Mundo de ficçãoIniciar sessãoAna Luísa sempre acreditou que alguns silêncios familiares deveriam ser respeitados. Criada entre discursos elegantes e portas fechadas, aprendeu a ignorar os sussurros sobre os Vasconcellos, uma linhagem poderosa, mas marcada por segredos e alianças obscuras. Tudo muda com a morte de seu tio-avô, um influente político com quem mantinha um vínculo profundo e afetivo. Durante o velório, o luto transforma-se em inquietação: há algo não dito, algo que pulsa sob o peso das homenagens e dos olhares dissimulados. Na leitura do testamento, Ana Luísa herda um imóvel decadente na esquecida cidade de Vale das Rosas. Um presente que ninguém quer, especialmente seu primo ambicioso, CEO do império Vasconcellos, cuja raiva se torna palpável. Arrasada pela recente traição do noivo, Ana vê nessa herança inesperada uma chance de recomeçar. Ao lado da tia Viviane, ela parte para o interior de Minas Gerais sem imaginar que está cruzando a fronteira de um passado enterrado… mas jamais morto. Logo ao chegar, sua vida se entrelaça com a de Rafael Linhares, um jornalista local que também carrega feridas abertas. O encontro entre eles é tenso, marcado por atritos, verdades não ditas e uma atração que se nega a permanecer apenas física. Quando descobrem documentos comprometedores e recebem ameaças veladas por cartas anônimas, compreendem que mexeram num vespeiro perigoso. Dividida entre preservar sua origem e fazer justiça, Ana terá de encarar a verdadeira história de sua família, mesmo que isso custe seu nome, seu legado… e seu coração. Sombras do Passado é uma história sobre coragem, redenção e o poder devastador da verdade quando finalmente vem à tona.
Ler maisAdeus ao Tio Henrique
A garoa fina caía sobre o cemitério da Consolação, em São Paulo, como se o céu compartilhasse da dor de Ana Luísa. O murmúrio das orações parecia ecoar dentro do peito de Ana Luísa, como se cada palavra recitada pela voz embargada do padre tocasse uma corda tensa e sensível em seu coração. O caixão, de madeira escura e acabamento clássico, repousava no centro da capela da Ordem de São Jerônimo, envolto por coroas de flores com laços dourados e homenagens que pareciam frias diante do calor das memórias que ela guardava daquele homem. Sentada no primeiro banco, Ana Luísa mantinha as mãos unidas sobre o colo. Seus dedos estavam úmidos de suor, e os olhos, fixos, sem piscar, pareciam presos em um passado que agora se tornava definitivo. A brisa da manhã entrava pelas janelas abertas, mas nada aliviava o peso abafado no ar. Ele não merecia partir assim… tão sozinho. Murmurou, mais para si mesma do que para os que a cercavam. — Ele partiu como viveu, Ana, cercado de silêncio. Respondeu Dona Isaura, antiga governanta da família Vasconcellos, que havia cuidado de Enrique nos últimos anos. Seus olhos estavam marejados, mas sua voz carregava aquela firmeza serena de quem vira muita coisa no correr dos anos. Ana assentiu, lutando para conter a dor que a rasgava por dentro. Não era apenas luto. Era culpa. Culpa por não ter ido vê-lo mais vezes nos últimos meses. Culpa por ter deixado que a vida corrida em São Paulo engolisse os laços que um dia a mantiveram próxima daquele homem que, para ela, havia sido muito mais que um parente distante. Foi ele quem lhe ensinara a ler, quem lhe contava histórias nas tardes chuvosas da infância e que, com um simples levantar de sobrancelhas, fazia calar qualquer injustiça. Enrique Vasconcellos era uma figura imponente, mas tinha no coração uma ternura escondida que apenas os que olhassem com atenção conseguiriam enxergar. No canto oposto da capela, os demais membros da família pareciam mais interessados em cochichos discretos do que na cerimônia. O primo Eduardo, vestido impecavelmente num terno sob medida, mexia impacientemente no relógio de pulso. Seu olhar se cruzou com o de Ana por um instante, mas o que deveria ser empatia ou acolhimento, foi apenas indiferença. — Acha que ele deixou algo além de lembranças? Sussurrou Eduardo à esposa, que tentava disfarçar o tédio. — Duvido que haja herança relevante. Aquele casarão velho em Vale das Rosas é mais um fardo do que qualquer coisa. Ana ouviu, mas permaneceu em silêncio. Não era o momento para confrontos, embora já sentisse a tensão pairando como um vulto sobre todos eles. Quando o padre finalmente deu por encerrada a cerimônia, Ana se aproximou do caixão. Suas mãos, trêmulas, repousaram sobre a tampa envernizada. Vestida de preto, ela permanecia imóvel diante do jazigo aberto, os olhos fixos no caixão de madeira escura que abrigava o corpo de seu tio-avô, Henrique Vasconcellos. O som abafado da terra sendo lançada sobre o caixão misturava-se ao murmúrio das orações, criando uma sinfonia melancólica que ecoava em seu coração. Henrique não era apenas um parente distante; era seu confidente, mentor e, em muitos momentos, a figura paterna que lhe faltara. As lembranças das tardes passadas na biblioteca da antiga casa dos Vasconcellos, onde ele lhe contava histórias sobre política, ética e justiça, invadiam sua mente. A dor da perda era profunda, um vazio que palavras não podiam preencher. Ao seu redor, os membros da família exibiam expressões contidas, mais preocupados com as aparências do que com a perda em si. Murilo Vasconcellos, seu primo e atual CEO do império familiar, mantinha uma postura rígida, como demostração de poder, os olhos ocultos por óculos escuros, como se quisesse esconder qualquer traço de emoção. Outros parentes trocavam sussurros discretos, já especulando sobre o testamento e a divisão dos bens. Após a cerimônia, Ana Luísa caminhou lentamente até a saída do cemitério, sentindo-se sufocada pela atmosfera de hipocrisia. O som de passos apressados atrás dela a fez virar-se. — Ana, espere! Chamou Murilo, alcançando-a. — O que foi? Respondeu, sem esconder o cansaço na voz. — A leitura do testamento será amanhã, às dez, no escritório do doutor Álvaro. Espero que compareça. — Estarei lá. Murilo assentiu e afastou-se, deixando Ana Luísa sozinha com seus pensamentos. Na tarde seguinte… A tarde caiu sob um céu turvo quando os herdeiros se reuniram no antigo escritório da família em São Paulo para a leitura do testamento. O advogado da família, Dr. Maurílio, organizava os papéis sobre a mesa de mogno como se manipulasse peças de xadrez. — Como vocês sabem, o senhor Gregório Vasconcellos deixou este documento registrado há seis meses, em total sanidade mental, diante de testemunhas anunciou ele, encarando a sala lotada com sobriedade. — Suas vontades foram claras, e caberá a mim apenas lê-las com exatidão. Todos se remexeram em seus lugares. Ana Luísa, vestida ainda de preto, cruzou as pernas, mantendo a postura ereta. Eduardo, sempre com ar de superioridade, recostou-se como quem já esperava por pouco. — Aos meus sobrinhos e sobrinhas, deixo cotas de participação nas empresas da família. —Ao meu sobrinho Eduardo Vasconcellos, deixo o acervo de obras raras e minha coleção pessoal de vinhos — disse o advogado, arrancando sorrisos contidos do primo. Maurílio então pigarreou antes de continuar. — E à minha sobrinha-neta Ana Luísa Vasconcellos, deixo o imóvel localizado em Minas Gerais na cidade de Vale das Rosas, onde vivi parte da juventude. Um silêncio cortante caiu sobre a sala. — O quê? Eduardo se levantou de súbito. — Você só pode estar brincando, doutor. Dar aquela ruína para a Ana? Ela sequer tem tempo para isso! Tem uma carreira. Uma vida em São Paulo! — Está tudo aqui, redigido de próprio punho. Respondeu o advogado, imperturbável. — Trata-se de um desejo pessoal, e irrevogável. Ana não disse nada. Apenas fechou os olhos por um segundo, tentando processar o que acabara de ouvir. Algo dentro de si acendeu. Uma faísca. Não era pelo valor da propriedade. Era o tom das palavras. Era o mistério. O chamado. E de certa forma era como se Gregório ainda estivesse lhe dizendo algo. Mais tarde, sozinha em seu apartamento, Ana Luísa encarava a chave dourada em sua mão. Havia um pequeno brasão gravado, antigo e desgastado. Seus olhos estavam pesados, mas a mente desperta, girando entre memórias e perguntas. Seu celular vibrou. Era uma mensagem do ex-noivo. Apenas uma linha: “Podemos conversar?” Ela apagou a mensagem sem responder. O luto, a traição, a revelação tudo agora se misturava num só caminho. E ele começava em Vale das Rosas. — Eu vou descobrir tudo que você quer me contar, meu velho, Eu prometo! Sussurrou, antes de se afastar com os olhos marejados. Ela presentia que aquele seria apenas o início de uma jornada que a levaria a confrontar verdades há muito enterradas.O Primeiro Corpo Político.A notícia chegou sem alarde, como tudo que é cuidadosamente preparado para não fazer barulho demais.Ana soube por Rafael, ainda antes do café da manhã. Ele entrou na cozinha com o celular na mão, o rosto tenso, os olhos mais escuros do que o normal. O cheiro de café recém-passado contrastava com a rigidez do ambiente, criando uma sensação estranha de normalidade forçada.— Encontraram o Álvaro. Disse, sem rodeios.Ana congelou por um segundo, a xícara suspensa a meio caminho da boca.— Como assim, encontraram?Rafael respirou fundo antes de responder.— Oficialmente, foi um mal súbito. —Um infarto enquanto caminhava pela praça, perto do coreto.—Caiu. Bateu a cabeça. Morreu antes da ambulância chegar.O nome ecoou dentro dela como um golpe seco.Álvaro Menezes.Arquivista aposentado.O homem que, dois dias antes, havia aceitado conversar.Ana apoiou a xícara na mesa com cuidado excessivo, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo invisível
Não Dorme.O primeiro sinal não veio como ameaça, nem como descoberta explícita.Veio como um desconforto persistente, desses que não se explicam, mas se instalam no corpo antes mesmo de alcançarem a razão.Ana Luísa percebeu isso numa manhã comum demais para justificar a inquietação que a acompanhava. O sol entrava oblíquo pela janela do escritório, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar como pequenos fragmentos do passado em suspensão. A casa estava silenciosa, exceto pelo estalo eventual da madeira antiga, que reagia às mudanças de temperatura como se respirasse junto com ela.Sobre a mesa, os documentos estavam organizados em pilhas criteriosas. Datas cruzadas. Nomes sublinhados. Setas feitas à lápis conectando eventos separados por décadas. Tudo parecia sob controle. E, ainda assim, algo estava errado.Ana passou os dedos pela borda de uma pasta azul e sentiu um arrepio leve, quase imperceptível. Não era medo. Era antecipação. Como se tivesse esquecido algo ó
Ecos que se CruzamAnaO arquivo não dorme.Mesmo à noite, o prédio antigo parece respirar. Ana percebe isso assim que atravessa a porta lateral, usando a chave emprestada que pesa no bolso como um pacto silencioso. O corredor estreito está mal iluminado, e cada lâmpada lança sombras irregulares nas paredes bege manchadas pelo tempo. O som dos próprios passos ecoa mais do que deveria.Ela gosta disso.O eco a lembra de que não está invisível, apenas escolhendo quando aparecer.O relógio no pulso marca 22h17. Ana calcula o tempo com precisão quase automática. Sabe exatamente quanto pode ficar ali sem levantar suspeitas. Abre a sala de registros especiais e fecha a porta com cuidado, girando a chave até ouvir o clique suave.As estantes de metal formam corredores estreitos, cheios de caixas numeradas. O cheiro é uma mistura de papel antigo, ferrugem e poeira comprimida por décadas. Ana respira fundo, não para se acalmar, mas para se concentrar. Seu corpo inteiro entra em estado
O Peso da Multidão.Ele acreditava compreender o público.Durante anos, observou pessoas como quem observa correntes marítimas: Sabia onde a água parecia calma, onde se agitava, onde arrastava corpos sem deixar vestígios. Para ele, a opinião pública não passava de um fenômeno previsível, ondas de indignação passageiras, distrações fáceis de redirecionar.Esse foi o erro.O antagonista acompanha o seminário à distância, em uma sala silenciosa demais, iluminada apenas pela luz fria de três telas. Em uma delas, a transmissão ao vivo. Na outra, gráficos de engajamento em tempo real. Na terceira, um mapa de conexões, jornalistas, influenciadores, nomes estratégicos.Quando o nome da família de Ana surge no telão, ele não sorri. Não sente prazer. Sente confirmação.— Exato. Murmura para si mesmo. — Agora respire.Ele espera a reação que sempre vem: Desconforto visível, defesa apressada, negação emocional. Espera fissuras.Mas Ana não oferece nenhuma.Ela aplaude.Ela sustenta o
Sob os Olhos de TodosO auditório está cheio demais para um lugar que deveria ser neutro.Ana Luísa percebe isso antes mesmo de sentar. O ar parece mais denso, carregado de expectativa, não curiosidade, mas algo mais próximo da antecipação de um erro. Pessoas cochicham sem real discrição. Celulares já estão erguidos, ainda que o evento não tenha começado oficialmente.Ela ajusta a postura, cruza as pernas com calma estudada. Não pode parecer acuada. Não hoje!Rafael senta ao lado dela, atento demais para alguém que finge apenas acompanhar. Ele observa entradas, saídas, rostos. Marca padrões. Ana conhece esse olhar. É o mesmo que ele usava quando ainda acreditava que podia prever o caos.— Está cedo. Ele murmura. — Mas não é coincidência.— Não. Ana responde. — É encenação.O painel na frente anuncia o tema do seminário:“Memória, Herança e Verdade: quando o passado retorna.”Ela quase sorri.Quase.O primeiro palestrante fala sobre arquivos históricos, documentos esquecidos,
03h1703h17.O relógio digital da cozinha emite um brilho azul frio, quase agressivo no escuro. Ana Luísa está de pé há tempo demais para ainda se lembrar de quando se levantou. O chão gelado sob os pés descalços já não incomoda. Seu corpo entrou naquele estado estranho em que o medo não paralisa, afia.A casa está em silêncio absoluto.Não o silêncio habitual, mas um silêncio suspenso, como se até os insetos tivessem sido instruídos a não emitir som algum.Ela respira devagar, contando mentalmente. Inspira. Expira. Cada movimento é calculado. Cada músculo, atento.Do corredor, vem o som quase imperceptível de um rangido. A madeira antiga se acomoda, ou alguém pisa onde não deveria?Ana não se move.03h18.O gravador está ligado sobre a mesa do escritório. Não há fita rodando. Ela o ligou apenas para ouvir o próprio chiado, um ruído constante que a impede de mergulhar no silêncio absoluto. É uma âncora. Uma prova de que ainda está acordada. Viva.Rafael dorme no quarto ao
Último capítulo