Capítulo 7

O sorriso de Helena não saiu da minha cabeça o resto do dia.

Não foi um sorriso de surpresa.

Foi de confirmação.

Ela não precisava ouvir nada. Não precisava nos flagrar. Ela já tinha entendido o suficiente para montar a própria verdade — e isso a tornava ainda mais perigosa.

Voltei para minha mesa com o corpo tenso, os sentidos atentos. Cada movimento parecia observado. Cada passo meu dentro daquele escritório parecia agora carregar um peso diferente.

Henrique não saiu da sala o resto da manhã.

Eu sabia que ele estava lá. Sentia. Como se a presença dele tivesse se tornado algo físico demais para ser ignorado. Em outros dias, isso me deixaria nervosa. Naquele, me deixava em alerta.

Perto do horário do almoço, meu celular vibrou.

Mensagem de Henrique.

→"Não saia hoje."

Li duas vezes.

"Não saia."

Não "almoce comigo". Não "preciso falar com você".

Era uma ordem disfarçada.

Respirei fundo antes de responder.

→"Por quê?"

A resposta veio rápida demais.

→"Helena está aqui."

Meu estômago afundou.

Levantei o olhar instintivamente. Helena ainda estava no escritório, conversando com uma das diretoras, elegante, segura, como se aquele lugar também fosse dela.

Guardei o celular, tentando parecer normal. Mas nada em mim estava normal.

Minutos depois, ela se aproximou da minha mesa.

— Sofia — chamou, com a mesma voz suave do café. — Você almoça comigo hoje.

Não era um pedido.

Olhei para Henrique, instintivamente. A porta da sala dele estava fechada. Ele não apareceria para me salvar daquela situação. E, talvez, nem quisesse.

— Claro — respondi, sentindo a boca seca.

O restaurante ficava a poucos quarteirões dali. Helena caminhava ao meu lado com passos tranquilos, enquanto eu sentia como se estivesse indo para um julgamento silencioso.

— Você trabalha com Henrique há quanto tempo? — perguntou.

— Um pouco mais de um ano.

— Bastante tempo — comentou. — Ele não confia facilmente nas pessoas.

— Tento ser profissional.

Ela sorriu de leve.

— Imagino.

Sentamos. Helena escolheu o lugar. Escolheu o vinho. Escolheu o ritmo da conversa. Tudo nela era controle.

— Meu marido sempre foi muito focado no trabalho — disse, casualmente. — Às vezes esquece limites.

Meu coração acelerou.

— Limites? — perguntei, cautelosa.

Ela inclinou a cabeça.

— Entre vida pessoal e profissional. Algumas pessoas confundem atenção com algo mais.

— Nunca confundi — respondi rápido demais.

Helena me observou em silêncio por alguns segundos.

— Não estou te acusando — disse. — Só estou protegendo o que é meu.

A frase caiu pesada.

— Henrique é um homem intenso — continuou. — Mulheres se sentem atraídas por ele. Eu sei disso. Sempre soube.

A forma calma como ela falava me dava mais medo do que qualquer ataque direto.

— Mas ele é meu marido — concluiu. — E eu não costumo perder.

Engoli em seco.

— Não há nada para perder. Não sou uma ameaça — falei, tentando manter a voz firme.

Helena sorriu outra vez. Um sorriso lento.

— Ainda.

Depois do almoço, voltei para o escritório com a sensação de que tinha sido medida… e considerada insuficiente.

Quando entrei, Henrique estava à minha espera.

— O que ela disse? — perguntou, assim que a porta se fechou.

— Que está observando — respondi. — E que não pretende perder.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Sofia, eu vou resolver isso.

— Como? — perguntei. — Fingindo que nada está acontecendo?

Henrique me encarou. O olhar duro, cansado.

— Não torne isso mais difícil.

— Eu já estou dentro disso — respondi, sentindo a voz falhar. — Mesmo sem ter feito nada.

O silêncio caiu entre nós. Denso. Cheio de coisas não ditas.

— Você precisa confiar em mim — ele disse.

— Confiar no quê, Henrique? — perguntei, sentindo o peito apertar. — Que você vai me proteger… ou que vai me esconder melhor?

A pergunta o atingiu em cheio.

Ele deu um passo à frente. A proximidade era perigosa demais para aquele momento.

— Não me provoque — murmurou.

— Não me coloque nessa posição — respondi.

Os olhos dele escureceram. A tensão entre nós ficou quase insuportável.

— Eu não estou brincando com você — disse, baixo. — Estou lutando comigo.

Meu corpo reagiu ao tom. Ao olhar. À honestidade crua.

— Então pare — pedi. — Antes que seja tarde.

Henrique segurou meu pulso por um segundo. Não forte. Não violento. Mas firme o suficiente para me fazer prender a respiração.

— Eu não sei se consigo — confessou.

E foi naquele instante que algo dentro de mim se quebrou.

Porque eu percebi que não era só desejo.

Era uma queda.

E quando você começa a cair, não percebe o quão fundo vai… até não conseguir mais parar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App