CAPÍTULO 03

CRISTIAN | Três anos atrás — A Briga (Início)

O jantar estava na mesa quando Cristian chegou em casa.

Sete e meia da noite. Cedo, para os padrões dele. Tinha cancelado a última reunião do dia, algo que raramente fazia, porque Margo tinha mandado uma mensagem pela manhã: "Preciso que você jante em casa hoje. Por favor."

Duas palavras que pesavam mais do que pareciam. Por favor. Como se ela tivesse que implorar pela presença do próprio marido.

Cristian estacionou a Mercedes na garagem e ficou sentado por um momento, as mãos ainda no volante, o motor desligado. A casa estava iluminada. Através das janelas amplas da sala de jantar, ele podia ver a mesa posta. Flores no centro. Velas. Pratos de porcelana que usavam apenas em ocasiões especiais.

Não era aniversário de nenhum dos dois. Não era data comemorativa.

Era apenas um jantar.

Ou talvez fosse mais do que isso.

Ele respirou fundo, pegou a pasta e entrou.

Margo estava na cozinha, de costas para ele, mexendo algo no fogão. Usava um vestido simples, azul-escuro, o cabelo preso num coque baixo. Quando ouviu os passos dele, virou-se. Havia algo diferente no rosto dela. Expectativa, talvez. Ou medo disfarçado de esperança.

— Você veio — disse ela, e a surpresa na voz foi como um soco.

— Você pediu.

Cristian deixou a pasta na bancada e afrouxou a gravata. Margo observou o gesto, os olhos seguindo o movimento das mãos dele como se estivesse memorizando.

— Os gêmeos já dormiram? — perguntou ele.

— Dormiram cedo hoje. Dona Célia os cansou no parque.

Silêncio.

Cristian não sabia o que dizer. Conversas com Margo tinham se tornado campos minados. Qualquer palavra podia detonar algo que nenhum dos dois queria enfrentar.

— Preparei risoto — disse ela, quebrando o silêncio. — De cogumelos. O que você gosta.

Gostava. Ele gostava. Mas fazia tanto tempo que não prestava atenção no que comia que não sabia se ainda gostava de alguma coisa.

— Obrigado.

Margo tirou o avental e seguiu para a sala de jantar. Cristian a acompanhou. A mesa estava impecável. Guardanapos de tecido dobrados. Taças de cristal. Duas velas acesas entre eles, as chamas dançando suavemente.

Eles se sentaram.

Margo serviu o risoto em silêncio. Cristian observou as mãos dela, delicadas, se movendo com cuidado. Ela tinha sido pianista antes de casar. Dedos longos, precisos, que criavam melodias que faziam o mundo parar.

Quando foi a última vez que ele a ouvira tocar?

Começaram a comer. O risoto estava perfeito. Cremoso, temperado na medida certa, cogumelos no ponto. Margo sempre cozinhava bem. Mais um talento que ele tinha esquecido de valorizar.

O celular de Cristian vibrou no bolso.

Ele o pegou instintivamente, olhou a tela. E-mail do escritório. Assunto: proposta Richard - contraofertas. Urgente.

— Cristian.

Ele ergueu os olhos. Margo o encarava do outro lado da mesa, as mãos pousadas de cada lado do prato, os dedos entrelaçados como se estivesse rezando.

— Sim?

— Guarda o celular.

Não era um pedido. Era quase uma súplica.

Cristian hesitou. O e-mail podia ser importante. Duzentos milhões de dólares não podiam esperar. Mas algo na expressão de Margo o fez guardar o aparelho. Ele o colocou no bolso interno do paletó e voltou a atenção para ela.

— Pronto. Estou aqui.

— Você está aqui — repetiu Margo, e havia amargura naquelas palavras. — Fisicamente. Mas não está realmente aqui. Entende o que estou dizendo?

Cristian sentiu um aperto no peito. Conhecia esse tom. Era o prelúdio de uma conversa que ele não queria ter.

— Estou jantando com você. Cancelei a última reunião do dia.

— E eu deveria agradecer por isso? — A voz dela subiu levemente. — Por você fazer o mínimo? Por você estar presente numa refeição como se fosse um sacrifício gigantesco?

— Margo, eu trabalho. Muito. Você sabe disso.

— Eu sei — disse ela, largando o garfo com cuidado, mas o som do metal tocando a porcelana ecoou alto demais. — Eu sei que você trabalha. Sei que construiu um império. Sei que é brilhante e dedicado e incansável.

Ela respirou fundo, e Cristian viu os olhos dela brilharem.

— Mas eu não casei com a empresa, Cristian. Casei com você.

As palavras ficaram suspensas no ar entre eles, pesadas como âncoras.

— Isso não é justo — disse Cristian, a voz controlada mas tensa. — Eu trabalho para sustentar essa família. Para que você e os gêmeos tenham tudo. Essa casa, segurança, conforto.

— Temos tudo? — Margo inclinou-se para frente, as mãos espalmadas na mesa. — Temos uma casa enorme onde você nunca está. Temos dinheiro suficiente para comprar qualquer coisa, mas não temos você. Os gêmeos têm tudo, menos o pai.

— Eu estou aqui.

— Não está! — A voz dela rachou. — Você dorme aqui, toma banho aqui, às vezes come aqui. Mas não está realmente presente. Quando foi a última vez que você brincou com Bento? Que pegou Betina no colo? Que ficou cinco minutos sem pensar no trabalho?

Cristian apertou o maxilar. Sentia raiva subindo, quente e defensiva.

— Você acha que é fácil? Você acha que eu gosto de trabalhar até tarde? Que eu não queria estar aqui?

— Então por que não está?

A pergunta foi disparada como uma flecha certeira.

Cristian não tinha resposta. Ou tinha, mas não sabia como colocar em palavras sem soar como um monstro: porque estar aqui dói. Porque olhar para vocês me lembra que estou falhando. Porque é mais fácil controlar números do que emoções.

— Não é tão simples assim — disse ele, a voz baixa.

— Deveria ser — respondeu Margo, e agora as lágrimas escorriam livremente pelo rosto dela. — Deveria ser a coisa mais simples do mundo. Estar com sua família. Querer estar aqui. Sentir falta de nós quando não está.

— Eu sinto falta.

— Sente? — Ela limpou o rosto com as costas da mão. — Então por que quando está aqui parece que está preso? Por que quando os gêmeos chamam você, você sai da sala? Por que você não me toca mais?

Cristian fechou os olhos. Cada acusação era uma verdade que ele tinha evitado encarar.

— Eu não sei o que você quer de mim.

— Quero você! — A voz de Margo explodiu. — Quero meu marido de volta. Quero o homem que me fazia rir. Que ficava acordado a noite inteira conversando comigo. Que sonhava alto. Que me olhava como se eu fosse a única pessoa no mundo.

— Eu cresci, Margo. A vida mudou. Tenho responsabilidades.

— E eu não sou uma delas? — Ela se levantou da cadeira, tremendo. — Os seus filhos não são?

Cristian também se levantou, a cadeira arrastando no chão com um som áspero.

— Claro que são. Tudo que eu faço é por vocês.

— Não é! — Margo bateu a mão na mesa, fazendo as taças tremerem. — Você faz pelo seu ego. Pela sua necessidade de provar que é o melhor. Você não faz isso por nós. Faz por você.

O silêncio que seguiu foi ensurdecedor.

Cristian sentia o coração batendo forte demais, o sangue pulsando nas têmporas. Parte dele sabia que ela estava certa. Parte dele odiava que ela estivesse certa.

— Você não entende a pressão que eu tenho — disse ele, a voz perigosamente baixa.

— E você não entende a solidão — retrucou Margo. — Eu crio dois bebês praticamente sozinha. Acordo de madrugada. Troco fraldas. Acalmo pesadelos. Tudo sozinha. E quando você chega, nem pergunta como foi meu dia.

— Porque você nunca reclama!

— PORQUE EU NÃO QUERO SER MAIS UM FARDO PRA VOCÊ!

A voz dela ecoou pela casa.

Os dois ficaram parados, ofegantes, como boxeadores em cantos opostos do ringue.

E então Margo fez algo que Cristian não esperava.

Ela pegou a bolsa no aparador e as chaves do carro.

— Onde você vai?

— Sair — disse ela, a voz quebrada mas firme. — Vou sair dessa casa. Vou respirar ar que não seja sufocante.

— Margo, é tarde. Os gêmeos...

— OS GÊMEOS ESTÃO DORMINDO! — Ela se virou para ele, o rosto vermelho, os olhos inchados. — Pela primeira vez na sua vida, você vai ter que cuidar deles caso acordem. Você vai ter que ser pai por uma noite.

Cristian deu um passo à frente.

— Não seja ridícula.

E foi essa palavra - ridícula - que selou tudo.

Margo o encarou como se ele tivesse acabado de esfaqueá-la.

— Ridícula — repetiu ela, a voz um sussurro ferido. — Eu sou ridícula por querer meu marido de volta.

— Vou levá-los comigo.

— Margo, não.

Mas ela já subia as escadas.

E Cristian ficou parado na sala de jantar, cercado por velas que ainda queimavam e um jantar que esfriava, sem saber que aquele era o último jantar que fariam juntos.

Sem saber que dali a duas horas, o telefone tocaria.

E o mundo inteiro desabaria.

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