CAPÍTULO 06

CRISTIAN | Três anos atrás — A Espera

Cristian não lembrava de ter dirigido até o hospital.

Não lembrava de ter vestido roupa. De ter pegado as chaves. De ter saído de casa. A memória era um borrão de chuva, semáforos vermelhos ignorados, ruas vazias atravessadas em velocidade insana.

Lembrava apenas do medo.

Medo puro, visceral, do tipo que te paralisa e te move ao mesmo tempo.

O estacionamento do Hospital das Clínicas estava quase vazio. Cristian estacionou em qualquer lugar, nem olhou se era vaga ou não. Saiu do carro correndo. A chuva ainda caía, mais fraca agora, mas suficiente para encharcá-lo em segundos.

Ele não sentiu.

As portas automáticas do pronto-socorro se abriram. Luzes fluorescentes agressivas. Cheiro de desinfetante e sangue. Pessoas espalhadas nas cadeiras de plástico azul. Uma criança chorando. Um homem com a cabeça enfaixada. Uma mulher rezando baixinho.

Cristian foi direto ao balcão.

— Margo Sabbatini. Deram entrada agora. Acidente de carro.

A atendente, uma mulher de uns cinquenta anos com olheiras profundas, digitou algo no computador.

— Nome completo?

— Margo Valadares Sabbatini. — A voz dele saiu firme, mas as mãos tremiam apoiadas no balcão.

Mais digitação.

O silêncio era insuportável.

— Ela está sendo atendida — disse a mulher, sem erguer os olhos da tela. — O senhor é...

— Marido. Sou o marido. E os gêmeos? Vieram duas crianças com ela. Bento e Betina.

A mulher franziu a testa, conferindo algo.

— As crianças estão em observação. Ala pediátrica. Segundo andar.

Algo se afrouxou no peito de Cristian. As crianças estavam vivas. Estavam sendo atendidas.

— E minha esposa?

A atendente o olhou pela primeira vez. Havia algo naquele olhar. Pena, talvez.

— O médico vai falar com o senhor em breve. Por favor, aguarde na sala de espera.

— Eu quero ver ela.

— Senhor...

— EU QUERO VER MINHA ESPOSA!

A voz dele ecoou pelo corredor. Algumas pessoas viraram para olhar. A atendente não se abalou.

— Ela está em atendimento de emergência. O senhor não pode entrar. Assim que houver alguma informação, o médico vem falar com o senhor. — Ela apontou para um corredor à esquerda. — Sala de espera ali. Alguém vai chamá-lo.

Cristian quis gritar. Quis virar a mesa. Quis exigir.

Mas não fez nada disso.

Apenas assentiu e caminhou até a sala de espera.

O ambiente era pequeno, claustrofóbico. Paredes brancas. Cadeiras de plástico enfileiradas. Uma televisão desligada num canto. Uma máquina de café que provavelmente não funcionava. Um relógio na parede marcando quatro e doze da manhã.

Cristian se sentou.

Levantou.

Sentou de novo.

As mãos tremiam. Ele as enfiou nos bolsos.

Tentou respirar fundo, mas o ar não chegava direito aos pulmões.

Ela está bem. Tem que estar bem. As crianças estão bem, então ela também está.

Mas a voz da atendente ecoava na cabeça. O médico vai falar com o senhor em breve.

Por que o médico precisava falar com ele?

Se Margo estivesse bem, ela mesma viria. Estaria gritando com ele. Chorando. Pedindo explicações. Qualquer coisa menos esse silêncio terrível.

Cristian pegou o celular. Tentou ligar para Margo de novo.

Desligado.

O aparelho dela devia ter quebrado no acidente.

Ele pensou em ligar para alguém. Para quem? Dona Célia? Elisa, a sogra? Não. Elisa o mataria. E com razão.

Cristian guardou o celular e pressionou as palmas das mãos contra os olhos.

Não podia chorar.

Chorar era admitir que havia algo pelo que chorar.

E não havia.

Margo estava bem.

Tinha que estar.

Passos no corredor.

Cristian ergueu a cabeça. Um policial entrou na sala. Jovem, uniforme molhado, expressão cansada.

— Senhor Sabbatini?

— Sim.

— Sargento Costa. Falei com o senhor ao telefone.

Cristian se levantou.

— O que aconteceu? Onde estava o carro?

O sargento tirou um bloquinho do bolso.

— Rodovia dos Bandeirantes, próximo ao quilômetro quinze. A pista estava molhada. Segundo testemunhas, o veículo perdeu o controle numa curva. Bateu na mureta de proteção lateral.

Cristian sentiu o chão oscilar.

— Velocidade?

— Não aparentava estar em alta velocidade. Provavelmente aquaplanou. A chuva estava muito forte.

Aquaplanou.

Por causa da chuva.

A chuva que Cristian viu caindo quando Margo saiu.

A chuva que ele devia ter usado como motivo para impedi-la de sair.

Mas não impediu.

— As crianças? — perguntou Cristian, a voz rouca.

— Estavam nas cadeirinhas no banco de trás. Protegidas. Escoriações leves. Susto. Mas nada grave. O senhor pode vê-las assim que os médicos liberarem.

— E minha esposa?

O sargento desviou o olhar.

— Ela não usava cinto, senhor.

O mundo parou.

— O quê?

— Provavelmente tirou o cinto para alcançar algo no banco de trás. As crianças estavam chorando. Ela deve ter se virado para acalmá-las e perdeu o controle do veículo.

Não.

— No impacto, ela foi... — O sargento limpou a garganta. — Foi projetada contra o volante. Trauma craniano. Os paramédicos fizeram o possível no local, mas...

— Mas o quê?

— Ela chegou aqui em estado crítico, senhor.

Crítico.

A palavra ecoou.

Crítico não era morto.

Crítico significava que ainda havia chance.

— Onde ela está? — Cristian deu um passo em direção ao sargento. — Leva eu até ela.

— Senhor, o médico vai...

— AGORA!

O sargento recuou, assustado com a explosão.

Antes que pudesse responder, outra voz cortou o ar.

— Senhor Sabbatini?

Cristian se virou.

Um médico estava parado na porta. Jovem, talvez trinta e poucos anos. Jaleco branco com manchas de sangue. Olheiras profundas. Estetoscópio pendurado no pescoço.

E nos olhos dele, Cristian viu.

Viu antes das palavras.

Viu no jeito que o médico respirou fundo antes de falar.

Viu na forma como ele entrelaçou as mãos na frente do corpo.

Viu na pena que transbordava daquele olhar cansado.

— Não — sussurrou Cristian.

O médico deu um passo à frente.

— Senhor, lamento...

— NÃO!

— Fizemos tudo que estava ao nosso alcance. A equipe...

— Ela não pode estar morta. — Cristian balançou a cabeça, recuando. — Ela saiu de casa há três horas. Três horas! Ela estava com raiva, mas ela estava bem. Ela estava VIVA.

— Senhor Sabbatini, sinto muito. — A voz do médico era gentil, mas cada palavra era uma punhalada. — O trauma foi extenso. Fizemos reanimação por quarenta minutos. Tentamos tudo. Mas o corpo dela não respondeu.

Corpo.

Corpo.

Não ela.

Corpo.

Cristian sentiu as pernas cederem.

O sargento o segurou pelo braço, impedindo-o de cair.

— Eu preciso vê-la — disse Cristian, a voz saindo quebrada, irreconhecível.

O médico hesitou.

— Senhor, talvez seja melhor...

— EU PRECISO VER MINHA ESPOSA!

O grito saiu do fundo da alma.

O médico assentiu lentamente.

— Vou levá-lo até ela.

O corredor até a sala de emergência foi o mais longo da vida de Cristian.

Cada passo era pesado.

Cada respiração doía.

E quando o médico abriu a porta de uma sala pequena, fria, iluminada por luzes brancas demais, Cristian viu.

Margo.

Deitada numa maca.

Olhos fechados.

Pele pálida demais.

Imóvel.

Tão absurdamente imóvel.

Cristian entrou devagar.

O médico e o sargento ficaram do lado de fora, dando espaço.

Ele se aproximou.

Tocou a mão dela.

Fria.

Tão fria.

— Margo. — A voz dele saiu num sussurro quebrado. — Desculpa. Desculpa. Desculpa.

Mas ela não respondeu.

Nunca mais responderia.

E Cristian finalmente entendeu o que tinha feito.

Finalmente entendeu que o orgulho, o trabalho, a distância... tudo tinha um preço.

E ele tinha acabado de pagar com a vida da mulher que amava.

Com a mãe dos seus filhos.

Com a única pessoa que ainda acreditava nele.

Cristian se ajoelhou ao lado da maca.

Segurou a mão fria de Margo contra o rosto.

E chorou.

Chorou como nunca tinha chorado na vida.

Porque agora não havia mais tempo.

Não havia mais amanhã.

Não havia mais chance de consertar.

Só havia o silêncio.

E a culpa.

A culpa que o devoraria todos os anos que ainda estavam por vir.

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