Mundo ficciónIniciar sesiónCRISTIAN | Três anos atrás — Ela Sai
Cristian ficou parado no hall por tempo demais.
A porta fechada diante dele. A chuva trovejando lá fora. O silêncio ensurdecedor da casa vazia.
Ele olhou para as próprias mãos. Estavam tremendo.
Quando tinha sido a última vez que suas mãos tremeram? Quando tinha sido a última vez que sentiu medo de verdade, o tipo de medo que corrói por dentro e sussurra que você cometeu um erro irreparável?
Cristian apertou os punhos até as articulações ficarem brancas.
Ela ia voltar.
Claro que ia voltar.
Era só esperar ela se acalmar. Dirigir um pouco. Perceber que estava sendo emocional demais. Margo sempre fazia isso. Explodia, saía, mas sempre voltava. Sempre.
Ele subiu as escadas devagar, os passos ecoando no vazio.
O quarto dos gêmeos estava de porta aberta. As luzes ainda acesas. Os berços vazios pareciam gritar a ausência. As cobertas jogadas de lado. O ursinho de pelúcia de Bento caído no chão. A naninha rosa de Betina esquecida sobre o trocador.
Cristian entrou e pegou a naninha.
O tecido era macio, desgastado pelo uso. Cheirava a bebê. A leite. A Margo.
Betina não dormia sem aquilo.
Ele olhou para a janela. A chuva escorria pelo vidro em rios desordenados, distorcendo as luzes da rua. Trovões rasgavam o céu em intervalos irregulares. Era o tipo de tempestade que deixava a cidade alagada, que causava acidentes, que fazia pessoas sensatas ficarem em casa.
Mas Margo tinha saído mesmo assim.
Por causa dele.
Cristian sentiu algo apertar no peito. Culpa, talvez. Ou medo disfarçado de culpa.
Ele deveria ter ido atrás dela.
Deveria ter corrido no momento em que viu as luzes do carro desaparecendo. Deveria ter bloqueado a saída da garagem. Deveria ter implorado, gritado, se ajoelhado se fosse necessário.
Mas não tinha feito nada.
Porque o orgulho era um veneno silencioso que matava devagar.
Cristian colocou a naninha de volta no berço e apagou a luz do quarto. Fechou a porta. Foi para o próprio quarto e tirou a roupa molhada. A camisa grudava na pele. O paletó estava encharcado. Ele jogou tudo no cesto de roupa.
O quarto estava frio.
Ou talvez fosse ele que estava frio por dentro.
Deitou-se na cama, do lado dele, e olhou para o lado vazio onde Margo deveria estar. O travesseiro ainda guardava a marca da cabeça dela. O edredom ainda tinha o perfume dela.
Ele fechou os olhos.
Respirou fundo.
Esperou.
A chuva continuava caindo. Cada gota martelando no telhado como uma acusação. Você deixou ela ir. Você deixou ela ir. Você deixou ela ir.
Cristian pegou o celular na mesinha de cabeceira. Nenhuma ligação perdida. Nenhuma mensagem.
Ele digitou.
"Margo, volta pra casa. Por favor."
Enviou.
Os dois riscos azuis apareceram. Mensagem entregue.
Mas ela não visualizou.
Ele esperou cinco minutos olhando para a tela.
Nada.
Ligou.
O telefone chamou uma vez. Duas. Três. Quatro.
Caixa postal.
A voz gravada de Margo, alegre e leve de um tempo em que ainda eram felizes: "Oi, você ligou pra Margo Sabbatini! Não posso atender agora, mas deixa um recado que eu retorno assim que possível."
O bip.
Cristian desligou sem dizer nada.
Não sabia o que dizer.
Desculpa? Volta? Eu estava errado?
Tudo isso parecia pequeno demais diante do que tinha acontecido.
Ele jogou o celular no criado-mudo e cobriu o rosto com as mãos.
Cansado.
Estava tão cansado.
Cansado de trabalhar sem parar. Cansado de brigar. Cansado de ser o vilão na própria história. Cansado de não saber como consertar as coisas que quebrava.
Você não é pai, Cristian. Você é um fantasma que paga as contas.
As palavras de Margo ecoavam na cabeça dele como um mantra cruel.
Eram verdade?
Ele pensou em Bento. No jeito que o menino o olhava quando chegava em casa. Olhos grandes, esperançosos, sempre esperando que desta vez o pai ficasse. Sempre desapontado quando Cristian subia direto para o escritório.
Pensou em Betina. Na risada dela que ele ouvia às vezes do andar de cima, enquanto trabalhava. Uma risada cristalina, perfeita. Ele não lembrava da última vez que tinha feito a filha rir.
Não lembrava porque nunca tinha feito.
Margo estava certa.
Ele era um fantasma.
Presente fisicamente. Ausente em tudo que importava.
Cristian se levantou da cama. Não conseguia ficar parado. Foi até a janela e olhou para fora. A chuva caía sem piedade. A rua estava vazia. Nenhum carro. Nenhuma luz além dos postes que iluminavam o condomínio.
Onde ela estava?
Hotel, talvez. Ou na casa da mãe dela, Elisa. A sogra que o odiava desde o dia do casamento. Que sempre disse que ele não era bom o suficiente para Margo. Que sempre soube que ele colocaria o trabalho na frente da família.
Elisa estaria adorando isso.
"Eu avisei, Margo. Avisei que esse homem ia te destruir."
Cristian socou o batente da janela com força.
A dor explodiu nos dedos, mas ele mal sentiu.
Precisava fazer alguma coisa.
Precisava ir atrás dela.
Mas o orgulho ainda sussurrava: Ela que saiu. Ela que escolheu. Deixa ela perceber o erro.
Cristian pegou o celular de novo.
Digitou.
"Os gêmeos estão bem? Pelo menos me responde isso."
Enviou.
Esperou.
Dois riscos azuis. Mensagem entregue.
Mas ela não leu.
Ele ligou de novo.
Caixa postal de novo.
A terceira vez.
A quarta.
Na quinta tentativa, ele deixou um recado.
— Margo. — A voz dele saiu rouca, quebrada. — Eu sei que você está com raiva. Eu sei que eu errei. Só... volta pra casa. Por favor. Vamos conversar de verdade. Vamos consertar isso. Eu prometo que vou mudar. Prometo que vou tentar. Só volta. Por favor.
Ele desligou.
E odiou o som da própria voz implorando.
Odiou ser fraco.
Odiou precisar dela.
Odiou ter deixado chegar nesse ponto.
Cristian voltou para a cama e deitou de novo. Fechou os olhos. Tentou dormir.
Mas cada trovão lá fora o fazia abrir os olhos de novo.
Cada flash de luz o fazia imaginar o carro dela deslizando na estrada molhada.
Cada minuto que passava sem resposta era uma tortura.
Três da manhã.
Três e quinze.
Três e meia.
Ele pegou o celular pela décima vez.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação perdida.
Nada.
Cristian se sentou na cama, o coração começando a bater mais rápido.
Algo estava errado.
Margo estava com raiva, mas não era cruel. Ela não o faria sofrer assim de propósito. Não quando se tratava dos gêmeos. Ela mandaria uma mensagem pelo menos dizendo que eles estavam seguros.
Mas não tinha mandado nada.
Ele ligou de novo.
Caixa postal.
De novo.
Caixa postal.
De novo.
"Oi, você ligou pra Margo Sabbatini..."
— ATENDE! — Cristian gritou para o vazio do quarto. — ATENDE, PORRA!
Mas ela não atendeu.
E então, às três e quarenta e sete da manhã, o telefone tocou.
Cristian atendeu antes do segundo toque.
— Margo?
— Aqui é o Sargento Costa, da Polícia Militar. — Uma voz masculina, grave, cansada. — Estou falando com o senhor Cristian Sabbatini?
O mundo parou.
Cada som desapareceu. A chuva. Os trovões. A própria respiração.
— Sim.
— Senhor, preciso que o senhor se mantenha calmo. Houve um acidente. Um veículo registrado no seu nome, dirigido por uma mulher identificada como Margo Valadares Sabbatini.
Não.
— Onde? Ela está bem? Os gêmeos...
— Senhor, preciso que o senhor venha até o Hospital das Clínicas imediatamente. O senhor pode dirigir ou precisa de uma viatura?
— EU VOU. — Cristian já estava se levantando, procurando calça, camisa, sapatos. — Eu vou agora. Eles estão bem? Meus filhos estão bem?
Silêncio do outro lado.
Um silêncio que durou uma eternidade.
— Senhor, é melhor o senhor vir rápido.
A ligação caiu.
E Cristian soube.
No fundo, onde a verdade mora antes das palavras conseguirem alcançá-la, ele soube.
Que tinha perdido.
Que tinha esperado demais.
Que deveria ter corrido atrás dela.
Mas não correu.
E agora era tarde demais.







