Mundo de ficçãoIniciar sessãoApós o fim de seu relacionamento e depois de uma vida inteira aprendendo a ser invisível, Lyara aceita o que parece ser apenas um trabalho temporário: tornar-se babá dos filhos de um bilionário americano. A mansão é fria, silenciosa e cheia de regras. O pai das crianças, Don Trevellyan, construiu um império com a mesma precisão com que ergueu muros ao redor de si, e não permite que ninguém atravesse essas barreiras. Mas Lyara não veio para conquistar. Veio para recomeçar. E, sem perceber, ela faz o que ninguém conseguiu: devolve risos à casa, cria vínculos reais com as crianças e quebra a rotina perfeitamente controlada do homem mais poderoso que já conheceu. Don tenta se convencer de que ela é apenas a babá, mas a forma como ela ocupa os espaços, como entende seus filhos, como desafia seu silêncio… tudo o tira do eixo. O desejo surge primeiro como incômodo, depois como necessidade, e logo se transforma em obsessão. Ele pode comprar tudo. Controlar todos. Exceto essa mulher.
Ler maisSentei-me no banco de espera do aeroporto e voltei o meu olhar para o longo vidro à minha frente, que se estendia por todo o segundo andar, dando uma ótima visão dos gigantescos aviões parados na pista de pouso cinzenta.
Mas, ao voltar a minha atenção para aquela direção, eu não consegui me concentrar nas aeronaves lá embaixo, tampouco nas últimas chamadas, que faziam as pessoas correrem de um lado para o outro, em direção aos seus respectivos portões de embarque.
Tudo o que pairava pela minha mente era a palavra “clichê”.
Essa palavrinha maldita conseguia descrever perfeitamente a minha vida no Brasil — ao menos, o que ela se tornou após o término do meu noivado.
Não.
Nós não éramos um casal perfeito — muito longe disso —, mas eu sempre nutri esperanças de que um dia nós pudéssemos nos tornar uma grande família, daquelas dos comerciais de margarina, onde dois adultos felizes são cercados por crianças ainda mais animadas.
E, sim.
Talvez o que mais me quebrou tenha sido o fato de que não houve uma briga ou alguém para culpar. Pedro, o cara com quem eu havia compartilhado os últimos dez anos da minha vida, simplesmente me disse que não queria mais se casar comigo, que não me amava o suficiente para dar um passo tão grande.
Ele não me traiu, não terminou comigo por mensagem de texto. Também não me deu um motivo bom o suficiente para odiá-lo, tornando toda aquela situação mais fácil pra mim.
“Pelo menos, ele não te trocou por outra mulher” dissera-me Maria Luiza, uma amiga nossa, que não conseguia descer do muro para escolher um lado.
Costumamos pensar que não existe nada pior do que ser trocada por outra mulher, por alguém mais jovem, mais bonita ou mais bem-sucedida do que a gente. No entanto, se isso acontecesse, ao menos existiria um motivo para ele ter me deixado. Pedro teria encontrado alguém que considerava melhor do que eu em alguma coisa.
Simples assim.
E, ainda que isso não melhorasse muito as coisas, eu teria no que me agarrar.
No meu caso, fui trocada por nada; era apenas um excesso de bagagem do qual ele se livrou no meio do caminho. Eu não era nada além de um obstáculo, aquilo que o impedia de realmente “aproveitar a vida” — outra das coisas que ele me disse, quando rasgou tudo o que tínhamos, como se fosse um maldito pedaço de papel.
Eu não aceitei muito bem o fato de que estávamos terminando, de que todos aqueles planos que havíamos feito no meio da noite, enquanto assistíamos a um reality show de culinária — brigando sobre quem cozinhava melhor —, não se tornariam realidade.
E como consequência disso, enviei dezenas de mensagens, implorando que me desse um motivo — algo que ele nunca fez —, chorei ouvindo músicas depressivas e depois ri alto, gritando o quanto eu era boa demais para ele, mesmo sem realmente acreditar nisso.
E foi aí que o clichê invadiu violentamente a minha vida.
Victoria Lobato, uma antiga colega de faculdade, comentou que estava com uma viagem marcada para o exterior, que faria uma espécie de intercâmbio no Canadá.
E, nesse instante, foi impossível não imaginar neve, xícaras de chocolate quente e maravilhosas blusas de inverno. O recomeço perfeito, digno de uma comédia romântica, onde, no final, depois de passar por inúmeros perrengues, a mocinha encontrava um gringo rico e gostoso, com quem se casava em uma praia particular. Um daqueles filmes em que você se sente ainda mais pobre e infeliz quando termina de assistir.
“Eu não vou gastar muito e ainda conseguirei trabalhar por lá. Uma viagem que pode durar até dois anos, amiga... Imagina só?” dissera-me Victoria, fazendo-me realmente imaginar e, consequentemente, deixando-me com inveja daquela incrível oportunidade para recomeçar.
Naquele exato momento, eu encontrei uma brecha, uma forma de fugir — literalmente — de todos os meus problemas.
O nome do milagre?
Um programa de intercâmbio chamado “Go Baby”, que era conhecido por ser, basicamente, uma das formas mais econômicas e fáceis para se trabalhar no exterior. E consistia em uma das coisas que eu mais gostava de fazer: cuidar de crianças.
O que é que poderia dar errado?
De acordo com a minha mãe, absolutamente TUDO.
“Você pode ir parar na casa de um psicopata, Lyara!” alertou-me com aquele seu dom de ver apenas o pior das coisas. E como se ficar sob o mesmo teto que um lunático não fosse terror o suficiente, ela continuou “você nunca ouviu falar em tráfico de mulheres, querida?”.
Para a dona Lúcia, as minhas únicas alternativas de viver no exterior era morando com um assassino ou trabalhando em um bordel na Turquia. Já o meu pai, uma das pessoas que mais me apoiava, não quis nem comentar sobre o assunto, mostrando-me o quanto havia detestado a ideia.
“Meu amor, você não precisa viajar milhares de quilômetros só porque levou um pé na bunda” a minha mãe tornou a comentar naquele mesmo dia, antes de levar a mão até o meu cabelo para arrumá-lo.
E essas suas palavras mostraram-me exatamente o motivo pelo qual eu deveria ir.
Por mais que eu estivesse me mostrando extremamente otimista a respeito do “Go Baby” e das coisas boas que essa experiência poderia me acrescentar, sabia muito bem dos riscos que estava correndo.
Estaria vivendo com desconhecidos — e cuidando dos filhos deles —, em um lugar onde a cultura era completamente diferente da que tínhamos no Brasil. Eu ficaria sozinha, sem nenhum tipo de amigo ou familiar a quem pudesse recorrer no meu primeiro problema.
Definitivamente, não seria fácil.
E, como a minha mãe me alertou — ainda que de forma bem exagerada e pessimista —, muita coisa poderia dar errado, a lista era extensa demais para citar tudo. Mas, mesmo com todos esses riscos, eu achava que valia a pena tentar.
Eu precisava, desesperadamente, de um lugar novo, com pessoas novas.
Precisava recomeçar.
E eu não conseguiria fazer isso onde estava vivendo, sob a sombra do Pedro e de sua vida perfeita após o término do nosso noivado.
“Deixa eu ver se entendi... Você vai abandonar o seu emprego estável pra cuidar de criança ranhenta no exterior?” indagou Maria Luiza, como se a minha ideia fosse ridícula. Da forma como a minha amiga colocou, parecia ser o emprego mais indigno do planeta, o que não era verdade.
Assim como a minha mãe, ela também era ótima em me colocar para baixo.
Mas, de fato, o meu atual trabalho não era nem um pouco ruim. Eu era uma professora de escola municipal — modéstia parte, uma muito boa —, que estava no mesmo lugar desde que havia finalizado a faculdade, há cerca de dois anos. Se a minha vida não tivesse mudado tão drasticamente, quase virado no avesso, talvez eu nunca fosse deixar aquele lugar.
Para conseguir entrar no programa de intercâmbio e dar início ao meu tão sonhado recomeço, eu precisava cumprir três pré-requisitos.
Idade.
Experiência.
E CNH.
Como trabalhava dando aula para crianças do primário, eu tinha como comprovar toda a minha experiência nessa área. Possuía registros de todas as horas necessárias para ingressar no programa.
O único dos três pré-requisitos que eu ainda não poderia cumprir, era a porcaria da carteira de motorista.
Sempre fui uma mulher muito medrosa, que nunca se imaginou dirigindo, tanto que finalizei a minha faculdade e não me inscrevi em uma autoescola. O fato é que isso nunca me atrapalhou. Ia trabalhar de ônibus e, antes do término, tinha Pedro para me levar pros quatro cantos da cidade.
Mas nem mesmo esse obstáculo fez com que eu desistisse do meu plano impulsivo. Nos quatro meses seguintes, esforcei-me pra não reprovar em nenhum dos testes da autoescola. Precisava conseguir a carta o mais rápido possível ou esse plano nunca se concretizaria.
Além das exigências quanto à experiência com crianças e a carteira de motorista, o outro pré-requisito era na a faixa etária de dezoito a vinte e seis anos. E eu já tinha os vinte e seis. Se enrolasse mais um pouquinho, faria vinte e sete anos e poderia dar adeus ao meu recomeço milagroso.
No entanto, por sorte — muita mesmo —, não rodei no teste prático e peguei a minha carta. Havendo cumprido todas as exigências do “Go Baby”, consegui me inscrever e “ficar online”, que era, basicamente, estar disponível para ser escolhida por uma das famílias que faziam parte do programa.
Por ser fluente em inglês, ter experiência com crianças e uma sólida formação em Letras — de português e inglês —, o meu currículo no programa chamou a atenção rapidamente e não demorou muito para que eu entrasse em contato com várias famílias.
Influenciada por minha mãe, eu revirei a internet à procura de relatos sobre intercâmbios — principalmente, os feitos através do “Go Baby” —, constatei que a dona Lúcia tinha um pouco de razão em se preocupar comigo.
Alguns deram tão errado que fazia com que os exageros da minha mãe parecessem coisas costumeiras.
Meninas expulsas das casas.
Mães loucas.
Pais que davam em cima das babás.
A lista era enorme e extremamente aterrorizante, o que me fez repensar a ideia que, até então, sempre me pareceu a melhor saída para os meus problemas.
Eu fiquei bem assustada, mas, no fim, não o suficiente para me fazer desistir. No final das contas, esses mesmos relatos me ajudaram a definir bem o tipo de família que eu queria. As garotas azaradas nos vídeos me instruíram bem para que não caísse no mesmo buraco que elas.
Depois de várias conversas, eu optei pela família que mais me oferecia benefícios. Eu teria um carro só pra mim, trabalharia apenas de segunda à sexta, o meu quarto seria bacana e teria que responder apenas a um pai solteiro — ou seja, nada de mãe doida pra me aterrorizar.
A simpática governanta da casa conversou comigo, mostrou-me as crianças por vídeo — duas coisinhas maravilhosas — e eu fiquei completamente encantada, a ponto de não ter mais dúvidas.
Era perfeito.
Era a “minha” família.
A única coisa que me deixou um pouco preocupada foi o fato de não ter conversado com o pai. Como ele era um homem bem ocupado — de acordo com aquela mesma governanta —, não conseguiu comparecer nas chamadas de vídeo.
Não deixei que esse pensamento me trouxesse preocupações desnecessárias.
“Relaxa, ele é ocupado demais, Lyara... Você nem vai ver o cara direito” pensei.
Eu detestava estar sendo tão ruim em algo que eu gostava de fazer — em algo que eu sabia que era boa. Às dezenove horas, depois do banho das crianças, o meu expediente chegou ao fim. Mesmo com todos aqueles problemas, tentei ser positiva em relação ao dia seguinte. Ainda que as crianças não tivessem me aceitado — principalmente a Bárbara —, havia conseguido cumprir todo o cronograma deles e não precisei de nenhum auxilio extra de Daniela, o que significava que, para um primeiro dia, não devia ser tão ruim assim. O ponto alto da minha noite foi o meu banho demorado de banheira — o primeiro da minha vida. Perdi a conta de quantos minutos passei debaixo daquela água. Eu só fui sair de lá quando a pele dos meus dedos já estava bem enrugada. Depois disso, curti um momento sozinha no meu quarto, aproveitei para comer chocolate e outras coisas gordurosas, para me desintoxicar de toda aquela comida excessivamente saudável. E, antes de dormir — mais especificamente no momento em que tornei
As crianças, quem eu mais estava ansiosa para conhecer, nem me deram bola. Bárbara tinha oito anos de idade e era muito bonita. A garotinha possuía cabelos loiros e olhos cinzentos, bem parecidos com os do pai. Já Mattew, de três anos, tinha cabelos e olhos escuros, provavelmente herdados da mãe. Eram tão diferentes que nem pareciam irmãos. O meu primeiro momento com eles foi bem curto e aconteceu no mesmo dia que cheguei, no finalzinho da tarde. A menina nem me deu atenção, mal olhou para o meu rosto, mesmo eu dizendo o quanto estava feliz por finalmente conhecê-la. O menorzinho foi um pouquinho mais receptível, mas ainda não dava para dizer que ele tinha gostado de mim. Mesmo sendo bastante curto, esse primeiro contato mostrou-me que não seria muito fácil lidar com aquelas crianças, principalmente com a mais velha. Mas, com toda a minha experiência, eu sabia que isso — não ser aceita logo de início — não era algo incomum, principalmente sendo uma babá estrangeira. Na mente dos d
Senti falta apenas de uma televisão, mas poderia resolver isso facilmente com o meu notebook. E não poderia reclamar de nada, principalmente depois de alguns dos relatos que eu tinha lido na internet — o motivo para a existência do “segundo medo”. Em um deles, o quarto para a babá não tinha nem luz, a coitada tinha que se virar com um abajur velho. Baseado nisso, eu estava no paraíso com o meu quarto luxuoso. Não precisaria dividir nem mesmo o banheiro com outras pessoas. Usei o meu tempo livre para mandar uma mensagem para a minha mãe, dizendo que havia chegado bem e que já estava estabelecida na casa da família. Deixei bem claro para a dona Lúcia que, até então, eu não tinha cruzado com nenhum psicopata louco — e nem havia sido mandada para um bordel —, que ela e o meu pai podiam ficar tranquilos.Também mandei uma mensagem para o grupo de babás da “Go Baby”. Quando ainda estava pesquisando — logo depois da minha mãe me assustar com inúmeras histórias bizarras envolvendo intercâmb
Como eu nunca havia pisado em um avião antes — nem mesmo em voos para lugares próximos da cidade em que eu vivia no Brasil —, eu estava com um pouquinho de medo. Sempre que tentava imaginar, via aquelas cenas bobas e exageradas de filmes, em que o avião começa a balançar ao adentrar uma tempestade e as máscaras de oxigênio caem, apavorando todo mundo. A parte mais estranha — e estúpida — era que nessas possibilidades aterrorizantes, a minha maior preocupação não era acabar no fundo de um oceano ou explodir junto com o avião, mas de me apavorar a ponto de não conseguir colocar a porcaria da máscara de oxigênio e morrer asfixiada. Mas, no final, tudo ocorreu bem. Não houve nenhuma turbulência, tempestade ou máscaras caindo, nem qualquer outra coisa parecida que me desse motivo para ficar assustada. A viagem ocorreu de forma muito tranquila. Eu tirei a minha primeira foto na janelinha do avião, relaxei o corpo na minha poltrona e coloquei o meu fone de ouvido, tentando aproveitar ao m
Sentei-me no banco de espera do aeroporto e voltei o meu olhar para o longo vidro à minha frente, que se estendia por todo o segundo andar, dando uma ótima visão dos gigantescos aviões parados na pista de pouso cinzenta. Mas, ao voltar a minha atenção para aquela direção, eu não consegui me concentrar nas aeronaves lá embaixo, tampouco nas últimas chamadas, que faziam as pessoas correrem de um lado para o outro, em direção aos seus respectivos portões de embarque. Tudo o que pairava pela minha mente era a palavra “clichê”. Essa palavrinha maldita conseguia descrever perfeitamente a minha vida no Brasil — ao menos, o que ela se tornou após o término do meu noivado. Não. Nós não éramos um casal perfeito — muito longe disso —, mas eu sempre nutri esperanças de que um dia nós pudéssemos nos tornar uma grande família, daquelas dos comerciais de margarina, onde dois adultos felizes são cercados por crianças ainda mais animadas. E, sim. Talvez o que mais me quebrou tenha sido o fato d





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