CAPÍTULO 02

CRISTIAN | Três anos atrás — A Tensão

A reunião começou às sete em ponto e não terminou.

Cristian sabia que deveria ter avisado. Sabia que Margo estaria esperando com o jantar pronto, os gêmeos já dormindo, a casa mergulhada naquele silêncio pesado que sempre precedia as brigas que eles nunca tinham. Mas quando estava imerso em números, projeções, estratégias de expansão que podiam mudar o jogo completamente, o tempo simplesmente deixava de existir.

Ou ele fingia que deixava.

A sala de reuniões no quadragésimo andar do edifício empresarial tinha janelas do chão ao teto. São Paulo se estendia lá embaixo como um organismo vivo feito de luzes e concreto. Cristian amava aquela vista. Amava a sensação de estar acima de tudo, comandando, decidindo, construindo.

Do outro lado da mesa envidraçada, três homens de terno observavam-no com expressões calculadas. Investidores do Vale do Silício. Americanos acostumados a negociar em dólares e a tratar startups brasileiras como apostas arriscadas. Cristian tinha passado as últimas quatro horas provando que a Sabbatini Enterprises não era uma aposta. Era uma certeza.

— Impressionante — disse o mais velho deles, um homem de cabelos grisalhos e sorriso afiado de tubarão. Richard alguma coisa. Sobrenome que Cristian esqueceria na semana seguinte. — Você tem vinte e nove anos e já construiu o terceiro unicórnio de tecnologia mais valioso do Brasil. Talento nato.

Cristian inclinou a cabeça, aceitando o elogio sem sorrir. Não sorria em reuniões. Sorrisos demonstravam emoção, e emoção era fraqueza.

— Talento é dez por cento — respondeu, a voz grave e controlada. — Os outros noventa são trabalho.

— E obsessão — completou Richard, os olhos estreitando. — Li sobre você. Dorme quatro horas por noite. Trabalha fins de semana. Não tira férias há três anos.

— Férias são para quem pode perder tempo.

Richard riu, mas era um som sem humor.

— Cuidado, Sabbatini. Talento sem equilíbrio vira autodestruição.

Cristian não respondeu. Apenas esperou. Sabia que homens como Richard adoravam dar conselhos não solicitados antes de chegarem ao que realmente importava: dinheiro.

E dinheiro sempre vinha com condições.

— Estou oferecendo duzentos milhões de dólares — disse Richard, apoiando os cotovelos na mesa e entrelaçando os dedos. — Investimento direto. Participação minoritária. Mas com duas condições.

Duzentos milhões de dólares.

O número pairou no ar como uma promessa e uma armadilha ao mesmo tempo.

Com duzentos milhões, a Sabbatini Enterprises poderia expandir para América Latina inteira. Abrir escritórios em Buenos Aires, Santiago, Cidade do México. Contratar os melhores talentos. Multiplicar receita por cinco em dezoito meses.

Era o tipo de proposta que mudava tudo.

— Quais condições? — perguntou Cristian, mantendo a voz neutra.

— Primeira: quero veto em aquisições acima de cinquenta milhões. Segunda: você me dá um assento no conselho.

Controle.

Era sempre sobre controle.

Cristian estudou o homem do outro lado da mesa. Richard não era idiota. Sabia que a Sabbatini Enterprises valia mais do que duzentos milhões. Mas também sabia que estava em fase de expansão agressiva, e expansão exigia capital. Muito capital.

Era uma jogada inteligente. Oferecer o dinheiro agora, quando a necessidade era real, em troca de influência permanente.

— Vou pensar — disse Cristian, fechando a pasta diante dele com um movimento seco.

Richard sorriu de novo. Aquele sorriso de predador.

— Não pense muito, Sabbatini. Oportunidades assim não batem duas vezes na mesma porta.

A reunião terminou às dez e vinte da noite.

Cristian apertou mãos, trocou cartões, prometeu retorno em setenta e duas horas. Quando finalmente entrou no elevador e as portas de aço se fecharam, deixando-o sozinho com o próprio reflexo embaçado no metal polido, permitiu-se um suspiro.

Duzentos milhões.

Seu celular vibrou no bolso interno do paletó. Cristian o pegou e viu três mensagens de Margo.

18h47: "Jantar vai estar pronto às 19h30. Você consegue chegar?"

20h15: "Os gêmeos perguntaram por você antes de dormir."

21h53: "Esquece. Boa noite."

Algo se contraiu no peito dele. Culpa, talvez. Ou apenas cansaço disfarçado de culpa.

Ele digitou uma resposta rápida.

"Desculpa. Reunião importante. Amanhã compenso."

Enviou e guardou o celular antes que pudesse ver se ela visualizaria ou não.

Amanhã. Sempre amanhã. Como se o amanhã fosse resolver algo que o hoje nunca resolvia.

O estacionamento estava vazio a essa hora. Apenas alguns carros esparsos, seguranças fazendo ronda, o som dos próprios passos ecoando no concreto. Cristian entrou na Mercedes, ajustou o banco, ligou o motor. O painel acendeu com luzes azuladas, elegantes, frias.

Dirigiu pelas ruas desertas de São Paulo com o piloto automático ligado. Conhecia o caminho de cor. Vinte minutos do escritório até a mansão no condomínio fechado. Vinte minutos que deveria usar para desacelerar, para trocar a máquina implacável do trabalho pelo marido e pai que supostamente era.

Mas não desacelerou.

Apenas pensou nos duzentos milhões. Nas possibilidades. Nos riscos. Nas vantagens de ter Richard no conselho versus a perda de autonomia. Calculou projeções mentalmente. Revisou planilhas que memorizara horas antes.

Quando deu por si, já estava entrando no condomínio.

A mansão estava silenciosa quando ele estacionou na garagem. Todas as luzes apagadas, exceto a da cozinha. Margo sempre deixava aquela luz acesa. Um farol solitário no meio da escuridão.

Cristian entrou pela porta lateral e foi direto para a cozinha. Um prato coberto com filme plástico esperava no balcão de mármore. Comida que já devia estar fria há horas. Ele retirou o plástico. Filé ao molho madeira. Purê de batatas. Aspargos grelhados.

Margo tinha cozinhado. Ela sempre cozinhava quando estava tensa, quando precisava fazer algo com as mãos para não enlouquecer.

Cristian comeu em pé, direto do prato, olhando pela janela que dava para o jardim. As luzes externas estavam acesas, iluminando a piscina de água parada, a grama aparada com precisão milimétrica, as flores que uma equipe de jardineiros vinha cuidar duas vezes por semana.

Tudo perfeito.

Tudo morto.

Ele mastigou sem sentir gosto. A comida podia estar deliciosa ou podia estar horrível. Não fazia diferença. Comida era combustível. Apenas isso.

Quando terminou, lavou o prato e o guardou. Deixou a cozinha impecável, sem rastros de que estivera ali. Subiu as escadas no escuro, evitando o terceiro degrau que rangia.

Parou em frente à porta do quarto dos gêmeos.

Sua mão pousou na maçaneta. Fria. Ele a girou devagar, abrindo apenas uma fresta. Luz do corredor invadiu o quarto em forma de linha dourada no chão.

Bento dormia de bruços, os bracinhos abertos, o rosto afundado no travesseiro. Betina estava enrolada no cobertor como um casulo, apenas o rostinho visível, as bochechas rosadas, os cílios longos pousados sobre a pele.

Perfeitos.

Tão perfeitos que doía olhar.

Cristian sentiu algo se apertar na garganta. Amor? Medo? A consciência súbita e aterradora de que estava perdendo tempo que nunca voltaria?

Ele não entrou. Apenas ficou ali, parado na soleira, observando por trinta segundos antes de fechar a porta de novo.

Caminhou até o próprio quarto. Abriu a porta devagar. Margo estava deitada, virada para a parede, o corpo uma forma imóvel sob o edredom. Dormindo ou fingindo dormir. Cristian não tinha certeza.

Não perguntou.

Tirou o terno, pendurou no cabide. Tirou a camisa, a gravata, os sapatos. Tomou um banho, vestiu o pijama e deitou-se do outro lado da cama, mantendo distância.

O espaço entre eles parecia ter temperatura própria. Frio. Vazio. Crescendo a cada noite.

Quando tinham começado a dormir como estranhos? Quando tinham parado de se tocar, de se buscar no meio da noite, de acordar entrelaçados?

Cristian não conseguia lembrar.

E a pior parte era que não sabia se queria lembrar.

Porque lembrar significaria reconhecer o que estava perdendo.

E reconhecer significaria ter que fazer algo a respeito.

Cristian fechou os olhos.

Dormiu.

E sonhou com números.

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