Mundo de ficçãoIniciar sessãoFiquei olhando para a tela do celular por tempo demais.
"Sou eu, Helena. Precisamos conversar." Não havia emojis. Não havia explicação. Só aquela frase curta, educada demais para ser inocente. Meu primeiro impulso foi fingir que não vi. O segundo foi responder imediatamente. Nenhum dos dois parecia seguro. Guardei o celular na bolsa com as mãos trêmulas e segui para casa como se estivesse sendo observada. Cada passo parecia pesado, como se eu estivesse indo em direção a algo que não poderia evitar. Helena Alencar não precisava me explicar quem era. Ela também não precisava pedir. --- No dia seguinte, acordei com um nó no estômago. No escritório, Henrique estava estranho. Mais calado que o normal. Quando cheguei, ele já estava em sua sala, a porta entreaberta. Passei direto para a minha mesa, tentando agir como sempre. Não consegui. — Sofia — ele chamou, baixo. Levantei-me devagar e entrei na sala. Henrique fechou a porta atrás de mim. — Helena entrou em contato com você? — perguntou, direto. Meu coração disparou. — Sim. Ele fechou os olhos por um instante, passando a mão pelo maxilar tenso. — O que ela disse? — Só que queria conversar. O silêncio caiu pesado entre nós. — Você não precisa aceitar — ele disse. — Não é obrigação sua. Havia algo diferente na voz dele. Um traço de urgência. Talvez medo. — Se eu não aceitar, vai parecer pior — respondi. — Ela é sua esposa. A palavra caiu entre nós como uma lâmina. Henrique me encarou. O olhar escureceu. — Eu resolvo isso — afirmou. — Como? — perguntei, antes de conseguir me conter. Ele não respondeu. A falta de resposta dizia mais do que qualquer explicação. — Henrique… — comecei, baixando a voz. — Isso já está saindo do controle. Ele se aproximou um passo. Só um. — Eu sei — disse. — E é exatamente por isso que você precisa confiar em mim. Confiança. A palavra me fez sorrir sem humor. — Você é casado — lembrei. — E eu sou sua funcionária. — E mesmo assim… — ele começou, parando no meio da frase. Meu corpo reagiu à proximidade. Sempre reagia. Era como se tivesse aprendido a reconhecê-lo antes da minha mente. — Não diga — pedi, quase num sussurro. — Não torne isso mais difícil. Henrique ficou imóvel por alguns segundos. Então recuou. — Vá trabalhar — disse, seco. Obedeci. Mas a sensação de perigo não diminuiu. Pelo contrário. --- No início da tarde, recebi outra mensagem. →"Almoço hoje, às 13h. Café Lumière. Espero você." Não era um pedido. Respirei fundo antes de responder. →"Estarei lá." Enviei e senti o peso da decisão cair sobre mim. --- O Café Lumière era sofisticado demais para mim. Helena já estava sentada quando cheguei. Vestido claro, postura impecável, maquiagem discreta. Parecia saída de uma revista. Ela sorriu ao me ver. — Sofia, obrigada por vir. — Claro — respondi, sentando-me em frente a ela. Helena me observou por alguns segundos em silêncio. Não foi um olhar agressivo. Foi calculado. — Você é mais jovem do que eu imaginei — comentou. — Sou — respondi, sem saber o que mais dizer. Ela inclinou a cabeça levemente. — Henrique confia muito em você. Meu estômago revirou. — Sou apenas a assistente dele. Helena sorriu. Dessa vez, o sorriso não chegou aos olhos. — Não é isso que parece. Meu coração começou a bater mais rápido. — Quero ser direta — ela continuou. — Meu casamento não é perfeito. Eu sei quando algo muda. Segurei a xícara com força, tentando manter as mãos firmes. — Não sei o que a senhora está insinuando. — Não estou insinuando — disse ela, calmamente. — Estou observando. O silêncio entre nós ficou pesado. — Você é uma mulher bonita, Sofia — Helena completou. — E trabalha muito perto do meu marido. — Nunca ultrapassei nenhum limite — respondi, rápido demais. Ela arqueou uma sobrancelha. — Ainda bem. A palavra ficou suspensa no ar. — Só quero evitar mal-entendidos — ela disse, por fim. — Henrique é um homem intenso. Às vezes, ele confunde proximidade com… interesse. Engoli em seco. — Ele me respeita — falei. Helena inclinou-se um pouco para frente. — Espero que sim — disse, com um sorriso educado. — Porque eu não gosto de perder o que é meu. O aviso foi claro. Quando nos levantamos para ir embora, Helena tocou de leve no meu braço. — Somos mulheres — disse. — Sabemos quando algo começa antes mesmo de acontecer. Saí do café com as pernas fracas. --- No escritório, Henrique me esperava em pé, na minha mesa. — E então? — perguntou, assim que me viu. — O que ela disse? Levantei o olhar devagar. — Ela sabe. Ele empalideceu. — Sabe o quê? — insistiu. Respirei fundo. — Que existe algo entre nós. Mesmo que não tenha acontecido nada. Henrique passou a mão pelo rosto, visivelmente abalado. — Droga… — Isso precisa acabar — eu disse, com a voz falhando. — Agora. Ele me encarou. O olhar intenso, conflitante, carregado de algo que eu reconhecia bem demais. — E se eu disser que não consigo? — perguntou. Meu coração apertou. Porque, naquele instante, eu percebi a verdade mais perigosa de todas. Henrique Alencar não estava apenas brincando com fogo. Ele já estava queimando.






