Mundo de ficçãoIniciar sessãoCRISTIAN | Três anos atrás — A Espera
Cristian não lembrava de ter dirigido até o hospital. Não lembrava de ter vestido roupa. De ter pegado as chaves. De ter saído de casa. A memória era um borrão de chuva, semáforos vermelhos ignorados, ruas vazias atravessadas em velocidade insana. Lembrava apenas do medo. Medo puro, visceral, do tipo que te paralisa e te move ao mesmo tempo. O estacionamento do Hospital das Clínicas estava quase vazio. Cristian estacionou em qualquer lugar, nem olhou se era vaga ou não. Saiu do carro correndo. A chuva ainda caía, mais fraca agora, mas suficiente para encharcá-lo em segundos. Ele não sentiu. As portas automáticas do pronto-socorro se abriram. Luzes fluorescentes agressivas. Cheiro de desinfetante e sangue. Pessoas espalhadas nas cadeiras de plástico azul. Uma criança chorando. Um homem com a cabeça enfaixada. Uma mulher rezando baixinho. Cristian foi direto ao balcão. — Margo Sabbatini. Deram entrada agora. Acidente de carro. A atendente, uma mulher de uns cinquenta anos com olheiras profundas, digitou algo no computador. — Nome completo? — Margo Valadares Sabbatini. — A voz dele saiu firme, mas as mãos tremiam apoiadas no balcão. Mais digitação. O silêncio era insuportável. — Ela está sendo atendida — disse a mulher, sem erguer os olhos da tela. — O senhor é... — Marido. Sou o marido. E os gêmeos? Vieram duas crianças com ela. Bento e Betina. A mulher franziu a testa, conferindo algo. — As crianças estão em observação. Ala pediátrica. Segundo andar. Algo se afrouxou no peito de Cristian. As crianças estavam vivas. Estavam sendo atendidas. — E minha esposa? A atendente o olhou pela primeira vez. Havia algo naquele olhar. Pena, talvez. — O médico vai falar com o senhor em breve. Por favor, aguarde na sala de espera. — Eu quero ver ela. — Senhor... — EU QUERO VER MINHA ESPOSA! A voz dele ecoou pelo corredor. Algumas pessoas viraram para olhar. A atendente não se abalou. — Ela está em atendimento de emergência. O senhor não pode entrar. Assim que houver alguma informação, o médico vem falar com o senhor. — Ela apontou para um corredor à esquerda. — Sala de espera ali. Alguém vai chamá-lo. Cristian quis gritar. Quis virar a mesa. Quis exigir. Mas não fez nada disso. Apenas assentiu e caminhou até a sala de espera. O ambiente era pequeno, claustrofóbico. Paredes brancas. Cadeiras de plástico enfileiradas. Uma televisão desligada num canto. Uma máquina de café que provavelmente não funcionava. Um relógio na parede marcando quatro e doze da manhã. Cristian se sentou. Levantou. Sentou de novo. As mãos tremiam. Ele as enfiou nos bolsos. Tentou respirar fundo, mas o ar não chegava direito aos pulmões. Ela está bem. Tem que estar bem. As crianças estão bem, então ela também está. Mas a voz da atendente ecoava na cabeça. O médico vai falar com o senhor em breve. Por que o médico precisava falar com ele? Se Margo estivesse bem, ela mesma viria. Estaria gritando com ele. Chorando. Pedindo explicações. Qualquer coisa menos esse silêncio terrível. Cristian pegou o celular. Tentou ligar para Margo de novo. Desligado. O aparelho dela devia ter quebrado no acidente. Ele pensou em ligar para alguém. Para quem? Dona Célia? Elisa, a sogra? Não. Elisa o mataria. E com razão. Cristian guardou o celular e pressionou as palmas das mãos contra os olhos. Não podia chorar. Chorar era admitir que havia algo pelo que chorar. E não havia. Margo estava bem. Tinha que estar. Passos no corredor. Cristian ergueu a cabeça. Um policial entrou na sala. Jovem, uniforme molhado, expressão cansada. — Senhor Sabbatini? — Sim. — Sargento Costa. Falei com o senhor ao telefone. Cristian se levantou. — O que aconteceu? Onde estava o carro? O sargento tirou um bloquinho do bolso. — Rodovia dos Bandeirantes, próximo ao quilômetro quinze. A pista estava molhada. Segundo testemunhas, o veículo perdeu o controle numa curva. Bateu na mureta de proteção lateral. Cristian sentiu o chão oscilar. — Velocidade? — Não aparentava estar em alta velocidade. Provavelmente aquaplanou. A chuva estava muito forte. Aquaplanou. Por causa da chuva. A chuva que Cristian viu caindo quando Margo saiu. A chuva que ele devia ter usado como motivo para impedi-la de sair. Mas não impediu. — As crianças? — perguntou Cristian, a voz rouca. — Estavam nas cadeirinhas no banco de trás. Protegidas. Escoriações leves. Susto. Mas nada grave. O senhor pode vê-las assim que os médicos liberarem. — E minha esposa? O sargento desviou o olhar. — Ela não usava cinto, senhor. O mundo parou. — O quê? — Provavelmente tirou o cinto para alcançar algo no banco de trás. As crianças estavam chorando. Ela deve ter se virado para acalmá-las e perdeu o controle do veículo. Não. — No impacto, ela foi... — O sargento limpou a garganta. — Foi projetada contra o volante. Trauma craniano. Os paramédicos fizeram o possível no local, mas... — Mas o quê? — Ela chegou aqui em estado crítico, senhor. Crítico. A palavra ecoou. Crítico não era morto. Crítico significava que ainda havia chance. — Onde ela está? — Cristian deu um passo em direção ao sargento. — Leva eu até ela. — Senhor, o médico vai... — AGORA! O sargento recuou, assustado com a explosão. Antes que pudesse responder, outra voz cortou o ar. — Senhor Sabbatini? Cristian se virou. Um médico estava parado na porta. Jovem, talvez trinta e poucos anos. Jaleco branco com manchas de sangue. Olheiras profundas. Estetoscópio pendurado no pescoço. E nos olhos dele, Cristian viu. Viu antes das palavras. Viu no jeito que o médico respirou fundo antes de falar. Viu na forma como ele entrelaçou as mãos na frente do corpo. Viu na pena que transbordava daquele olhar cansado. — Não — sussurrou Cristian. O médico deu um passo à frente. — Senhor, lamento... — NÃO! — Fizemos tudo que estava ao nosso alcance. A equipe... — Ela não pode estar morta. — Cristian balançou a cabeça, recuando. — Ela saiu de casa há três horas. Três horas! Ela estava com raiva, mas ela estava bem. Ela estava VIVA. — Senhor Sabbatini, sinto muito. — A voz do médico era gentil, mas cada palavra era uma punhalada. — O trauma foi extenso. Fizemos reanimação por quarenta minutos. Tentamos tudo. Mas o corpo dela não respondeu. Corpo. Corpo. Não ela. Corpo. Cristian sentiu as pernas cederem. O sargento o segurou pelo braço, impedindo-o de cair. — Eu preciso vê-la — disse Cristian, a voz saindo quebrada, irreconhecível. O médico hesitou. — Senhor, talvez seja melhor... — EU PRECISO VER MINHA ESPOSA! O grito saiu do fundo da alma. O médico assentiu lentamente. — Vou levá-lo até ela. O corredor até a sala de emergência foi o mais longo da vida de Cristian. Cada passo era pesado. Cada respiração doía. E quando o médico abriu a porta de uma sala pequena, fria, iluminada por luzes brancas demais, Cristian viu. Margo. Deitada numa maca. Olhos fechados. Pele pálida demais. Imóvel. Tão absurdamente imóvel. Cristian entrou devagar. O médico e o sargento ficaram do lado de fora, dando espaço. Ele se aproximou. Tocou a mão dela. Fria. Tão fria. — Margo. — A voz dele saiu num sussurro quebrado. — Desculpa. Desculpa. Desculpa. Mas ela não respondeu. Nunca mais responderia. E Cristian finalmente entendeu o que tinha feito. Finalmente entendeu que o orgulho, o trabalho, a distância... tudo tinha um preço. E ele tinha acabado de pagar com a vida da mulher que amava. Com a mãe dos seus filhos. Com a única pessoa que ainda acreditava nele. Cristian se ajoelhou ao lado da maca. Segurou a mão fria de Margo contra o rosto. E chorou. Chorou como nunca tinha chorado na vida. Porque agora não havia mais tempo. Não havia mais amanhã. Não havia mais chance de consertar. Só havia o silêncio. E a culpa. A culpa que o devoraria todos os anos que ainda estavam por vir.






