Mundo de ficçãoIniciar sessãoCRISTIAN | Três anos atrás — A Briga
Cristian subiu as escadas atrás dela.
Cada passo era pesado, carregado de raiva e algo mais perigoso que ele não conseguia nomear. Margo já estava no quarto dos gêmeos quando ele chegou ao topo. A porta estava entreaberta. Ele podia ouvi-la movendo-se lá dentro, abrindo gavetas, murmurando palavras suaves para não assustar as crianças.
Ele empurrou a porta.
Margo estava inclinada sobre o berço de Betina, pegando a menina no colo com cuidado. A criança se mexeu, choramingando baixinho, mas não acordou completamente. Do outro berço, Bento dormia com o polegar na boca, alheio ao caos que se desenrolava ao redor dele.
— O que você está fazendo? — A voz de Cristian saiu mais dura do que pretendia.
Margo não olhou para ele. Apenas ajeitou Betina contra o ombro e foi até o armário, pegando um casaco pequeno.
— Estou levando meus filhos para um lugar onde não precisem sentir essa tensão.
— Eles estão dormindo. Não estão sentindo nada.
— Crianças sentem tudo, Cristian. — Agora ela o encarou, e havia algo selvagem naquele olhar. Desespero. Determinação. — Elas sentem quando os pais não se amam mais. Sentem quando a casa está fria. Sentem cada palavra não dita, cada toque que não acontece.
Cristian cerrou os punhos.
— Você está sendo irracional.
— Irracional. — Margo repetiu a palavra como se estivesse provando veneno. — Primeiro ridícula, agora irracional. Que mais, Cristian? Histérica? Louca?
— Não coloque palavras na minha boca.
— Não preciso. Você já disse tudo que precisava. — Ela vestiu o casaquinho em Betina, os movimentos rápidos, quase violentos na urgência. — Você deixou bem claro o que pensa de mim. Do nosso casamento. Desta família.
— Você está distorcendo tudo.
— ESTOU? — A voz dela subiu, e Betina se mexeu, chorando baixinho. Margo imediatamente baixou o tom, embalando a menina. — Estou distorcendo quando você passa dezesseis horas por dia no escritório? Quando não janta em casa há semanas? Quando os seus filhos te veem menos do que veem a babá?
— EU TRABALHO PARA VOCÊS!
O grito de Cristian ecoou no quarto. Bento se assustou e acordou, sentando no berço com os olhos arregalados e assustados. Começou a chorar.
Cristian sentiu algo quebrar dentro dele. Culpa. Raiva de si mesmo. Mas era tarde demais para recuar.
Margo pegou Bento no colo também, equilibrando os dois gêmeos contra o corpo. Eles choravam baixinho, confusos, agarrando-se à mãe.
— Não grite com eles aqui — disse ela, a voz trêmula mas firme.
— Eu não gritei com eles. Gritei com você.
— É a mesma coisa! — Lágrimas escorriam pelo rosto de Margo agora, mas ela não as limpou. Não podia. As mãos estavam ocupadas segurando os bebês. — Eles ouvem. Eles sentem. E um dia vão crescer achando que casamento é isso. Silêncio. Distância. Dois estranhos dividindo uma casa.
As palavras acertaram Cristian como socos.
Porque eram verdade.
Tudo que ela dizia era verdade, e ele odiava isso. Odiava que ela tivesse razão. Odiava que ele não soubesse como consertar. Odiava que a única coisa que sabia fazer bem era trabalhar, construir, conquistar, mas não sabia como segurar a própria família.
— Margo. — Ele deu um passo à frente, estendendo a mão.
Ela recuou.
— Não toca em mim.
A rejeição foi física. Cristian deixou a mão cair.
— Onde você vai?
— Não sei. Hotel. Casa da minha mãe. Qualquer lugar que não seja aqui.
— Não seja dramática.
E foi nesse momento que Margo o olhou com algo que ele nunca tinha visto antes nos olhos dela.
Pena.
— Dramática — repetiu ela, balançando a cabeça. — Você não vê, vê? Você realmente não enxerga o que está acontecendo. Nosso casamento está morrendo, Cristian. Está morrendo há meses. E você age como se fosse apenas uma fase, como se bastasse trabalhar mais, ganhar mais dinheiro, comprar coisas maiores.
Ela beijou a testa de Bento, depois de Betina.
— Mas não é sobre dinheiro. Nunca foi. É sobre presença. É sobre você escolher estar aqui. E você escolhe tudo, menos nós.
— Isso não é verdade.
— Quando foi a última vez que você brincou com eles? — Margo apontou para os gêmeos com o queixo. — Quando foi a última vez que deu banho, trocou fralda, ficou acordado de madrugada porque um deles estava com febre?
Cristian não respondeu.
Porque não conseguia lembrar.
— Exatamente — disse Margo, e havia tanta tristeza naquela palavra que doeu mais do que qualquer grito. — Você não consegue lembrar. Porque não estava aqui. Nunca está.
Ela passou por ele, carregando os dois bebês. Cristian a seguiu até o corredor.
— Margo, espera.
— Não. — Ela desceu as escadas com cuidado, os gêmeos agarrados a ela. — Eu esperei. Esperei você mudar. Esperei você perceber o que estava perdendo. Esperei até não ter mais nada dentro de mim pra dar.
Ela chegou ao hall de entrada. Pegou a bolsa que tinha deixado no aparador. As chaves do carro.
Cristian desceu atrás dela, o coração disparado.
— Não leva eles. Está chovendo. É tarde.
— E você se importa agora? — Margo o encarou, e havia fogo naquele olhar. — Agora que estou saindo, agora você liga pro bem-estar deles?
— Sempre me importei!
— MENTIRA! — A voz dela rachou. — Se você se importasse, estaria aqui. Se você se importasse, saberia que Bento tem medo de trovão. Que Betina não dorme sem a naninha rosa. Que eles pedem por você todas as noites antes de dormir e eu tenho que inventar desculpas porque você nunca, NUNCA está aqui pra dar boa noite.
Os gêmeos choravam mais alto agora, assustados com a voz alterada da mãe. Margo os embalou, fazendo sons calmantes, mas as próprias lágrimas continuavam caindo.
— Você não é pai, Cristian. Você é um fantasma que paga as contas.
A frase atravessou como lâmina.
Cristian sentiu raiva explodir dentro dele. Raiva dela por estar certa. Raiva de si mesmo por deixar chegar nesse ponto. Raiva de tudo.
— Então vai — disse ele, a voz fria como gelo. — Vai embora. Mas não volta aqui chorando quando perceber que não é tão fácil assim. Que criar filhos sozinha não é essa maravilha toda.
Margo o encarou por um longo momento.
E então sorriu.
Mas era um sorriso triste, quebrado, sem luz.
— Eu já crio eles sozinha, Cristian. Você só não percebeu ainda.
Ela abriu a porta.
A chuva caía forte lá fora. O som era ensurdecedor, batendo no telhado, nas janelas, no chão. Raios iluminavam o céu em flashes brancos e violentos.
— Margo, pelo menos espera a chuva passar.
Ela não respondeu.
Apenas saiu.
Cristian ficou parado na soleira, vendo-a ir até o carro com os gêmeos protegidos contra o peito. A chuva a encharcou em segundos. Ela abriu a porta traseira, colocou Bento e Betina nas cadeirinhas com pressa. As crianças choravam.
Ele deu um passo para fora.
— MARGO!
Ela não olhou para trás.
Entrou no carro. Ligou o motor. As luzes traseiras acenderam, vermelhas e brilhantes na escuridão.
E então ela saiu.
Cristian ficou ali, na chuva, vendo as luzes desaparecerem na curva da estrada.
Parte dele gritava para correr atrás. Para pedir desculpas. Para implorar que voltasse.
Mas o orgulho era mais forte.
O orgulho e a certeza estúpida de que ela voltaria. Que era só uma birra. Que de manhã estaria tudo bem.







