Mundo de ficçãoIniciar sessãoA mala de Helena permanecia sobre o capacho, encharcada pela chuva.
Por alguns segundos, ela não conseguiu se mover. A água escorria pelas roupas que haviam sido cuidadosamente dobradas na noite anterior. Um dos livros do curso estava aberto no chão, com as páginas coladas pela umidade.
Gabriel apareceu atrás dela.
— O que aconteceu?
Helena não respondeu. Entrou na casa e encontrou a sala quase vazia. As fotografias haviam sido retiradas das paredes, os livros estavam empilhados junto à porta e a pequena samambaia jazia quebrada sobre o chão.
Leonor permanecia sentada no sofá, segurando uma caixa de papelão.
— Octávio disse que tínhamos até hoje para sair.
— E a senhora deixou que ele fizesse isso?
— O que você queria que eu fizesse? Enfrentasse um homem que pode nos colocar na rua?
— Nós já estamos na rua.
Leonor apertou os lábios.
— Isso aconteceu porque você o provocou.
Helena sentiu o rosto aquecer.
— Eu o provoquei?
— Você sabe como homens desse tipo são. Deveria ter sido mais cuidadosa.
Gabriel deu um passo à frente.
— Não coloque a culpa nela.
— Se você tivesse dinheiro para pagar o aluguel, nada disso teria acontecido.
— Chega — disse Helena.
Sua voz saiu baixa, mas firme.
Ela se ajoelhou e recolheu o livro molhado. A capa estava manchada, mas o conteúdo ainda poderia ser salvo.
— Vou falar com ele.
— Não vá sozinha — disse Gabriel.
— Vou apenas pedir que nos dê algumas horas.
— Ele não vai ouvir.
— Então encontraremos outra solução.
Helena atravessou o corredor. A porta que levava ao escritório de Octávio estava entreaberta. Ela bateu duas vezes.
— Entre — respondeu ele.
O cômodo cheirava a couro e perfume. Octávio estava junto à escrivaninha, examinando alguns papéis. A mão direita segurava uma caneta; a esquerda permanecia sobre a fechadura nova que seria instalada na porta principal.
— Veio agradecer por eu ter sido paciente?
— Vim pedir que nos dê até o fim da semana.
— Já lhe disse que o prazo terminou.
— O senhor não pode expulsar uma família de uma hora para outra.
— Posso, quando o contrato é rompido.
— Nós não rompemos o contrato.
Octávio ergueu uma folha.
— Sua tia deixou de pagar dois meses. Isso é suficiente.
— O senhor recebeu parte do último aluguel.
— Parte não é o mesmo que tudo.
— O restante será pago.
Ele sorriu.
— Talvez eu aceite um acordo.
Helena sentiu a mesma repulsa da manhã anterior.
— Que acordo?
Octávio se aproximou.
— Você sabe muito bem.
— Não.
— Não precisa fingir indignação. Sempre foi inteligente.
— Saia da minha frente.
— Você precisa desta casa.
— Não preciso do senhor.
O sorriso desapareceu do rosto dele.
— Cuidado, Helena.
— Não é uma ameaça que vai me fazer mudar de opinião.
Octávio segurou o braço dela.
Helena tentou se soltar.
— Tire a mão de mim.
— Você é ingrata. Depois de tudo o que fiz por sua família—
— O senhor alugou uma casa.
Ele a puxou para mais perto. Helena bateu o ombro na estante e sentiu uma garrafa cair atrás de si. O vidro se partiu contra o chão.
— Não faça escândalo — murmurou Octávio.
Helena percebeu que a porta estava fechada. O coração começou a bater depressa.
— Abra a porta.
— Você ainda pode sair daqui sem problemas.
— Abra a porta!
Ele apertou mais seu braço.
A garrafa quebrada estava junto ao pé de Helena. Ela não pensou. Apenas abaixou-se, agarrou o gargalo e golpeou o braço de Octávio.
O homem gritou e a soltou.
Helena correu para a porta. Atrás dela, Octávio praguejava. Quando alcançou o corredor, ouviu o som de algo caindo e depois a voz dele, alterada:
— Assassina!
Gabriel surgiu na sala.
— O que aconteceu?
— Chame a polícia — disse Octávio, saindo do escritório com a mão ensanguentada. — Essa mulher tentou me matar.
Helena ficou imóvel.
— Ele tentou me agarrar.
— Ela entrou no meu escritório e me atacou — retrucou Octávio. — Eu estava apenas tentando proteger minha propriedade.
Leonor levantou-se lentamente.
— Helena…
— Não toque nesse assunto agora.
Do lado de fora, uma vizinha observava pela janela. Em poucos minutos, outras pessoas surgiram na calçada. Octávio falava alto, mostrando a mão ferida e repetindo que quase fora assassinado por uma inquilina descontrolada.
Helena olhou para o sangue na própria mão. Um pequeno corte atravessava sua palma, causado pelo vidro. Ainda assim, era a mão de Octávio que todos observavam.
O som de uma sirene aproximou-se.
Gabriel ficou ao lado dela.
— Eu vou contar o que aconteceu.
— Conte a verdade — respondeu Helena. — Mesmo que ninguém queira ouvi-la.
Dois policiais entraram na casa. Um deles conversou com Octávio; o outro pediu os documentos de Helena e fez perguntas sobre o confronto.
Ela respondeu sem chorar. Explicou que Octávio a segurara, que tentara se afastar e que usara o vidro apenas para se defender.
O policial anotou tudo.
— A senhora terá de nos acompanhar para prestar esclarecimentos.
— Ela não tentou matar ninguém — disse Gabriel.
— Isso será investigado.
Octávio foi levado para receber atendimento médico, mas antes de sair lançou a Helena um olhar que prometia vingança.
A casa ficou em silêncio depois que os policiais partiram.
Leonor sentou-se novamente no sofá.
— Você destruiu tudo.
Helena encarou a tia.
— Ele tentou me atacar.
— Você deveria ter suportado.
Gabriel levantou-se.
— Não diga isso.
— E o que vai acontecer agora? — Leonor perguntou. — Quem vai querer contratar uma mulher acusada de agressão?
Helena não respondeu.
Naquele instante, um carro preto parou diante da casa. Rafael Montenegro desceu do veículo com um guarda-chuva na mão. Observou a fechadura quebrada, a mala molhada e os cacos de vidro espalhados pelo corredor.
— Senhorita Alencar?
— Quem é você?
— Rafael Montenegro. O advogado que ligou esta manhã.
Helena apertou a mão ferida.
— Chegou tarde.
Rafael olhou para a casa e depois para ela.
— Vejo que as circunstâncias mudaram.
— Estou sendo acusada de tentativa de homicídio.
— Eu sei.
Helena estreitou os olhos.
— Como sabe?
— Octávio Ferraz ligou para o meu cliente.
— Seu cliente?
— Augusto Villagran.
Ele abriu a porta traseira do carro.
— O senhor Villagran ainda mantém a proposta de trabalho. Mas agora, além de uma enfermeira, a senhora precisa de um advogado.
Helena olhou para Gabriel, para Leonor e para a casa que já não parecia pertencer a ninguém.
Depois encarou a estrada molhada.
— Se eu entrar nesse carro, posso voltar?
Rafael não respondeu de imediato.
— Isso dependerá da senhora.
Helena pegou a mala encharcada.
E entrou.







