Capítulo 6

Depois da mensagem, eu passei o resto da noite acordada.

"Você não pertence a ninguém."

As palavras não soavam como liberdade.

Soavam como posse disfarçada.

No dia seguinte, cheguei ao escritório decidida a manter distância. Nada de conversas desnecessárias. Nada de olhares prolongados. Nada de ficar sozinha com Henrique.

Era simples.

Ou deveria ser.

— Sofia — ele chamou assim que me viu. — Entre.

O tom não admitia recusa.

Fechei os olhos por um segundo antes de obedecer.

A sala dele estava em silêncio. As persianas semiabertas deixavam a luz entrar de forma suave demais para o meu estado de espírito. Henrique estava em pé, perto da janela, de costas para mim.

— Você dormiu bem? — perguntou, sem se virar.

A pergunta me pegou desprevenida.

— Dormi — menti.

Ele virou devagar. O olhar pousou em mim como se soubesse exatamente a resposta.

— Não parece — disse.

— Isso não é assunto profissional.

— Nada entre nós é só profissional — respondeu, calmo demais.

Meu coração acelerou.

— Henrique, isso precisa parar — falei, reunindo a pouca firmeza que me restava. — Você é casado. Sua esposa já percebeu. Eu não quero problemas.

Ele deu dois passos na minha direção. Não me tocou. Nunca tocava. E talvez por isso fosse pior.

— Eu não estou te pedindo nada — disse. — Só que seja honesta comigo.

— Honesta sobre o quê?

— Sobre o que você sente quando está perto de mim.

A pergunta pairou no ar, pesada.

— Isso não importa — respondi, desviando o olhar.

Henrique inclinou a cabeça levemente, como se estivesse analisando uma fraqueza.

— Importa, sim — disse. — Porque você treme quando eu chego perto.

Meu corpo reagiu à acusação. Um calor imediato, vergonhoso.

— Você está imaginando coisas.

— Estou observando — corrigiu.

Ele se aproximou mais um passo. O espaço entre nós ficou mínimo. Perigoso.

— Você também sente — murmurou.

— Não — neguei, rápido demais.

Henrique estendeu a mão devagar, parando a poucos centímetros do meu rosto. Não me tocou. Mas eu senti como se tocasse.

— Olhe para mim, Sofia.

Relutei. Mas olhei.

O olhar dele estava intenso, carregado de algo que eu reconhecia. Desejo. Controle. Conflito.

— Se eu tocar em você agora… — começou, a voz baixa, firme — você vai me afastar?

Meu coração batia tão forte que doía.

— Você não devia sequer pensar nisso — respondi, quase sem ar.

— Mas penso.

A mão dele desceu lentamente até parar perto do meu braço. Ainda sem tocar.

— E você também.

Fechei os olhos por um segundo. Era verdade. A parte que eu mais odiava.

— Isso não vai acabar bem — sussurrei.

— Nada que importa acaba fácil — respondeu.

O silêncio entre nós era ensurdecedor. Eu sentia a respiração dele. O calor. A tensão presa entre centímetros.

Por um instante, eu achei que ele ia cruzar o limite.

Mas Henrique recuou de repente.

Passou a mão pelo rosto, como se estivesse se punindo.

— Saia — disse, a voz mais dura. — Antes que eu faça algo que não posso desfazer.

Saí da sala com as pernas fracas, o corpo inteiro em alerta. Sentei à minha mesa tentando recuperar o fôlego.

Foi então que vi.

Helena estava parada do outro lado do escritório.

Observando.

O olhar dela encontrou o meu. Frio. Atento. Calculado.

Ela sorriu.

E naquele sorriso, eu soube:

ela não estava mais apenas desconfiada.

Ela estava esperando o momento certo para agir.

E no fundo, comecei a sentir medo de onde essa história nos levaria.

Só esperava, que no final, eu ainda estivesse inteira.

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