Capítulo 2

Eu cheguei em casa com o corpo em alerta, como se ainda estivesse no escritório.

O espelho do banheiro devolveu uma imagem que eu não reconheci de imediato. Olhos brilhando demais. Lábios entreabertos. O rosto quente. Eu parecia alguém que tinha feito algo errado — mesmo sem ter feito nada.

Ainda.

Abri a torneira e joguei água no rosto, tentando apagar a sensação das mãos dele tão perto das minhas. Do jeito que meu nome soou quando saiu da boca de Henrique. Baixo. Controlado demais para ser inocente.

— Idiota — murmurei para mim mesma.

Ele é casado.

Ele é seu chefe.

E você quase…

Não terminei o pensamento.

Na cama, virei de um lado para o outro, repetindo cada segundo daquela cena. O cheiro dele. A proximidade. O silêncio carregado. O fato de que ele poderia ter se afastado — e não se afastou.

Pior: mandou que eu fosse embora como se estivesse se protegendo de algo.

Ou de mim.

---

No dia seguinte, cheguei mais cedo ao escritório. Precisava recuperar o controle. Ser profissional. Fingir que nada havia acontecido.

Henrique ainda não tinha chegado.

Organizei a mesa, revisei e-mails, preparei a agenda do dia. Tudo mecânico. Tudo seguro.

Até ouvir a voz dele atrás de mim.

— Bom dia, Sofia.

Fechei os olhos por um segundo antes de virar.

— Bom dia, doutor Henrique.

Formal. Correta. Distante.

Ele estava impecável outra vez. Terno escuro, gravata perfeitamente alinhada, o rosto sério. Nenhum sinal do homem de mangas dobradas que quase me tirou o ar na noite anterior.

— Precisamos conversar — ele disse.

Meu estômago afundou.

— Claro.

Entramos na sala dele. A mesma mesa. As mesmas cadeiras. Mas o ar estava diferente. Mais denso. Mais atento.

Henrique fechou a porta.

O clique ecoou alto demais.

— Sobre ontem… — ele começou.

Meu coração acelerou.

Não, não, não.

— Não precisa — interrompi rápido demais. — Foi só trabalho até tarde. Nada fora do normal.

Eu estava me protegendo.

Ou tentando.

Ele me observou em silêncio. Aquele olhar de novo. Como se estivesse medindo cada palavra, cada reação.

— Você ficou desconfortável — disse ele.

Não era uma pergunta.

— Não — menti. — Só cansada.

Henrique se aproximou da mesa, apoiando as mãos nela. Não invadiu meu espaço. Mas também não se afastou.

— Isso não pode se repetir — falou, firme.

Concordei com a cabeça.

Alívio e decepção misturados.

— Eu sou casado — ele continuou. — E você trabalha comigo.

Eu sabia.

Sabia demais.

— Entendo — respondi, com a voz mais baixa do que gostaria.

Houve um silêncio longo. Incômodo.

Ele suspirou, passando a mão pelo rosto como se estivesse irritado consigo mesmo.

— Ainda assim… — começou, e parou.

Meu coração falhou uma batida.

— Ainda assim, o quê? — perguntei, sem conseguir me conter.

Henrique levantou o olhar para mim. Direto. Sem máscaras.

— Ainda assim, você precisa manter distância de mim.

A frase me atingiu como um aviso. Ou uma confissão.

— Eu sempre mantive — respondi, sentindo algo doer no peito.

Ele não disse nada. Apenas assentiu.

— Pode voltar ao trabalho.

Abri a porta da sala com as pernas estranhas, o corpo tenso, a cabeça confusa. Quando sentei à minha mesa, percebi algo que me fez prender a respiração.

Minhas mãos tremiam.

E não era de medo.

---

Horas depois, enquanto eu organizava alguns documentos, ouvi uma risada feminina vindo do corredor.

Levei alguns segundos para reconhecer a voz.

Helena.

Meu corpo reagiu antes de mim. Endireitei a postura, o coração disparado sem motivo lógico. Ela entrou no escritório como se pertencesse a ele — porque pertencia.

Elegante. Segura. Linda.

Henrique saiu da sala ao vê-la.

— Oi, amor — disse, beijando o rosto dela.

Amor.

A palavra ecoou dentro de mim de um jeito feio.

— Resolvi passar para almoçarmos juntos — ela disse, sorrindo. Então olhou para mim. — Você deve ser a Sofia.

Meu nome na boca dela soou errado.

— Sou, sim — respondi, levantando-me. — Prazer.

Helena me analisou sem disfarçar. Dos pés à cabeça. Um sorriso educado demais nos lábios.

— Henrique fala muito bem de você.

Ele ficou tenso ao lado dela. Eu percebi.

— Espero que esteja gostando de trabalhar aqui — ela completou.

— Gosto — respondi, com cuidado.

Helena segurou o braço do marido com naturalidade. Posse tranquila. Indiscutível.

— Bom — disse ela. — Meu marido trabalha demais. Ainda bem que tem alguém tão… dedicada.

Sorriu.

Não foi um sorriso gentil.

Quando eles saíram, minhas pernas ficaram fracas. Sentei devagar, tentando controlar a respiração.

Foi quando meu celular vibrou sobre a mesa.

Mensagem de Henrique.

→"Não interprete nada errado. Ela não sabe de nada."

Li duas vezes.

Meu peito apertou.

Porque, naquele instante, eu entendi algo que me fez gelar por dentro.

Se Helena não sabia de nada…

era porque já havia algo a esconder.

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