Mundo de ficçãoIniciar sessãoApós a traição devastadora de seu noivo, Mia abandona tudo o que conhecia em busca de um recomeço. Nova cidade, nova casa, novo emprego. Mas, por mais que tente, o passado insiste em persegui-la. É então que seu caminho cruza com o do homem que todos temem: seu chefe. Arrogante, enigmático e inacessível, ele desperta nela uma mistura de repulsa e fascínio. Entre olhares que dizem mais do que palavras e segredos que nenhum dos dois ousa confessar, nasce um sentimento inesperado, capaz de desarmar corações que juravam estar fechados.
Ler maisCheguei a Nova Iorque com uma mala pesada, não apenas de roupas, mas de lembranças que insistiam em acompanhar cada passo meu. A cidade se erguia diante de mim, imponente, cercada por arranha-céus que pareciam tocar o céu cinzento de final de tarde. Cada rua que percorria me lembrava, de forma irônica, que começava uma vida inteiramente diferente daquela que conhecia. A mudança não havia sido simples; não era apenas uma mudança de endereço, mas de tudo o que me definia até então.
Durante três anos, a cidade que deixara para trás foi palco de um relacionamento que, aos poucos, se revelou um labirinto de ilusões. Meu noivado, que acreditava ser sólido e confiável, desmoronou com a descoberta de uma traição que ainda ecoa em minha mente com uma clareza quase cruel. Foram anos de planos, de sonhos compartilhados, de confiança depositada sem reservas, e tudo se dissipou em uma mentira. A sensação de devastação que se seguiu não era apenas emocional, mas física; cada dia era um esforço para me recompor, para encontrar uma direção que não me remetesse constantemente à traição. O emprego anterior, embora promissor, havia se tornado uma rotina dolorosa. A cada reunião, a cada telefonema, recordações inesperadas surgiam, lembrando-me de que a vida que eu imaginava estava, na verdade, vazia. As tarefas que antes me davam orgulho tornaram-se apenas ocupações mecânicas, distrações temporárias de um coração que não encontrava paz. Quando a notícia da traição veio à tona, não houve choque inesperado, mas uma constatação silenciosa e amarga: meu futuro estava prestes a se reconstruir em bases completamente diferentes. A oportunidade de trabalhar em uma grande empresa em Nova Iorque surgiu como um sussurro de esperança em meio ao caos. Um cargo de secretária que, há muito, eu almejava, mas que hesitava em aceitar por conta de dúvidas persistentes sobre minha vida pessoal. Havia a incerteza sobre me afastar de tudo o que conhecia e, principalmente, sobre enfrentar a solidão que se seguia ao fim de um relacionamento tão longo. No entanto, a traição acelerou a decisão; a necessidade de reconstruir-me superou qualquer receio. Aceitei a oferta e planejei a mudança. Meu novo apartamento ficava em uma rua tranquila, afastada do barulho intenso do centro, mas suficientemente próxima para permitir acesso fácil à empresa. As paredes, de tom neutro, ainda carregavam o cheiro da tinta fresca, e o piso polido refletia a luz que entrava pelas janelas amplas. Cada detalhe da nova moradia parecia prometer um reinício: era uma tela em branco, pronta para receber novas histórias, novas experiências. Enquanto desempacotava algumas caixas, sentia a estranha mistura de excitação e apreensão que acompanha todo recomeço. Na manhã da entrevista, acordei com a cidade ainda envolta em uma bruma fina. Caminhei até a janela e observei as ruas começarem a se encher de pedestres apressados, o tráfego aumentando, o som dos ônibus e das buzinas compondo a trilha sonora de um dia que prometia ser decisivo. Vesti-me de forma cuidadosa; o terno discreto, a camisa impecável, o cabelo preso de modo a transmitir organização e profissionalismo. Cada detalhe importava, não apenas pela aparência, mas pelo controle que ainda buscava sobre minha própria vida. Ao sair do prédio, senti a pulsação da cidade. Nova Iorque não era silenciosa; ela não permitia hesitação ou lentidão. Cada passo pelas calçadas parecia um teste de resistência e determinação. Ao me aproximar da empresa, os edifícios se erguiam como gigantes de vidro e aço, refletindo o céu e as construções vizinhas em facetas infinitas. Um misto de respeito e nervosismo me acompanhava, lembrando-me de que aquele espaço não era apenas um local de trabalho, mas o início de uma etapa crucial da minha vida. O edifício da empresa possuía uma entrada ampla, com portas de vidro que se abriam automaticamente. Ao atravessá-las, senti o ar climatizado envolver-me, trazendo uma sensação de ordem quase austera. O hall de entrada era elegante e funcional; o piso de mármore branco contrastava com detalhes em madeira escura e o sutil aroma de café fresco permeava o ambiente. Um recepcionista me cumprimentou com cordialidade, anotando meu nome e informando que o gerente responsável pela entrevista aguardava-me na sala ao fundo. Enquanto caminhava pelos corredores, meus pensamentos inevitavelmente se voltaram para o passado. Cada memorização do que deixara para trás contrastava com o que buscava construir. A traição, ainda recente, permanecia como sombra, mas havia também a percepção clara de que nada do que acontecera poderia ser revertido. A única escolha era avançar, aceitar o desconhecido e confrontar-me com uma realidade que, embora intimidante, prometia oportunidades que antes me pareciam inalcançáveis. A sala de entrevistas era ampla, com paredes de vidro que permitiam visão parcial do ambiente externo. Uma mesa de madeira maciça ocupava o centro, ladeada por cadeiras estofadas. Sentada, aguardei em silêncio, observando cada detalhe, absorvendo a atmosfera de profissionalismo rígido que emanava do espaço. A qualquer momento, meu futuro poderia ser decidido ali, e eu precisava demonstrar não apenas competência, mas a confiança que, por dentro, ainda tentava reconstruir. Quando o gerente finalmente entrou, notei a postura impecável, a expressão séria que parecia intimidar todos ao redor. Não havia sorriso, não havia indício de receptividade além da cordialidade mínima exigida pela etiqueta corporativa. No entanto, a força contida em seus gestos e a clareza em seu olhar transmitiam respeito imediato. Cumprimentei-o com firmeza, sem vacilar, enquanto ele indicava a cadeira à minha frente. O início da entrevista começou com perguntas diretas, centradas em minha experiência anterior, nas competências que eu possuía e nos motivos que me levavam à mudança. Expliquei minha trajetória profissional com precisão, detalhando minhas responsabilidades anteriores e os resultados alcançados. Cada palavra era escolhida com cuidado, pois entendia que qualquer hesitação poderia ser interpretada como fraqueza. Falei sobre minha experiência em organização administrativa, atendimento a clientes, controle de agendas e documentos, e sobre a habilidade em lidar com situações de pressão. A narrativa fluía de forma natural, mesmo que a cada frase eu sentisse o passado insistindo em se sobrepor, lembrando-me de momentos de dor que não haviam desaparecido completamente. Quando perguntei sobre o cargo e suas expectativas, observei uma análise meticulosa em seus olhos. As respostas foram diretas, objetivas, delineando a exigência do cargo e a necessidade de comprometimento absoluto. Compreendi que não se tratava apenas de uma oportunidade de emprego; tratava-se de um desafio que exigiria disciplina, competência e capacidade de adaptação. Ao término da entrevista, agradeci pela oportunidade, mantendo postura firme e expressão serena. A sensação de realização não era imediata, mas havia uma sutil convicção de que, independentemente do resultado, eu havia dado o primeiro passo em direção à reconstrução da minha vida. Ao sair do prédio, o sol já brilhava de maneira tímida entre os prédios altos, criando reflexos dourados sobre as fachadas de vidro. Respirei profundamente, sentindo a cidade pulsar à minha volta, intensa e impessoal, mas ao mesmo tempo repleta de possibilidades. Cada rua que percorria, cada rosto que cruzava, reforçava a consciência de que o passado permanecia, mas não mais me definia. Nova Iorque não apenas oferecia um novo emprego, mas a oportunidade de ressignificar cada aspecto da minha existência, de transformar dor em determinação e de abrir espaço para novas histórias que ainda estavam por vir. Enquanto caminhava de volta ao meu apartamento, os pensamentos se voltavam novamente ao noivado terminado. O que havia sido destruído pela traição não poderia ser reparado, e era necessário aceitar essa realidade com maturidade. A dor ainda existia, mas agora havia a clareza de que o controle sobre minha vida dependia de minhas escolhas, não dos erros alheios. Cada passo que dava em direção ao lar temporário era também um passo em direção a uma versão de mim que ainda estava por se revelar. Ao chegar ao apartamento, deixei minha bolsa sobre a mesa da cozinha e sentei-me por alguns instantes, refletindo sobre a intensidade do dia. A mudança de cidade, a nova residência, o emprego recém-conquistado — tudo era simultaneamente empolgante e intimidante. Contudo, havia uma determinação silenciosa que me acompanhava: a de reconstruir-me, de abraçar o desconhecido e de enfrentar cada desafio com precisão e coragem. A cidade podia ser enorme e impessoal, mas havia algo na energia dela que, de maneira silenciosa, prometia a renovação que eu buscava. Quando percebo, o laptop tocou e um e-mail apareceu na tela. Quando li , o mundo pareceu parar por um instante. Meu coração acelerou, uma mistura de alívio e incredulidade tomou conta de mim. As mãos tremeram ligeiramente ao fechar o laptop, como se eu precisasse tocar a realidade para acreditar. Senti um peso antigo se dissolver, embora as lembranças dolorosas ainda insistissem em permanecer. Um sorriso contido surgiu, tímido, mas carregado de esperança, refletindo a chance de um novo começo. Respirei fundo, sabendo que, na próxima quarta-feira, tudo mudaria, pois seria o meu primeiro dia no novo emprego.O tempo passou mais rápido do que esperávamos e depois que Aurora nasceu, eu entendi que sobreviver não era suficiente. Eu queria viver de verdade. Os primeiros meses foram intensos. Havia noites em claro, choro de bebê às três da manhã, fraldas espalhadas pela casa, mamadeiras esquecidas na mesa da sala. Mas havia algo diferente em mim. Eu não estava apenas reagindo à vida. Eu estava escolhendo. Eu já tinha trabalhado um tempo com Kairos. Aprendi sobre negócios, participei de reuniões, acompanhei decisões importantes. Eu admirava a forma como ele liderava, a segurança que transmitia, a inteligência com que conduzia tudo. Mas, mesmo sendo grata por aquela experiência, havia uma inquietação dentro de mim. Eu sempre amei livros. Sempre amei o silêncio de uma livraria. Sempre amei a sensação de virar uma página e sentir que o mundo podia ser maior do que as circunstâncias. Depois de tudo que eu passei, percebi que se a vida tinha me dado uma segunda chance, eu não podia ignor
Nos dias seguintes, o mundo pareceu descobrir minha vida. As manchetes se espalharam rapidamente. Meu nome. O nome de Kairos. O nome de Victória. Estávamos todos nos jornais. Quando confirmaram que ela estava envolvida, tudo ganhou proporções ainda maiores. Eu vi pela televisão o momento em que ela foi presa. O cabelo impecável. O olhar frio. Como se nada daquilo realmente a tocasse. Depois vieram as descobertas. No apartamento dela encontraram provas. Transferências bancárias para Noah. Conversas comprometedoras. Planejamentos. Na casa dele, mais evidências. Documentos. Registros. Um roteiro meticuloso do que haviam arquitetado. Eu me sentia estranhamente vazia ao assistir às reportagens. Não era alívio. Não era vingança. Era cansaço. Eu estava cansada de ser assunto. Cansada de ser alvo. Cansada de sobreviver. Depois de prestar depoimento e resolver as questões legais, Kairos decidiu que voltaríamos para Nova Iorque. Para casa. O voo foi silencioso. Eu fiquei
O silêncio depois da revelação sobre Victoria ainda pairava no quarto quando algo dentro de mim decidiu fazer a pergunta que eu vinha evitando. Minha garganta estava seca, mas eu precisava saber. — E o meu pai? Noah, que estava encostado na parede com os braços cruzados, ergueu o olhar lentamente. Por um segundo, houve hesitação. Depois, ele respondeu sem rodeios. — Fui eu. A confirmação não trouxe surpresa. Trouxe peso. Meu coração apertou de uma forma diferente daquela que vinha sentindo até então. — Você tentou matar ele? A voz saiu trêmula, mas firme. Ele passou a mão pelo rosto, frustrado. — Eu não queria acabar com a vida dele. Eu só precisava de alguma coisa que te afastasse daquele Playboy. Algo que te abalasse. Algo que te fizesse lembrar de quando era eu quem estava do seu lado. Eu senti indignação subir pelo meu peito. — Você perdeu completamente o controle. Ele se aproximou da cama, os olhos ardendo com uma mistura de obsessão e ressentimento. — Eu estava ce
Na tela estava o rosto que eu conhecia bem demais. Victoria. A imagem parecia recente. Ela estava sentada em um café, elegante como sempre, os olhos frios fixos na câmera como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Não era uma foto tirada às escondidas. Era proposital. Meu estômago se contraiu. — O que ela tem a ver com isso? — minha voz saiu mais firme do que eu realmente me sentia. Noah observava minha reação com atenção quase científica. — Mais do que você imagina — respondeu, bloqueando a tela e guardando o aparelho no bolso. — Ela me deu dinheiro suficiente para desaparecer do mapa. O ar pareceu ficar mais pesado. — Desaparecer? — repeti, tentando organizar os pensamentos. Ele começou a andar pelo quarto, as mãos passando pelos cabelos num gesto inquieto. — Eu a conheci há alguns meses. Ela entrou em contato comigo. Disse que tínhamos interesses em comum. Ele parou e me encarou. — Separar você e Kairos. Meu coração bateu mais forte. Victoria. Claro. O ressen
A primeira sensação que me atravessou não foi o medo. Foi o enjoo. Um gosto amargo subiu pela minha garganta enquanto meu corpo parecia pesado demais para obedecer aos meus comandos. Eu sentia frio, um frio estranho que não vinha apenas do ambiente, mas de dentro, como se meu sangue tivesse desacelerado. Minha cabeça latejava em pulsações irregulares, e por alguns segundos eu não consegui compreender onde estava ou quanto tempo havia passado. Minha visão estava embaçada. Piscava devagar, como se cada movimento exigisse um esforço absurdo. As luzes acima de mim pareciam duplicadas, desfocadas, como manchas amareladas dançando no teto. Respirei fundo, tentando estabilizar a náusea que ameaçava me dominar. O ar tinha cheiro de madeira antiga e poeira. Forcei meus olhos a permanecerem abertos. Aos poucos, as formas começaram a ganhar contorno. O teto baixo. Uma lâmpada pendurada por um fio comprido. Uma parede com a pintura descascada. Uma janela parcialmente coberta por uma cortin
No dia seguinte, acordei com a sensação de que algo estava diferente. Talvez fosse apenas o cansaço emocional da noite anterior. Talvez fosse o peso da notícia sobre Noah ainda pairando no ar, mesmo depois das garantias de Kairos. Ou talvez fosse apenas aquela inquietação inexplicável que às vezes surge sem aviso. Desci para a cozinha ainda de robe, encontrando minha mãe já de pé, organizando algumas coisas sobre a bancada. Ela sorriu quando me viu. — Eu vou preparar uma comida especial para você hoje — disse, com aquele tom carinhoso que sempre me fazia sentir criança outra vez. Eu sorri. — Mãe, você não precisa se preocupar tanto. — Eu sou sua mãe. É exatamente minha função me preocupar. E aliás, quero fazer uma comidinha caseira para você antes de voltar para casa. Em seguida, ela saiu para comprar alguns ingredientes que faltavam. Fiquei na casa, tentando relaxar. Caminhei pela sala, observei as montanhas pela janela, respirei o ar frio da manhã. Uma hora se passou. Meu





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