Capítulo 5

Depois da conversa, nada foi dito.

Mas tudo mudou.

Henrique passou o resto do dia em silêncio. Não o silêncio confortável de sempre, mas um silêncio atento, pesado. Como se estivesse observando cada movimento meu — sem parecer fazê-lo.

E eu sentia.

Sentia no jeito que ele demorava um segundo a mais quando eu falava.

No modo como o olhar dele me acompanhava quando eu levantava da mesa.

Na tensão visível quando algum homem se aproximava de mim.

Era como se algo tivesse sido despertado.

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No meio da tarde, Marcos, do financeiro, parou ao lado da minha mesa.

— Sofia, você pode me ajudar com esse relatório? — perguntou, sorrindo.

— Claro — respondi, girando a cadeira em direção a ele.

Enquanto ele falava, eu senti antes de ver.

Henrique estava parado na porta da própria sala.

Não disse nada.

Não se aproximou.

Só observou.

O olhar dele era escuro. Avaliador. Incomodado.

— Obrigado — Marcos disse, ao terminar. — Você sempre salva meu dia!

Sorri por educação.

Foi então que Henrique se aproximou.

— Sofia — chamou, a voz baixa demais para ser casual. — Preciso de você. Agora.

Marcos se afastou rápido.

Segui Henrique até a sala dele. A porta se fechou com um clique seco.

— Desde quando você resolve problemas do financeiro? — ele perguntou, sem rodeios.

Fiquei surpresa.

— Eu só estava ajudando.

— Não é sua função — respondeu, ríspido.

Cruzei os braços, sentindo algo se revirar dentro de mim.

— Com todo respeito, isso não é um problema.

Henrique se aproximou um passo. Apenas um.

— É quando vira intimidade demais.

Meu coração disparou.

— Você está exagerando.

— Estou observando — corrigiu.

O silêncio entre nós ficou denso. Carregado.

— Isso é ciúme? — perguntei antes de pensar.

Ele me encarou. Por um segundo longo demais.

— Não — respondeu. — É cuidado.

Dei uma risada curta, sem humor.

— Você não tem esse direito.

Henrique respirou fundo, como se estivesse tentando se controlar.

— Sofia, você não entende — disse. — As pessoas interpretam errado.

— Ou talvez você interprete — retruquei.

Ele se afastou de repente, passando a mão pelo cabelo.

— Vá trabalhar — ordenou.

Saí da sala com o coração acelerado e a sensação de que algo perigoso estava crescendo entre nós.

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No fim do expediente, eu estava sozinha no elevador quando a porta quase se fechou — e abriu de novo.

Henrique entrou.

O espaço ficou pequeno demais.

O silêncio era tão intenso que eu podia ouvir minha própria respiração.

— Sobre mais cedo… — ele começou.

— Não — interrompi. — Não vamos falar sobre isso.

Ele me observou de lado.

— Você não gosta da minha atenção — comentou.

— Gosto de respeito.

O elevador desceu lentamente. Cada andar parecia durar uma eternidade.

— Marcos não te olha como colega de trabalho — disse ele, de repente.

Virei o rosto para encará-lo.

— E você me olha como o quê?

Henrique ficou em silêncio. A mandíbula tensa. Os olhos presos nos meus por um segundo perigoso demais.

— Como um erro que não consigo parar de desejar — respondeu, baixo.

Meu corpo reagiu inteiro. O calor subiu rápido, traiçoeiro.

— Não diga isso — pedi, sentindo a voz falhar.

— É a verdade.

O elevador parou.

As portas se abriram.

Nenhum de nós se moveu por um instante.

— Você precisa manter distância — eu disse, quase implorando.

Henrique deu um passo mais perto. Não tocou. Mas o ar entre nós pareceu mudar.

— Então pare de me olhar como se estivesse indo embora — murmurou.

Saí do elevador com as pernas fracas, o coração descompassado.

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Em casa, tentei dormir. Não consegui.

Meu celular vibrou sobre o criado-mudo.

Mensagem de Henrique.

"Você não pertence a ninguém."

Li várias vezes. No início sem entender ao certo se aquilo ela um aviso ou uma constatação própria de Henrique.

Meu peito apertou.

Porque, pela primeira vez, eu percebi algo que me assustou mais do que o desejo.

Henrique não queria apenas me proteger.

Ele queria me marcar.

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