Mundo de ficçãoIniciar sessãoHá três anos, Cristian Sabbatini perdeu tudo em uma noite chuvosa. Sua esposa, Margo, morreu em um acidente de carro minutos depois de uma briga devastadora. Ele nunca foi atrás dela. Nunca pediu perdão. E agora vive preso em um império de gelo e culpa, evitando os próprios filhos porque a dor de olhar para eles é insuportável. Bento fala pouco. Betina não fala nada. Aos quatro anos, os gêmeos carregam cicatrizes invisíveis do acidente que presenciaram. A mansão que habitam é linda, mas morta — sem risos, sem flores, sem vida. Quando a babá que cuidava das crianças adoece, Cristian é forçado a contratar alguém. Não esperava Giovanna Moretti. Aos 22 anos, ela traz consigo um passado de abandono, traição e humilhação. Aceita o trabalho como uma última chance de recomeçar. Mas a mansão Sabbatini não é lugar de recomeços. É um mausoléu. Cristian a observa como um predador — desconfiado, irritado com a forma como ela ousa cantar, ousa rir, ousa trazer cores onde só havia cinza. Mas então algo acontece: Betina sorri pela primeira vez em anos. Bento pede mais um abraço. E Cristian percebe que não consegue mais tirar os olhos da babá que está descongelando sua família. A atração é proibida. A resistência, brutal. Mas quando Betina sussurra sua primeira palavra em três anos — "Gio" — as muralhas começam a rachar. Cristian jurou nunca mais amar. Giovanna jurou nunca mais confiar. Mas o coração não pede permissão para sangrar. E quando dois corações partidos se encontram, ou eles se destroem completamente... ou se curam para sempre. Uma história de culpa, perdão e o amor que reconstrói o que o tempo destruiu.
Ler maisCRISTIAN | Três anos atrás — A Manhã
O despertador tocou às cinco da manhã, como sempre.
Cristian desligou o som antes que o segundo apito quebrasse o silêncio do quarto. Ao lado dele, Margo continuava dormindo, virada para o lado oposto da cama, o cabelo castanho espalhado no travesseiro como uma pintura desordenada. Ele observou a curva delicada dos ombros dela por três segundos. Apenas três. Então afastou o edredom e levantou.
O chão de madeira gelado sob seus pés descalços era o primeiro choque do dia. Sempre era. Cristian caminhou até o banheiro sem acender a luz, os passos automáticos de quem repetia aquela rotina há anos. No espelho embaçado pela umidade da noite, seu reflexo era uma sombra indefinida. Melhor assim. Não precisava ver o que sabia que encontraria: olheiras profundas, maxilar permanentemente tenso, olhos escuros que tinham perdido o brilho em algum ponto dos últimos meses.
Quando tinha sido? Ele não conseguia identificar o momento exato.
Talvez não houvesse um momento. Talvez tivesse sido gradual, como água escorrendo por entre os dedos até que de repente a mão está vazia e você nem percebeu quando perdeu tudo.
Escovou os dentes olhando para o ralo da pia. Fez a barba com movimentos precisos, metódicos. Lavou o rosto com água tão fria que ardeu. A dor era boa. A dor o mantinha acordado, alerta, presente.
Presente onde? Certamente não ali.
Cristian voltou ao quarto e trocou o pijama de seda pela roupa de treino. Margo se mexeu na cama, murmurando algo ininteligível, mas não acordou. Ele saiu sem fazer barulho, fechando a porta com o cuidado de quem foge.
A escada rangia no terceiro degrau. Ele evitou aquele degrau, como sempre fazia. No corredor do andar de baixo, parou brevemente em frente à porta do quarto dos gêmeos. Bento e Betina. Dois anos de vida. Olhos curiosos. Sorrisos que derretiam qualquer coisa que ainda restasse do seu coração.
Ele não abriu a porta. Nunca abria de manhã. Eles dormiam, e Cristian preferia assim. Preferia não ver os rostinhos que pediam atenção, colo, presença. Coisas que ele não tinha tempo para dar.
Ou não sabia como dar.
A academia em casa ficava no térreo, num cômodo espaçoso com janelas voltadas para o jardim. Cristian ligou as luzes, ajustou os fones de ouvido e começou a correr na esteira. Dez quilômetros. Sempre dez. O corpo respondia no automático, músculos queimando, pulmões expandindo, suor escorrendo.
A dor física era mais fácil de lidar do que qualquer outra coisa.
Enquanto corria, sua mente já estava no escritório. Reunião às sete com investidores do Vale do Silício. Apresentação às nove para o conselho. Almoço com o diretor financeiro. Tarde inteira revisando aquisições. Teleconferência com Tóquio às seis da tarde.
Sua agenda era uma muralha de compromissos empilhados uns sobre os outros, sem espaço para respirar, sem brecha para pensar. Exatamente como ele queria.
Porque quando parava de pensar no trabalho, pensava em Margo. E quando pensava em Margo, sentia o peso esmagador da distância que crescia entre eles como um abismo silencioso.
Cinquenta minutos depois, suado e exausto, Cristian desligou a esteira. Bebeu água direto da garrafa, a garganta ardendo. Tomou um banho rápido no banheiro da academia, vestiu um roupão e subiu novamente para o quarto. O chuveiro já estava ligado no banheiro. Margo acordara cedo também. Raro. Ela costumava dormir até mais tarde, acordando apenas quando os gêmeos começavam a chorar.
Ele tirou o roupão e o jogou no cesto. Escolheu um terno cinza-chumbo do closet. Camisa branca, impecável. Gravata azul-marinho. Abotoaduras de prata. Sapatos italianos que custavam mais do que um salário mínimo.
A armadura estava completa.
Quando Margo saiu do banheiro, uma toalha enrolada no corpo e outra no cabelo molhado, Cristian já ajustava a gravata diante do espelho. Ele viu o reflexo dela parada atrás dele. Viu os olhos dela percorrendo a figura dele, e algo naquele olhar o incomodou. Parecia cansaço. Ou talvez resignação.
— Bom dia — disse ela, a voz suave mas sem calor.
— Bom dia.
Cristian se virou e beijou a testa dela. Um gesto rápido, mecânico, como apertar um botão. Margo não reagiu. Apenas fechou os olhos por um instante, como se estivesse guardando aquele toque mínimo para mais tarde, quando não houvesse mais nada.
— Vai trabalhar cedo de novo? — perguntou ela, mas não era realmente uma pergunta.
Era a confirmação de algo que os dois já sabiam.
— Reunião às sete — respondeu Cristian, pegando o relógio na mesinha de cabeceira e prendendo-o no pulso. Patek Philippe. Herança do avô. Valia uma fortuna. Marcava o tempo que ele nunca tinha. — Investidores importantes. Não posso atrasar.
— Claro.
Aquela palavra. "Claro." Duas sílabas carregadas de tudo que ela não dizia. Claro que você vai trabalhar. Claro que não vai ficar para o café. Claro que os gêmeos vão acordar e perguntar por você e eu vou ter que inventar mais uma desculpa.
Cristian pegou a pasta de couro, o celular, as chaves do carro.
— Volto à noite — disse.
Ele sempre dizia isso. Sempre mentia. Ou talvez não fosse mentira na hora que dizia. Talvez ele realmente acreditasse que voltaria cedo. Mas a noite chegava, o trabalho se acumulava, e quando via já eram dez, onze da noite.
Margo não respondeu. Apenas acenou com a cabeça, a toalha no cabelo começando a desenrolar.
Cristian saiu do quarto e desceu as escadas. A cozinha estava vazia, iluminada pela luz natural que entrava pelas janelas amplas. Dona Célia ainda não chegara. Ele preparou o café sozinho. Expresso forte, sem açúcar. Bebeu em pé, olhando para o jardim através do vidro.
Tudo perfeitamente cuidado. Grama aparada. Flores alinhadas. Piscina cristalina.
Lindo e vazio.
Como a casa. Como o casamento. Como ele.
Cristian enxaguou a xícara, deixou-a na pia e pegou as chaves do carro. A Mercedes estava na garagem, reluzente e impecável. Ele entrou, ajustou o banco, ligou o motor. O som ronronava baixo, poderoso.
Saiu da garagem sem olhar para trás.
A mansão ficou para trás no espelho retrovisor. Imensa. Branca. Silenciosa.
Ele não pensou em Margo subindo para acordar os gêmeos sozinha. Não pensou em Bento perguntando onde estava o papai. Não pensou em Betina chorando no berço esperando o colo que não viria.
Não pensou porque não podia pensar.
Se pensasse, talvez tivesse que admitir que estava falhando. Que o império que construía com as próprias mãos estava custando a única coisa que realmente importava.
Mas ele não admitiu.
Apenas dirigiu.
E a distância entre ele e a família cresceu mais um quilômetro, mais uma hora, mais um dia.
CRISTIAN | Três anos atrás — Primeira NoiteA noite foi infinita.Cristian não dormiu. Nem tentou.Ficou sentado no chão entre os berços, as costas apoiadas na parede fria, os olhos ardendo de cansaço mas incapazes de fechar.Tinha medo.Medo que se dormisse, algo aconteceria. Que Bento sufocaria chorando. Que Betina pararia de respirar e ninguém perceberia. Que acordaria e eles também teriam ido embora, como a mãe.Então vigiou.Bento acordou seis vezes durante a noite.Sempre o mesmo padrão. Grito desesperado. "Mamãe, mamãe, mamãe!" Cristian o pegava no colo, embalava, sussurrava palavras que não consolavam nada. E eventualmente, exausto, Bento vol
CRISTIAN | Três anos atrás — Os GêmeosCristian não sabia como cuidar de bebês.Nunca tinha aprendido.Sempre teve Margo. Sempre teve Dona Célia nos dias em que trabalhava. Sempre teve alguém que sabia o que fazer quando Bento chorava, quando Betina cuspia a comida, quando acordavam de madrugada gritando.Mas agora era só ele.E ele não tinha a menor ideia do que estava fazendo.Voltou do IML com o corpo pesado, a alma destroçada, dirigindo no automático. Quando entrou na mansão, o silêncio o engoliu. A casa nunca tinha parecido tão grande. Tão vazia. Tão morta.Subiu as escadas devagar.<
CRISTIAN | Três anos atrás — Vendo o CorpoCristian deixou os gêmeos com Dona Célia.Ela apareceu na mansão quinze minutos depois que ele ligou, ainda de madrugada. Os olhos inchados, o rosto pálido, as mãos tremendo quando pegou Bento no colo. Ela já sabia. Cristian não precisou dizer nada. Bastou o olhar.— Os meninos ficam comigo — disse ela, a voz engasgada. — Vai. Faz o que precisa fazer.Cristian assentiu.Não conseguia falar.Betina estava no sofá, enrolada numa manta, olhando para a parede. Imóvel. Bento chorava no colo de Dona Célia, repetindo "mamãe" como um mantra quebrado.E Cristian precisava sair dali antes de desmoronar completamente.Precisava ir ao IML.Precisava fazer o reconhecimento oficial do corpo.Corpo.Não conseguia pensar nela como corpo. Era Margo. Ainda era Margo.Mas não era.Não mais.A viagem até o Instituto Médico Legal foi sil
CRISTIAN | Três anos atrás — O TelefoneCristian não soube quanto tempo ficou ajoelhado ao lado da maca.Minutos. Horas. Talvez apenas segundos que pareceram eternidade.O médico eventualmente entrou de novo, tocando seu ombro com gentileza.— Senhor Sabbatini, seus filhos. Eles estão acordados. Estão perguntando pela mãe.A palavra caiu como chumbo.Filhos.Bento e Betina.Órfãos de mãe agora.Por culpa dele.Cristian soltou a mão de Margo devagar, como se o gesto pudesse quebrá-la ainda mais. Beijou os dedos frios dela uma última vez. Levantou-se com dificuldade, as pernas bambas, o corpo inteiro pesado demais.— O corpo dela... — começou, mas a palavra atravancou na garganta. — O que acontece agora?— Precisamos transferi-la para o IML. É procedimento padrão em casos de acidente fatal. — O médico falava com cuidado, como se estivesse lidando com vidro quebrado. — O senhor p
CRISTIAN | Três anos atrás — A Espera Cristian não lembrava de ter dirigido até o hospital. Não lembrava de ter vestido roupa. De ter pegado as chaves. De ter saído de casa. A memória era um borrão de chuva, semáforos vermelhos ignorados, ruas vazias atravessadas em velocidade insana. Lembrava apenas do medo. Medo puro, visceral, do tipo que te paralisa e te move ao mesmo tempo. O estacionamento do Hospital das Clínicas estava quase vazio. Cristian estacionou em qualquer lugar, nem olhou se era vaga ou não. Saiu do carro correndo. A chuva ainda caía, mais fraca agora, mas suficiente para encharcá-lo em segundos. Ele não sentiu. As portas automáticas do pronto-socorro se abriram. Luzes fluorescentes agressivas. Cheiro de desinfetante e sangue. Pessoas espalhadas nas cadeiras de plástico azul. Uma criança
CRISTIAN | Três anos atrás — Ela SaiCristian ficou parado no hall por tempo demais.A porta fechada diante dele. A chuva trovejando lá fora. O silêncio ensurdecedor da casa vazia.Ele olhou para as próprias mãos. Estavam tremendo.Quando tinha sido a última vez que suas mãos tremeram? Quando tinha sido a última vez que sentiu medo de verdade, o tipo de medo que corrói por dentro e sussurra que você cometeu um erro irreparável?Cristian apertou os punhos até as articulações ficarem brancas.Ela ia voltar.Claro que ia voltar.Era só esperar ela se acalmar. Dirigir um pouco. Perceber que estava sendo emocional demais. Margo sempre fazia isso. Exp
Último capítulo