. O CEO terá que fazer a sua maior escolha: continuar no topo do seu império ou se render à poeira do campo para não perder a única mulher que aprendeu a amar.
Leer másCátia
Da varanda, vejo labaredas consumirem a plantação no horizonte. O fogo alastra-se pelo parreiral, destruindo tudo pelo caminho. Prendo a respiração ao olhar para o estábulo, onde as vacas leiteiras e minha égua, Estela, estão presas.
Corro antes que a chama as alcancem.
A fumaça invade meus pulmões logo nos primeiros passos. Levo a manga da blusa à boca, e respiro com dificuldade. O vento lança cinzas no meu rosto e o cheiro de mato queimado me embrulha o estômago.
Minhas botas afundam na terra fofa. À esquerda, uma cerca em chama desaba, espalhando um rastro de fagulhas. Alcanço a entrada do estábulo, mas o ferrolho está quente demais para tocar.
— Aguenta, Estela.
O relincho desesperado me responde antes que eu consiga entrar.
Enrolo a barra da camisa na mão e puxo a trava com toda força. O metal queima mesmo através do tecido, mas resiste. Puxo novamente, quase caindo pela falta de ar.
O ferrolho finalmente cede.
As vacas irrompem pela abertura, quase me atropelando na fuga. Estela hesita um segundo, as orelhas girando em minha direção, os olhos arregalados de pavor.
— Vai! — Bato na anca dela.
A égua dispara, desparecendo em meio ao nevoeiro de fumaça.
Escuto um estalo alto e ergo a cabeça. O fogo alcançou as ripas do teto, e uma língua de fogo avança rápido demais.
Tento dar um passo para trás para fugir, bem no instante em que a primeira viga desaba.
Fernand
Ando pelo mármore polido da recepção da diretoria. Ajusto o nó da gravata enquanto passo pelas portas de vidro temperado do último andar da incorporadora. Para mim, o mercado imobiliário é um jogo de xadrez em velocidade máxima, e eu odeio perder peças.
— Bom dia, Fernand — Alessandra, minha secretária, cumprimenta sem erguer os olhos do monitor, os dedos voando pelo teclado.
— Bom dia. Notícias? — pergunto, parando diante da bancada de granito antes mesmo de entrar na minha sala.
— A Bianca ligou umas três vezes desde que abrimos — ela responde, finalmente encarando-me com uma sobrancelha erguida. — Parecia bem impaciente.
Respiro fundo, checando as horas no relógio de pulso.
— Tenho assuntos mais importantes para tratar agora. Me passe os relatórios de prospecção do litoral e da serra.
Entro no escritório, deixando a porta entreaberta. Alguns segundos depois, meu sócio surge na linha de visão, segurando um tablet com uma visão compenetrada. Ele entra sem bater e arrasta o indicador pela tela antes mesmo de virá-la para mim.
— Esquece o litoral por um momento. Dá uma olhada nisso — Ele diz e entrega o tablet em minhas mãos.
Na tela, uma transmissão de notícias locais mostra uma coluna espessa de fumaça preta subindo contra o céu. Em letras garrafais na parte inferior da imagem lê-se: “incêndio de grandes proporções devasta propriedade rural e deixa rastro de destruição”.
— Uma fazenda no vale — murmuro, analisando as imagens aéreas do terreno. — Espera... essa área não é a daquela propriedade do parreiral?
— Exatamente — Artur confirma. — A localização perfeita. Um platô elevado, solo fértil, acesso fácil à rodovia e uma vista panorâmica incrível. É o local perfeito para o resort de luxo que estamos planejando.
— Mas nós já tentamos aquela área — lembro, cruzando os braços. — A proprietária é irredutível. Já mandamos propostas, fizemos ofertas acima do mercado, e ela nunca nem atendeu nossas chamadas.
— Bom, a situação mudou — meu sócio aponta para a tela. — O valor da terra vai despencar com esse estrago. E o repórter acabou de confirmar que os animais da fazenda estão dispersos pela região, enquanto a atual proprietária deu entrada no hospital em estado grave por inalação de fumaça. Está internada.
— Internada? — Franzo o cenho, encostando-me na poltrona de couro.
— É, pode ser o momento certo de tentarmos falar com o outro responsável pela propriedade. Para assinar uma proposta imediata.
Antes que eu possa responder, vozes alteradas vêm do corredor.
— Senhorita Bianca, por favor, o Fernand está em uma reunião importante de negócios agora! — a voz firme de Alessandra ecoa do lado de fora.
— Sai da minha frente, Alessandra! Eu não quero saber de negócios — A resposta vem em tom estridente, acompanhada pelo barulho dos saltos contra o piso.
A porta do meu escritório é empurrada com força. Alessandra ainda tenta segurar a maçaneta por um segundo, pedindo desculpa com o olhar antes que eu levante a mão, dispensando-a em silêncio.
Bianca surge no centro da sala. Perfeitamente alinhada em um conjunto de grife, ela sacode seus cabelos loiros e cruza os braços com os olhos faiscando. Ela ignora completamente a presença de Artur.
— Fernand — a voz dela é carregada de veneno. — Você tem exatamente três segundos para me explicar como conseguiu esquecer que hoje é o nosso primeiro aniversário de namoro.
CátiaO quarto dos fundos da casa de Dona Vera dá direto para o pequeno curral de cerca branca onde Estela foi instalada. Junto com ela estão os dois cavalos da família. A égua apoia o casco direito sem firmar o peso, balançando a cabeça de um lado para o outro. No peito dela, o rasgo do arame farpado ainda solta um fiapo escuro de sangue seco misturado com terra.Corro a mão pelo batente de madeira da janela, apertando a tinta descascada até sentir a farpa me espetar.— Pai — me viro para o corredor, a voz rouca arranhando na garganta inflamada. — O senhor precisa achar o doutor Renato. A Estela tá mancando e o peito dela tá feio.Meu pai para na porta do quarto. Ele olha de relance para o piquete lá fora, depois para a minha cara vermelha de choro.— Vou pegar a picape e ir até a vila, fia. Não se preocupe, pode descansar, tá bem?Ele nem espera minha resposta e apressa o passo para o corredor.Caminho até a cama de solteiro e me sento na beirada. As molas rangem sob o meu peso.A
FernandA garota corre na minha direção, ignorando os chamados dos homens que tentam contê-la. Antes que eu possa abrir a boca ou me identificar, ela se atira para a frente.Seus braços envolvem meu pescoço em um abraço desesperado e impulsivo. Sinto o calor do corpo dela, o cheiro de terra misturado a um perfume suave, e a respiração descontrolada contra o meu peito.— Você achou ela... Meu Deus, você trouxe a minha Estela de volta! — ela murmura contra o meu ombro, chorando de puro alívio enquanto aperta o tecido da minha camisa.Fico paralisado por um segundo, surpreso com o impacto do abraço e com a intensidade do olhar dela quando se afasta um pouco para encarar a égua. Ela passa as mãos pelo focinho do animal, chorando sem conter as lágrimas.— Muito obrigada... Eu achei que tinha perdido ela no fogo — ela diz, finalmente erguendo os olhos para o meu rosto.Ela analisa minhas roupas poeirentas, o relógio caro no meu pulso e a postura ereta que a poeira não conseguiu esconder. O
FernandAjusto as mãos no volante enquanto deixo o afasto da rodovia para trás. A estrada de terra batida surge no horizonte. O relógio marca pouco mais de uma hora e meia desde que saí da capital.A estrada está uma merda.Rochas soltas e poeira sobem com a velocidade. A raiva de ter sido arrancado da capital por causa da incompetência de Artur ainda martela na minha cabeça.Em questão segundos, um impacto enorme faz o carro tremer.Um estouro ensurdecedor seguido por um solavanco violento que faz o volante girar bruscamente para a direita.— Porra! — esbravejo, segurando a direção com firmeza para segurar a picape até conseguir pará-la no acostamento tomado pelo mato seco.Desligo o motor, saio do veículo e a onda de calor do interior me atinge em cheio na cara. Caminho até a roda dianteira direita e dou de cara com o estrago: o pneu rasgou de fora a fora, completamente destruído depois de passar por cima de um pedaço de cantoneira de ferro enferrujada oculta na poeira.Puxo o celul
FernandDesligo o telefone e uma onda de raiva invade cada músculo do meu corpo.Eu sabia que essa menina iria causar problemas.Porra, Artur! Como que ele foi tão incompetente na hora de revisar esse contrato?Do outro lado da sala, perto das janelas com vista panorâmica, Bianca está jogada no sofá usando um vestido rosa-chiclete curto. No início do namoro, eu contava os segundos para admirá-la nesse mesmo sofá. Mas agora só consigo pensar em como quero Bianca fora do meu apartamento.Ela abre uma revista e o seu rosto se ilumina com sua foto de lingerie para uma marca italiana.— Você já viu a nova edição, Fezinho?Reprimo a vontade de revirar os olhos ao lembrar que a mãe dela está doente. Posso ser um babaca corporativo, mas não um babaca dentro da minha própria casa.Faço que sim a cabeça, e disco o número de Alessandra, ainda com o celular nas mãos.— Boa tarde, Alessandra — digo. Bianca levanta-se no mesmo instante e apoia-se no balcão da cozinha, olhando diretamente para mim
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