Mundo de ficçãoIniciar sessãoSofia nunca planejou se apaixonar. Muito menos por Henrique Alencar, seu chefe poderoso, reservado e… casado. Entre olhares contidos, silêncios carregados e uma tensão impossível de ignorar, o que começa como desejo proibido se transforma em algo muito mais perigoso...
Ler maisEu aprendi cedo a não olhar demais para o que não era meu.
Era mais seguro assim. Menos doloroso. Mas Henrique Alencar tornava essa regra impossível. Eu o via todos os dias. Às vezes de longe, às vezes perto demais. Sempre impecável, sempre no controle. O tipo de homem que entra numa sala e muda o ar. Não porque fala alto — ele quase nunca fala — mas porque todos esperam que ele diga algo. E eu… eu era só a assistente. — Sofia, o relatório da reunião — ele pediu, sem levantar os olhos do tablet. A voz firme. Grave. Calma demais. Engoli em seco antes de responder. Sempre engolia perto dele. — Já deixei na sua mesa, doutor Henrique. Ele finalmente olhou para mim. Não foi um olhar longo. Não foi descarado. Foi rápido. Avaliador. Intenso. O tipo de olhar que parecia atravessar a roupa, os pensamentos, a dignidade. Meu corpo reagiu antes de mim, como sempre. Um calor absurdo subindo pelo peito, a respiração errando o ritmo. Eu odiava isso. Odiava mais ainda o quanto ele parecia não perceber. Ou fingia não perceber. — Obrigado — disse ele, voltando a atenção para o tablet. — Pode ir. Podia ir. Sempre podia ir. Mas eu nunca saía ilesa. Virei de costas com a postura que treinei para parecer profissional, enquanto por dentro minha mente gritava coisas que eu jamais diria em voz alta. Ele é casado, Sofia. Ele é seu chefe. Ele nunca vai olhar para você como mulher. Repetia isso como um mantra. Um aviso. Uma ameaça. Ainda assim, toda vez que eu passava pela porta da sala dele, meu coração se comportava como se não soubesse de nada disso. --- Henrique Alencar era o tipo de homem que não precisava levantar a voz para impor respeito. Bastava existir. Casado há anos com uma mulher que parecia saída de uma revista — elegante, distante, perfeita. Helena Alencar. Eu a tinha visto algumas vezes. Sempre ao lado dele, sempre com a mão pousada em seu braço como se aquilo fosse um lembrete silencioso para o mundo: "ele é meu". E era. Eu sabia disso melhor do que ninguém. Por isso, quando ele começou a me pedir para ficar até mais tarde, eu disse a mim mesma que era apenas trabalho. Quando começou a comentar coisas banais sobre o dia, eu disse que era educação. Quando passou a me observar em silêncio, eu disse que era impressão minha. Eu mentia muito bem para mim. Naquela noite, o escritório estava quase vazio. As luzes mais fracas, o ar-condicionado frio demais. Eu revisava um contrato quando ouvi passos atrás de mim. — Ainda aqui? Levantei a cabeça rápido demais. Henrique estava parado perto da minha mesa. Sem o paletó. A gravata frouxa. As mangas da camisa dobradas, expondo os antebraços fortes. Não devia ser permitido alguém parecer assim depois das dez da noite. — Estou terminando — respondi. — Posso enviar por e-mail. Ele se aproximou mais um pouco. Perto demais. — Prefiro que revise comigo. Meu estômago revirou. Levantei, tentando manter a distância profissional, mas ele puxou uma cadeira e sentou ao meu lado. Nossos ombros quase se tocando. Quase. O cheiro dele me atingiu primeiro. Algo amadeirado, masculino, limpo. Meu corpo reconheceu antes que minha mente pudesse impedir. — Aqui — ele disse, apontando para a tela. — Essa cláusula. Inclinei-me para ver melhor. Foi um erro. Meu braço roçou no dele. Um toque mínimo. Ridículo. Mas foi como se alguém tivesse ligado algo dentro de mim. Henrique ficou imóvel por um segundo. Eu senti. Não vi — senti. A respiração dele mudou. A minha também. — Sofia… — ele murmurou meu nome pela primeira vez daquele jeito. Não como chefe. Como homem. Levantei o rosto devagar. Nossos olhares se encontraram. Tão perto que eu conseguia contar as pequenas marcas no rosto dele. Tão perto que eu sabia que, se me movesse um centímetro, não haveria volta. — Isso não é uma boa ideia — eu disse, mais para mim do que para ele. Henrique não respondeu de imediato. A mão dele ainda estava próxima da minha. Não tocava. Não recuava. — Eu sei — ele respondeu, finalmente. E mesmo assim… ele não se afastou. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. — Você devia ir para casa — ele completou, num tom baixo, quase rouco. Eu devia. Mas não fui. Porque naquele instante, com o escritório vazio e o mundo reduzido à distância mínima entre nós, eu percebi algo que me apavorou mais do que qualquer desejo. Henrique Alencar não estava apenas olhando para mim. Ele estava lutando contra si mesmo. E eu sabia… quando um homem como ele perde o controle, alguém sempre se machuca. Eu só não imaginava que seria eu.O beijo não cessou. Ele apenas mudou. De urgente, passou a profundo. De faminto, passou a carregado de intenção. Henrique deslizou os lábios pelos meus devagar, como se quisesse memorizar cada reação minha. Cada suspiro que escapava. Cada arrepio que denunciava o quanto eu estava perdida ali. As mãos dele subiram pelos meus braços, lentas agora, quase reverentes. Como se aquele fosse o último instante antes de tudo se tornar real demais. — Olha pra mim — pediu, a voz baixa, firme. Abri os olhos. O olhar dele me atravessou. Não havia mais luta ali. Nem culpa. Nem tentativa de controle. Só desejo. E algo perigosamente parecido com necessidade. Henrique encostou a testa na minha, respirando fundo, como se estivesse se alimentando do ar entre nós. — Eu pensei em você deitada ali, no quarto ao lado — confessou. — Cada segundo. Meu coração disparou. — Eu tentei dormir — respondi. — Juro que tentei. Ele sorriu de leve, um sorriso tenso, carregado de tudo o que não foi dito nos
Abri a porta antes que pudesse pensar melhor. Henrique estava ali. Descalço, camisa escura parcialmente desabotoada, o cabelo bagunçado como se tivesse passado as mãos por ele vezes demais. Os olhos — aqueles olhos — estavam mais escuros do que nunca, carregados de uma tensão que espelhava exatamente a minha. Por um segundo inteiro, nenhum de nós se moveu. O corredor estava silencioso. O mundo parecia suspenso naquele espaço estreito entre nós. — Eu tentei não vir — ele disse, baixo. A voz rouca. — Juro que tentei. Meu peito subia e descia rápido demais. — Eu estava indo até você — confessei. A frase foi tudo o que precisou. Henrique entrou no quarto e fechou a porta atrás de si com um movimento firme, definitivo. O som da fechadura ecoou como um ponto sem volta. Ele me olhou como se estivesse me vendo pela primeira vez e, ao mesmo tempo, como se já me conhecesse demais. Deu um passo à frente. Depois outro. — Diz para eu ir embora — murmurou. — Agora. Eu não disse. Não co
A madrugada não passava. O quarto estava escuro, silencioso demais para esconder o barulho dos meus pensamentos. Eu me virava na cama, puxava o lençol, empurrava o travesseiro, como se mudar de posição pudesse calar o que ardia dentro de mim. Não calava. Tudo em que eu conseguia pensar era em Henrique no quarto ao lado. Deitado. Acordado. Ou talvez dormindo — o que era ainda pior de imaginar. O quase-beijo voltava em flashes curtos e cruéis. A proximidade. A respiração dele misturada à minha. O jeito como o corpo dele parecia sempre tenso quando estava perto de mim, como se estivesse segurando algo à força. Eu fechei os olhos com força. Não! Virei de lado. Depois para o outro. Olhei o relógio no celular. 02:17. Suspirei, jogando o braço sobre os olhos. Era ridículo. Eu era adulta. Funcionária dele. Ele era casado. Meu chefe. Um limite claro, visível, óbvio. E ainda assim, tudo em mim parecia conspirar contra a razão. Levantei da cama, incapaz de ficar deitada mais um se
Depois daquela noite, nada mais parecia no lugar.O quase-beijo me perseguiu como uma lembrança viva demais para ser ignorada. Eu sentia ainda a respiração dele perto demais, o silêncio pesado, o instante em que tudo quase saiu do controle. Quase — a palavra mais cruel de todas.No escritório, Henrique virou um estranho conhecido.Educado.Distante.Perigosamente atento.Não me chamou para a sala dele. Não mandou mensagens. Não me olhou por tempo demais. Mas eu sentia a presença dele como uma corrente elétrica atravessando o espaço entre nós.E eu sabia que não era só comigo.— Sofia — ele disse, no meio da manhã, sem levantar os olhos do computador. — Preciso que você vá comigo a Campinas hoje à tarde.Meu coração falhou uma batida.— Campinas?— Reunião com um cliente. É simples. Vamos e voltamos no mesmo dia.Simples.Nada era simples quando envolvia nós dois.— Claro — respondi, profissional.Ele assentiu. Nada mais.Mas quando virei de costas, senti o peso do olhar dele nas minha
O problema aconteceu no fim do expediente.Era algo simples. Um erro no envio de um documento importante, um contrato que precisava ser corrigido antes das oito da manhã seguinte. Nada que justificasse pânico — se não fosse o fato de que o escritório estava praticamente vazio.E de que eu estava sozinha.Ou quase.— Sofia.A voz de Henrique veio de trás, baixa, contida. Meu corpo reagiu antes de mim.— Sim?— Precisamos corrigir um arquivo. Agora.Não foi um pedido.Assenti em silêncio.A sala dele estava diferente à noite. Mais escura. As luzes reduzidas, o som distante da cidade lá fora. Quando a porta se fechou, tive a sensação incômoda de que algo também se fechava por dentro.Sentamos à mesa. Lados opostos. Distância segura.Por alguns minutos, funcionou.Digitamos. Revisamos. Apontamos erros como duas pessoas normais fazendo um trabalho normal.Até deixar de ser normal.— Aqui — ele disse, se inclinando para ver melhor a tela do meu notebook.Perto demais.Meu ombro tocou o dele
Depois daquela conversa, Henrique passou dois dias inteiros me evitando.Nenhuma mensagem.Nenhuma convocação à sala dele.Nenhum olhar prolongado pelos corredores.E, ainda assim, eu sentia a presença dele o tempo todo.Era como se o silêncio tivesse se tornado mais barulhento do que qualquer aproximação anterior. Eu trabalhava tentando focar, mas cada som da porta da diretoria me fazia levantar o olhar, esperando vê-lo sair.Não via.E isso doía de um jeito estranho. Um jeito que me deixava irritada comigo mesma.No terceiro dia, ele apareceu.Eu estava organizando alguns relatórios quando senti aquele arrepio familiar na nuca. Não precisei olhar para saber que era ele. Mas olhei.Henrique estava encostado no batente da minha mesa, sério, os braços cruzados. O olhar dele não tinha desejo explícito. Tinha algo pior.Contenção.— Precisamos conversar — disse, baixo.Levantei devagar, sentindo o coração acelerar.— Agora? — perguntei.— Sim.O caminho até a sala dele pareceu mais longo
Último capítulo