Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois da mensagem de Henrique, eu não consegui mais me concentrar.
"Ela não sabe de nada." A frase ficou martelando na minha cabeça como se fosse um aviso. Ou uma ordem. Talvez as duas coisas. Passei o resto da manhã fingindo normalidade. Atendi ligações, respondi e-mails, organizei compromissos. Tudo no automático. Por dentro, eu estava em alerta — como se tivesse entrado em um jogo cujas regras eu desconhecia. No início da tarde, Henrique saiu para uma reunião externa. Antes de ir, parou na minha mesa. — Vou demorar — disse, sem me olhar diretamente. — Qualquer coisa urgente, me ligue. Assenti. Ele hesitou por um segundo. Só um. — Sofia… — começou, baixo. Levantei o olhar. — Sim? Ele pareceu reconsiderar. Endireitou o paletó. — Nada. Bom trabalho. E foi embora. Fiquei ali, encarando o espaço vazio onde ele estava segundos antes, com a sensação incômoda de que algo estava sendo empurrado para baixo do tapete. Algo que crescia em silêncio. --- No fim do expediente, eu estava guardando minhas coisas quando ouvi passos apressados. — Sofia. A voz de Henrique. Mais tensa do que o normal. — Sim? Ele fechou a porta da sala dele e veio até mim. O escritório estava quase vazio outra vez. Aquela hora em que tudo parece mais íntimo do que deveria. — Preciso que você fique — disse. — Surgiu um problema com um contrato. É urgente. Meu coração acelerou sem pedir permissão. — Claro. Ele soltou o ar devagar, como se estivesse se preparando para algo difícil. Entramos na sala. Ele deixou o celular sobre a mesa, andava de um lado para o outro, visivelmente irritado. — O fornecedor mudou as condições — explicou. — Preciso revisar tudo hoje. Sentei-me ao lado dele, abrindo os arquivos no notebook. Mantive o máximo de distância possível. Aprendi rápido que a proximidade com Henrique era perigosa. Mas perigo nem sempre afasta. — Aqui — apontei. — Se ajustarmos essa cláusula, conseguimos manter o prazo. Ele se inclinou para ver melhor. De novo perto demais. O mesmo erro. O braço dele roçou no meu, e dessa vez ele não fingiu que não sentiu. — Sofia… — murmurou. Meu nome de novo. Sempre desse jeito. — Doutor Henrique, é melhor focarmos no trabalho — disse, tentando manter a voz firme. Ele riu sem humor. — Você acha que eu não estou tentando? Levantei o rosto, surpresa. Os olhos dele estavam escuros. Intensos. Cansados. — Ontem e hoje… — ele continuou, baixando a voz. — Isso não está certo. — Então se afaste — respondi antes de pensar. Ele ficou em silêncio. A proximidade aumentou sem que eu percebesse. Henrique apoiou uma mão na mesa, perto da minha. — Não é tão simples — disse. — É sim — retruquei, o coração batendo forte demais. — O senhor tem uma esposa. Ele fechou os olhos por um instante ao ouvir aquilo. Como se doesse. — Não me chame de senhor. O pedido soou íntimo demais. — Henrique — corrigi, quase num sussurro. Foi o suficiente. Ele abriu os olhos e me encarou. A tensão entre nós era quase palpável. Nenhum de nós se movia. Nenhum de nós recuava. — Isso precisa parar — ele disse, mas a mão dele não saiu do lugar. — Precisa — concordei, sem convicção. O silêncio se estendeu. O tipo de silêncio que diz coisas demais. Henrique se afastou de repente, passando a mão pelo cabelo. — Vá para casa — ordenou, mais duro do que antes. — Agora. Levantei-me rápido, o corpo tremendo. Peguei minha bolsa sem olhar para trás. Quando cheguei à porta, ouvi a voz dele uma última vez. — Sofia… — ele chamou. Parei, mas não virei. — Se alguém perguntar, diga que ficou até tarde por causa do contrato. Engoli em seco. — Está com medo de quê? — perguntei. Henrique não respondeu de imediato. — De perder o controle — disse, por fim. Saí da sala com o coração acelerado e uma certeza incômoda se formando dentro de mim. Aquilo já tinha passado do limite. E mesmo assim… eu não conseguia desejar que acabasse. --- No caminho para casa, meu celular vibrou. Mensagem de um número desconhecido. →"Sou eu, Helena. Precisamos conversar." O mundo pareceu parar por um segundo. Meu estômago revirou. Porque, naquele instante, eu soube: o perigo não estava mais apenas no desejo. Ele estava batendo à minha porta.






