Capítulo 3

Depois da mensagem de Henrique, eu não consegui mais me concentrar.

"Ela não sabe de nada."

A frase ficou martelando na minha cabeça como se fosse um aviso. Ou uma ordem. Talvez as duas coisas.

Passei o resto da manhã fingindo normalidade. Atendi ligações, respondi e-mails, organizei compromissos. Tudo no automático. Por dentro, eu estava em alerta — como se tivesse entrado em um jogo cujas regras eu desconhecia.

No início da tarde, Henrique saiu para uma reunião externa. Antes de ir, parou na minha mesa.

— Vou demorar — disse, sem me olhar diretamente. — Qualquer coisa urgente, me ligue.

Assenti.

Ele hesitou por um segundo. Só um.

— Sofia… — começou, baixo.

Levantei o olhar.

— Sim?

Ele pareceu reconsiderar. Endireitou o paletó.

— Nada. Bom trabalho.

E foi embora.

Fiquei ali, encarando o espaço vazio onde ele estava segundos antes, com a sensação incômoda de que algo estava sendo empurrado para baixo do tapete. Algo que crescia em silêncio.

---

No fim do expediente, eu estava guardando minhas coisas quando ouvi passos apressados.

— Sofia.

A voz de Henrique. Mais tensa do que o normal.

— Sim?

Ele fechou a porta da sala dele e veio até mim. O escritório estava quase vazio outra vez. Aquela hora em que tudo parece mais íntimo do que deveria.

— Preciso que você fique — disse. — Surgiu um problema com um contrato. É urgente.

Meu coração acelerou sem pedir permissão.

— Claro.

Ele soltou o ar devagar, como se estivesse se preparando para algo difícil.

Entramos na sala. Ele deixou o celular sobre a mesa, andava de um lado para o outro, visivelmente irritado.

— O fornecedor mudou as condições — explicou. — Preciso revisar tudo hoje.

Sentei-me ao lado dele, abrindo os arquivos no notebook. Mantive o máximo de distância possível. Aprendi rápido que a proximidade com Henrique era perigosa.

Mas perigo nem sempre afasta.

— Aqui — apontei. — Se ajustarmos essa cláusula, conseguimos manter o prazo.

Ele se inclinou para ver melhor. De novo perto demais. O mesmo erro.

O braço dele roçou no meu, e dessa vez ele não fingiu que não sentiu.

— Sofia… — murmurou.

Meu nome de novo. Sempre desse jeito.

— Doutor Henrique, é melhor focarmos no trabalho — disse, tentando manter a voz firme.

Ele riu sem humor.

— Você acha que eu não estou tentando?

Levantei o rosto, surpresa. Os olhos dele estavam escuros. Intensos. Cansados.

— Ontem e hoje… — ele continuou, baixando a voz. — Isso não está certo.

— Então se afaste — respondi antes de pensar.

Ele ficou em silêncio. A proximidade aumentou sem que eu percebesse. Henrique apoiou uma mão na mesa, perto da minha.

— Não é tão simples — disse.

— É sim — retruquei, o coração batendo forte demais. — O senhor tem uma esposa.

Ele fechou os olhos por um instante ao ouvir aquilo. Como se doesse.

— Não me chame de senhor.

O pedido soou íntimo demais.

— Henrique — corrigi, quase num sussurro.

Foi o suficiente.

Ele abriu os olhos e me encarou. A tensão entre nós era quase palpável. Nenhum de nós se movia. Nenhum de nós recuava.

— Isso precisa parar — ele disse, mas a mão dele não saiu do lugar.

— Precisa — concordei, sem convicção.

O silêncio se estendeu. O tipo de silêncio que diz coisas demais.

Henrique se afastou de repente, passando a mão pelo cabelo.

— Vá para casa — ordenou, mais duro do que antes. — Agora.

Levantei-me rápido, o corpo tremendo. Peguei minha bolsa sem olhar para trás.

Quando cheguei à porta, ouvi a voz dele uma última vez.

— Sofia… — ele chamou.

Parei, mas não virei.

— Se alguém perguntar, diga que ficou até tarde por causa do contrato.

Engoli em seco.

— Está com medo de quê? — perguntei.

Henrique não respondeu de imediato.

— De perder o controle — disse, por fim.

Saí da sala com o coração acelerado e uma certeza incômoda se formando dentro de mim.

Aquilo já tinha passado do limite.

E mesmo assim… eu não conseguia desejar que acabasse.

---

No caminho para casa, meu celular vibrou.

Mensagem de um número desconhecido.

→"Sou eu, Helena. Precisamos conversar."

O mundo pareceu parar por um segundo.

Meu estômago revirou.

Porque, naquele instante, eu soube:

o perigo não estava mais apenas no desejo.

Ele estava batendo à minha porta.

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