Mundo ficciónIniciar sesiónDepois da mensagem, eu passei o resto da noite acordada.
"Você não pertence a ninguém." As palavras não soavam como liberdade. Soavam como posse disfarçada. No dia seguinte, cheguei ao escritório decidida a manter distância. Nada de conversas desnecessárias. Nada de olhares prolongados. Nada de ficar sozinha com Henrique. Era simples. Ou deveria ser. — Sofia — ele chamou assim que me viu. — Entre. O tom não admitia recusa. Fechei os olhos por um segundo antes de obedecer. A sala dele estava em silêncio. As persianas semiabertas deixavam a luz entrar de forma suave demais para o meu estado de espírito. Henrique estava em pé, perto da janela, de costas para mim. — Você dormiu bem? — perguntou, sem se virar. A pergunta me pegou desprevenida. — Dormi — menti. Ele virou devagar. O olhar pousou em mim como se soubesse exatamente a resposta. — Não parece — disse. — Isso não é assunto profissional. — Nada entre nós é só profissional — respondeu, calmo demais. Meu coração acelerou. — Henrique, isso precisa parar — falei, reunindo a pouca firmeza que me restava. — Você é casado. Sua esposa já percebeu. Eu não quero problemas. Ele deu dois passos na minha direção. Não me tocou. Nunca tocava. E talvez por isso fosse pior. — Eu não estou te pedindo nada — disse. — Só que seja honesta comigo. — Honesta sobre o quê? — Sobre o que você sente quando está perto de mim. A pergunta pairou no ar, pesada. — Isso não importa — respondi, desviando o olhar. Henrique inclinou a cabeça levemente, como se estivesse analisando uma fraqueza. — Importa, sim — disse. — Porque você treme quando eu chego perto. Meu corpo reagiu à acusação. Um calor imediato, vergonhoso. — Você está imaginando coisas. — Estou observando — corrigiu. Ele se aproximou mais um passo. O espaço entre nós ficou mínimo. Perigoso. — Você também sente — murmurou. — Não — neguei, rápido demais. Henrique estendeu a mão devagar, parando a poucos centímetros do meu rosto. Não me tocou. Mas eu senti como se tocasse. — Olhe para mim, Sofia. Relutei. Mas olhei. O olhar dele estava intenso, carregado de algo que eu reconhecia. Desejo. Controle. Conflito. — Se eu tocar em você agora… — começou, a voz baixa, firme — você vai me afastar? Meu coração batia tão forte que doía. — Você não devia sequer pensar nisso — respondi, quase sem ar. — Mas penso. A mão dele desceu lentamente até parar perto do meu braço. Ainda sem tocar. — E você também. Fechei os olhos por um segundo. Era verdade. A parte que eu mais odiava. — Isso não vai acabar bem — sussurrei. — Nada que importa acaba fácil — respondeu. O silêncio entre nós era ensurdecedor. Eu sentia a respiração dele. O calor. A tensão presa entre centímetros. Por um instante, eu achei que ele ia cruzar o limite. Mas Henrique recuou de repente. Passou a mão pelo rosto, como se estivesse se punindo. — Saia — disse, a voz mais dura. — Antes que eu faça algo que não posso desfazer. Saí da sala com as pernas fracas, o corpo inteiro em alerta. Sentei à minha mesa tentando recuperar o fôlego. Foi então que vi. Helena estava parada do outro lado do escritório. Observando. O olhar dela encontrou o meu. Frio. Atento. Calculado. Ela sorriu. E naquele sorriso, eu soube: ela não estava mais apenas desconfiada. Ela estava esperando o momento certo para agir. E no fundo, comecei a sentir medo de onde essa história nos levaria. Só esperava, que no final, eu ainda estivesse inteira.






