Capítulo 8

Depois daquela conversa, Henrique passou dois dias inteiros me evitando.

Nenhuma mensagem.

Nenhuma convocação à sala dele.

Nenhum olhar prolongado pelos corredores.

E, ainda assim, eu sentia a presença dele o tempo todo.

Era como se o silêncio tivesse se tornado mais barulhento do que qualquer aproximação anterior. Eu trabalhava tentando focar, mas cada som da porta da diretoria me fazia levantar o olhar, esperando vê-lo sair.

Não via.

E isso doía de um jeito estranho. Um jeito que me deixava irritada comigo mesma.

No terceiro dia, ele apareceu.

Eu estava organizando alguns relatórios quando senti aquele arrepio familiar na nuca. Não precisei olhar para saber que era ele. Mas olhei.

Henrique estava encostado no batente da minha mesa, sério, os braços cruzados. O olhar dele não tinha desejo explícito. Tinha algo pior.

Contenção.

— Precisamos conversar — disse, baixo.

Levantei devagar, sentindo o coração acelerar.

— Agora? — perguntei.

— Sim.

O caminho até a sala dele pareceu mais longo do que o normal. Quando a porta se fechou, o silêncio caiu pesado entre nós.

Henrique não se sentou. Andava de um lado para o outro, como se estivesse lutando contra algo que eu não podia ver.

— Eu não posso continuar daquele jeito com você — disse, finalmente.

Meu peito apertou.

— Que jeito?

Ele parou. Me encarou.

— Do jeito que me tira do controle.

Engoli em seco.

— Então é melhor manter distância — respondi, tentando soar firme.

— Eu tentei — disse. — Não funcionou.

A honestidade crua me pegou desprevenida.

— Henrique…

— Não — interrompeu. — Deixa eu terminar.

Respirou fundo, como se cada palavra fosse uma decisão difícil.

— Eu pensei que evitar você resolveria. Que se eu fingisse que nada está acontecendo, isso passaria. Mas não passa.

Ele se aproximou devagar. Parou a uma distância segura. Ou quase.

— Eu penso em você quando não devia — continuou. — E quando estou perto, penso ainda mais.

Meu corpo reagiu antes de mim. Um calor lento, perigoso.

— Isso não é justo — murmurei.

— Eu sei.

O olhar dele desceu rapidamente pelo meu rosto, demorando mais do que deveria na minha boca. Depois subiu de novo.

— Por isso estou impondo um limite — disse.

Meu coração deu um pulo.

— Qual?

— Não ficar a sós com você fora do trabalho — respondeu. — Não mensagens fora de horário. Nada que dê margem.

— E aqui dentro? — perguntei.

Ele hesitou.

— Aqui… eu consigo me controlar.

A resposta não me tranquilizou.

— E se não conseguir? — questionei.

Henrique se aproximou mais um passo. O suficiente para eu sentir a respiração dele.

— Então eu saio — disse. — Antes de te machucar.

A frase ficou ecoando dentro de mim.

— Você já está machucando — falei, quase sem perceber.

O maxilar dele se contraiu.

— Sofia, você não entende — disse, a voz mais baixa. — Se eu cruzar essa linha com você, eu não vou saber parar.

Meu estômago revirou.

— Isso soa como uma desculpa… e uma ameaça ao mesmo tempo.

Ele sorriu de canto, sem humor.

— É só a verdade.

O silêncio voltou a se instalar entre nós. Um silêncio cheio de coisas não ditas.

Henrique estendeu a mão, como se fosse tocar meu braço. Parou no meio do caminho. Recuou.

— Vai para casa — disse. — Hoje.

Assenti, sentindo uma mistura de alívio e frustração.

Quando cheguei ao elevador, meu celular vibrou.

Mensagem de um número desconhecido.

→"Você acha mesmo que ele vai escolher você?"

Meu sangue gelou.

Olhei em volta, o coração disparado.

Não precisava perguntar quem tinha enviado.

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